Bichos num conversam por conta de conversa de fio. Conversam por vontade espreita, por chegança de hora chegada. Num é com todas gentes, é com gente tremeada. Faz pouco e hora mesmo garrei de prosear com uns e outros filhos do mato. Comum mais em Friburgo e São Pedro D’Aldeia, por terra de história de colar na minha. Era tal de passarim deixar recado, de cuíca hermeneutar, de colibri muxoxar desgosto. Ouvia e deixava o susto prontar sossego, o nunca virar toda hora. Passei momento bom com bicho fingindo sossego, remedando sestro, meio avoado, meio completo. Num prestei de duvidar do que parecia sonho acordado ou solução de dose de num fechar conta.
Por nunca intentei lucidez de receita, de pisar pé-de-pé sem encenar vorteio de torto. Num faço distinção de tá bom ou fugido. Tudo embaralha num mundo indescoberto, num pisar de chão firme e de través. Gosto de gostar de um travo de tempo em que num sei bem o que acontece. E vou palavrando com bicho, ainda mais por tempo corrido na dormida dos de casa. É quando a bicharada fala pelos cotovelos deles, que nem sempre cotovelos são.
Quando deitei por tempo praça no cerrado, fingi intimidade com o que num se timida. Vi na chuva grossa de cortina densa o que chovia no metro de areia que me apartava do mar da minha infância. Vi na seca de esturricacão a estria de um oceano de maré baixa. Num deixei calar estupefação. Quis morar aqui a morada de minha vida e acabei morando no que num se mora, já que morando na saudade. Foi susto atrás de susto, o não vir pelo vir acachapante. E soprei a paina das flores secas como quem sopra uma poeirinha de nostalgia.
Num faltou amigo que me alertasse de minha ansiedade descabida. O grande fotógrafo Rui Faquini já me alertara: “Bicho cerratense é bicho de pouca conversa, de frase de conta pouca”. Até que vez de outro dia, quando já desertava de prosear com bicho de me estranhar, uma raposinha do cerrado, cujas carniças dos seus voltimeia contava no acostamento dos caminhos retos deste Brasil de cima, se chegou de meu cantim dissimulado e chamou assunto:
– Se nome lhe importa, posso lhe pedir. Mas não carece.
Num sustei nem de pouco.
– Quem é você?
– Num sou ninguém, sou bicho pro entender de vocês. Andei volteando por aqui, querendo se achegar, mas…
– Que medo num o deixou chegar quando pensei não estar aqui?
– Tomo cuidado. Sou arredia por pagar com vida quando me tomo de rasgar prudência.
– Pode chegar
Dei jeito nuns papéis no rodeio do meu teclado, e fui curto:
– Até que agora eu me vou morando aqui, à espera de um sinal ainda que discreto de uma conversinha de noite adentro. Posso me ajeitar pelo fim do meu esperar?
– Vá em frente. Mas, desculpe, acho que sei seu nome. É Beto, num é?
– Eu sei que você sabe. Estou exposto. Num tem janela fechada por onde deito as minhas noites.
De raposas do cerrado tinha notícias, e delas, curiosidade. Curiosidade humana, pequena e intensa tal alma de criança. Quis lembrar a ela o que dela me lembrava, com as carniças chamando abutres em cada cílio de estrada. Há mais o que conversar, por contrário, quando conversa é pretexto de tempo passar. Fui metafísico tal mestrando cheirando a bolsa:
– O que lhe atrai em nós, humanos?
– Nada, absolutamente nada, só uma vontade, talvez, um certo…
– Você num desejaria por um naco de tempo ser gente?
Passou naquele qualquer de dois ou três segundos um tropel de espera expectada.
– Não, não tenho o menor desejo de ser o que não seja bicho. Talvez…pensando despior, pudesse brotar um desejo.
– Qual o seu nome?
– Mascarenhas, mas – olhando-me com o mais raposante olhar de raposa – fulminou: A deixar de bicho, a abrir pata de ser raposa, eu só admitiria ser um único humano.
– Quem então você, abrindo mão, ou pata, de sua condição de bicho, lograria ser? Temos bons humanos, gente que virou página de nossa ventura. Quem, Mascarenhas, quem você garraria de ser?
– Ninguém de monta de invenção de laboratório. Ninguém de engenho de planilha. Ninguém de descoberta.
– Quem, Saraiva, quem?
Os humanos voaram, pisaram chão de Deus e fábula. Marcaram terrão de ciência. Deitaram morada em construção de sonhos insonhados. O Mascarenhas de quase nada essas obras lhe atinavam. Interrompeu-me afoitamente, apressado pro deixar seu desejo marcado antes que me legasse apenas o delírio de uma noite endiando.
– Beto, pra ser gente, só me interessa encarnar em quem aos humanos aponte ancestralidade, em que juntou o resto do que não era ele, mas não refundou, porque refundar implica aceitar o fundado. Inventou origem e caminho, fez do tudo nada para do nada fazer tudo. Um quem que sendo gigante não guarde na alma predição de maldade ou fanfarronice. Pra deixar de ser bicho, Beto, eu quero ser Milton Nascimento.
Um boa noite cerrou a noite, pois só noite boa se fecha no prumo quando chamada por boa noite.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão