700 mil – Os Mortos Ainda Gritam em Nossas Consciências

Ainda vagueiam incômodos por nossa memória os primeiros rumores sobre uma estranha doença que forçou o isolamento radical de uma grande cidade chinesa. Um novo vírus, com alto grau de contaminação e avassalador em seus efeitos sobre nós, humanos. As imagens de uma cidade abandonada se prestaram a cenário aterrorizante de especulações sobre hospitais lotados, número de mortos se multiplicando sob a perplexidade dos cientistas. Nada confortava, tudo emanava gravidade, pavor.

Demorou para que a China alertasse a OMS sobre a descoberta do vírus, mas demorou menos para que a OMS reconhecesse a já nomeada Covid-19 como uma pandemia. Jamais nossas manhãs seriam as mesmas, tomadas agora de espanto e insegurança. Em pouco tempo o vírus se espalhou pela Europa, acumulando mortos em números cada vez mais impressionantes. E foi ganhando mundo, transformando tudo.  Era questão de tempo – pouco – para que chegasse entre nós. Um planeta interconectado tem sua ecologia própria, todos se interdependem, o outro, extensão viva de cada um de nós. Ouve-se pela primeira vez a recomendação científica de isolamento e quarentena como impositivo de sobrevivência. A pandemia ensinava: salvar o outro era salvar a si próprio. Poderia ter sido assim. Simples. Mas não foi. E os números da tragédia foram se encorpando.

Houve o choque do primeiro morto, a perplexidade dos mil mortos, o estrago se impondo pelo crescimento exponencial dos óbitos, números impensáveis, como rotina. Como se medem mortes para que as mortes passem a não nos desconfortar? Quantos 11 de setembro? Quantos terremotos, furacões? Quantos aviões caídos por dia? Quantas guerras? Exaustos pelo isolamento ou ameaçados pelas sequelas do desemprego, entregues ao acaso por um desencontro entre as orientações dos diferentes governos, o brasileiro voltou às ruas realimentando a proliferação do vírus e os números trágicos de seu rastro de morte. Seria aceitável naturalizarmos números tão aterradores? Esquecermos que a doença foi devastadora? Que sequer os órgãos podiam ser doados? Que era mortalmente intransitiva, que fechava um ciclo em que vida nenhuma podia ser gerada a partir da destruição que provoca, nem mesmo a vida lembrada pelo ato de despedida de quem se ama?

Há mais vida perdida quanto mais valorizamos o que a vida tem de arrebatadoramente simples. Um afeto, um estar à disposição dos amigos, uma palavra de conforto, um carinho espontâneo. Quanto há de vida perdida em cada morte? O quanto se perde por não poder mais contar com quem nos dá sentido ou rumo? Quantos afetos roubados, quantos possibilidades extraídas dos que viviam no entorno dos absurdos 700 mil?

Na escalada chocante das mortes contadas em centenas de milhares, muito já se comparou com tragédias conhecidas, tragédias que nos impuseram nossa dor mais sofrida. Mas toda morte para quem perdeu tem um sentido devastador de 700 mil mortes. Na impossibilidade de dizermos a cada uma dessas 700 mil famílias o quanto essas mortes nos afetaram, podemos olhar para os que amamos e entender ainda hoje o sofrimento delas. E cobrar muito pela responsabilização dos culpados pela escalada criminosa da tragédia no Brasil, de quem debochou dos mortos, de quem atrasou a compra de vacinas, de quem levantou suspeitas sobre os efeitos da imunização e incentivou o negacionismo, enquanto, em contraponto ao drama das famílias dos mortos, passeava de jetski e promovia motociatas.

James Baldwin, um dos líderes intelectuais da luta pelos direitos civis das minorias raciais nos EUA, aprendeu, no calor da luta, que é mais fácil chorar que mudar.

Se ainda formos capazes de chorar por cada um dos 700 mil mortos, seremos capazes de mudar, e, em respeito às famílias enlutadas pela dor da perda, entender que esta mudança começa por não entregar novamente o país a uma figura vinculada ao que há de pior, da milícia ao Vorcaro. Um fantoche delinquente que carrega no sobrenome e nas ideias o legado do deboche com que essas famílias foram tratadas num momento trágico de suas vidas.

4 de outubro poderá ter o peso de um réquiem cívico aos caídos pelo desprezo de um ogro que usou o nome de Deus para justificar atrocidades. A chance histórica de se tornar exemplo para não mais repetir, e se prestar à contrição dos brasileiros e brasileiras pelos despojos dos que morreram na pandemia. Não acabou, não acabará, mas cada justiça, ainda que bálsamo fugaz, provará que não os esquecemos.

Votar nesse 4 de outubro pode ser a oportunidade de afastar de vez esses fantasmas da obscuridade que ainda rondam ameaçadores nossa realidade.


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo