Cadê Você(versão 2026)?

Num país de perdas e de abandono, importa entender o significado da perda e do abandono para os que foram centrifugados para a periferia pelas diferenças sociais obscenas de um modelo plutocrata, sustentado por uma elite econômica com sólida consciência de classe e um repertório asqueroso de preconceitos. E não se trata de medir a perda ou o abandono pelo padrão de consumo, trata-se de acesso a serviços essenciais básicos, à dignidade, itens de humanidade.

Antes dos programas sociais de transferência de renda dos governos do campo progressista, o excluído brasileiro vivia o sonho que lhe era entregue por uma elite distante: visitar os seus que deixou empurrado pela pobreza; ter uma casa ajeitada, com tv, geladeira e uns tantins de coisa nova; um transporte que não o humilhasse; reunir amigos e parentes para assar a carne possível sob a estridência de histórias contadas pelo salto transcendente de cervejas geladas. Ainda que pisassem em esgoto a céu aberto na soleira de suas casas, encontravam seu jeito de ser feliz sobrevivendo.
A  perda e o abandono não deixou de ser um sentimento familiar aos periféricos, embora o futuro a eles hoje se apresente mais generoso. Há muitos periféricos nas universidades, nas estruturas de estado, ou disputando um mercado de trabalho a que antes não tinham acesso. Muitos se tornaram profissionais liberais e pequenos empresários. Vêm de um estrato em que boa parte das apreensões da elite eram resolvidas na marra pela dura realidade dos desconectados de terapeutas e advogados. Aborto, divórcio, preconceitos de raça, gênero e de estrato social, itens da agenda de costumes, sempre foram temas vulgares do cotidiano dos que se viram forçados a lutar ingloriamente por se manter respirando e felizes. Não se chocavam, antes da expansão evangélica, pelos incômodos mundanos da agenda da elite. Isso em parte mudou, reconheça-se, pela entrada em cena da teologia da prosperidade e da influência nefasta de pastores picaretas.

A história da luta dos periféricos fez do nosso cancioneiro popular, seu principal repositório, um cancioneiro da perda, do abandono. De amores que se foram pela fluidez da fidelidade ou pela imposição da realidade excruciante. Do abandono pela ausência doméstica inevitável por expedientes de dezesseis horas entre batente e transporte; do abandono pela degradação física por exposição ao trabalho excruciante; do abandono pelo desesperador espectro da fome. Da perda pelo abandono. Daí tantas canções que suplicam por alguém que se foi num emaranhado de impotência e espanto. Daí tanto “Cadê você?”, tão bem expressos e apaixonadamente retidos pelo povo por Nelson Ned, Odair, Amado, Paulo Sérgio e outros, e hoje vocalizados por sertanejos glostorados. Somos um país historicamente marcado pelo abandono dos mais humildes, que se desesperam pela incansável busca do “outro” que possa livrá-los desse abandono. Somos um país com periféricos a gritar “Cadê você?”. Lula, por ter vindo do território do abandono, entendeu isso. Não pode deixar lhe escapar pelas mãos, sequestrado por aventureiros radicais da direita, o bem que fez a tanta gente, entender o por quê de muitos dos estratos beneficiados por suas políticas sociais se ver tentado a votar num candidato ostensivamente dos ricos.

Os que viveram ou vivem o cotidiano do abandono representam metade dos brasileiros. Difícil imaginar que, em seu âmago, se deixem levar unicamente pela agenda de costumes ou falsas pregações moralistas inoculados pelos pastores da prosperidade. Ainda que dissimulem. Seus dias se dão pela expectativa de se manterem felizes a seu jeito, o que jamais desconsiderará os avanços que eles e seus filhos passaram a desfrutar. Diante deles, na urna, estará posta a opção de um governo que os inclui sistemicamente nas políticas públicas, e outro, que atacará direitos conquistados e apenas os tolerará pelo constrangimento de não tolerar. Foi esse povo que decidiu as eleições de 2022, ainda que bombardeado pela farra imoral de bilhões investidos em benefícios sociais efêmeros, distribuídos em larga escala por um governo destranbelhado e negacionista, aporofóbico. Embora os números das pesquisas não gritem, apenas reproduzam a polarização calcificada pelo impulso da intenção e pelos desdobramentos de crises que são coladas ao governo, alvo mais fácil, convém lembrar aos periféricos que, na reclusão da cabine eleitoral, precisam reforçar a escolha de 2022. Ao deitar seus olhos sobre o futuro, os brasileiros da base do edifício social sabem qual caminho lhes assegurará esperança para continuar a marcha da liberdade que os conduzirá por um deserto de abandono. Sabem por pulsão nocional que por esse caminho é justo esperar, pela saída da pobreza opressora, uma resposta para o recorrente “Cadê você?”.

Provavelmente, antes mesmo que os indecisos, eles decidirão as eleições. Mais uma vez.

Lula vai virar.


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