Os Cinco Bonecos

 “Sob o manto da maldição esconder-se-ão engenhos sob carne e osso, e suas fazenças semelharão realizações do demônio, e se multiplicarão por dez vezes o número de mandamentos inscritos na tábua tomada aos braços pelo profeta, e por mais dez vezes até o caos”. (Inscrição talhada numa tábua de carvalho encontrada numa caverna em Cardoso Moreira).

Já fazia tempo que não via o Prestes. Corria em Friburgo que ele andou por meses hospedado no Sanatório São Lucas, em Mury, distrito da cidade serrana. Andou por lá por cismar de espalhar pela cidade a história dos cinco bonecos. Lívido, olhar posto no horizonte entrecortado do simpático burgo fluminense, Prestes, homem pouco avançado nos estudos, clamava pela atenção de todos para uma catástrofe que por símbolos estranhos só ele conseguia antever. Soube pelo Valladares que Prestes espalhava ter em mãos uma carta psicografada. Foi tanta gente a cobrar de Prestes a epístola espiritual, que ele resolveu lê-la numa sessão na casa do Rodiney de Lena. A casa ficava ao lado da oficina do Alemão, que, boato corria, reunia nazistas da cidade. Impunha-se prudência e discrição.

Prestes pediu silêncio reverencial e deu por início a leitura da carta: 

– A todos e todas em que restem juízo e fé. Consta que a fenomenologia dos acidentes climáticos não admite tergiversação sobre a relação entre o equilíbrio hormonal nos chimpanzés assassinos e a ocorrência de tornados. Tratados de doutores serão derramados sobre as consciências vãs do mundo dando conta de que os chimpanzés tornam-se mais ferozes e sexualmente ativos aos primeiros sopros quentes que antecedem o redemoinho de ventos encorpados que destroem casas e se prestam a roteiros de cinema. Muitos acharão estranho que os chimpanzés fiquem alterados na África e os tornados se deem na América. Gentes atribuem essa estranha influência a uma nova forma de imperialismo, em que as universidades americanas exercem um papel crucial. Ficam por lá os acneicos acumulando colesterol, tecnologia e dinheiro, a transferir arquivos de redemoinho para as matas da Tanzânia, onde ciber-pigmeus cuidam de fazer chegar aos primatas, depois do devido download. Desse jeito instala-se o ciclo: os redemoinhos downlodeados transmitem tesão aos chimpanzés na África e em troco os tornados são previstos e controlados na América. Medo há que se ter dos dias de hoje, medo deste mundo em que não se respeita o humor instável do clima e o tesão dos símios.

Lida a carta, Prestes discorreu sobre os cuidados que passara a tomar depois de a carta lhe ter chegado às mãos.

– De minha parte tomo precauções. Se fazem isso com os tornados e chimpanzés, imaginem conosco. À noite assunto debaixo das camas por função de vistoriar os quartos pro fim de surpreender algum daunlôudi americano que possa pôr em risco minha família, soprando tornado enquanto durmo o sono dos tortos. Parecer pode paranoia e certamente muitos hão de desnegar. Mas num é não. Esses americanos estão arrumando um jeito de fuxicar a vida da gente sem precisar botar um pezinho que seja fora de suas fronteiras. Não vê esse troço de celular esperto, com gepeesse seguindo a gente? Outro dia mesmo um vizinho meu foi fazer xixi em um shopping e quando chegou em casa encontrou em sua caixa de entradas um reclame que prometia aumentar o pênis segundo técnicas que iam do puxão do dito à cirurgia. Cumé que os americanos garraram aquilo? Foi coisa de minutos.

Prestes mal respirava enquanto discorria sobre suas precauções.

– Antes especularem esteja eu variando das idéias, lavro em qualquer cartório declaração constando desinclusão de cocô em minha dieta e a assunção de jamais ter picado nem nota de dez. E pago os emolumentos. Estou sãozinho da silva, em dia com minhas obrigações de normalidade mental. Acontece que os americanos estão mesmo bisbilhotando as gentes mundo afora. E tome de nos empurrar devagarzinho pra fronteira rala da loucura, quando então se ocuparão de assumir o planeta sem soltar uma bombinha que seja. Bomba dá trabalho e deixa os muçulmanos putos da vida. Tudo culpa dessa tal de internet. Inventada por quem mesmo? Hein? Tem gente aprontando casamento sem sequer dar um cheirinho na nuca; gente que paga conta sem tocar em nota ou cheque; gente lendo revista sem virar página; tem até gentes fazendo bobagem separadas por um quinhão de distância de mais de mil léguas.

Prestes, cada vez mais dramático, concluiu: 

– O plano final dos gringos está em curso, e vou correr risco de morte por aqui tratar de soprá-lo aos ventos. O tal do plano é trama que nem o demônio ousaria urdir. Os americanos estão infiltrando grupos de cinco bonecos de carne e osso em tudo que é parte deste mundão de Deus, com direito a registro em cartório e copiando igualzinho uns e outros que se distraem, desalertados da terrível ameaça. Os cinco bonecos só têm vezo pra um destino: aporrinhar a vida dos que se ocupam de tocar honestamente o ofício de se manter desfolegado sob o céu. Tem destro, tem sinistro, tem comprido, tem baixinho. Há que ter com eles cuidado. Colam num grupo ou numa família e copiam igualzim, a espalhar desvirtude e maledicência. Antecedem o caos, os quinze minutos depois do nada, o Apocalipse em enredo bufão de meia dezena de cavaleiros. Clamo, em favor da integridade dos que desta história tomem ciência, pela discrição que se recomenda. Os emissários do Império fuçam os que tarefam desvendar o segredo. Onde andar gente pudica a costear devassidão, usando o nome de Deus para juntar dinheiro ou poder, desavergonhado roubando pobre, Zé-Ninguém enfronhado a besta, trabalhador cumpadrando com patrão. Em havença de gula em vez de parcimônia, desejo no lugar de contrição, podem crer, é tudo culpa dos americanos e dessa tal de rede do capeta. E dos cinco bonecos.

Por terrão em que essas predições se juntarem em coincidência cósmica, talvez elas não expliquem muita coisa, mas corram para o abrigo mais próximo.


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