Há um ponto em que os músculos se distendem para fora do limite de nossa compreensão de afeto e dor.
E somos expelidos, úmidos e contraídos, irrompendo inseguros num mundo desconhecido de luzes e estrépitos a saltar inespontaneamente sobre o imprevisto. Deixamos a caverna tépida e envolvente, morada de nove meses.
E para lá queremos por toda a vida voltar, ainda que pela ponte do colo ou saudade, quando, em rito implacável e recorrente, a insegurança teime em nos revisitar.
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Quando quero lembrar de minha mãe, ouço “Mother”, do John Lennon.
Ouço e mergulho assombrado no caudal dos urros do fim da música.
Angustiante a sensação de desorbitar de um núcleo, de saber que os pais não estão mais ao alcance dos braços curtos de nossas aflições.
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Impossível ouvir “Meu Coração”, a linda canção de João Caetano que abria a segunda fase de Pantanal, e não me lembrar de minha mãe.
Ela não apenas adorava a música, mas a música foi nela se transformando no balé insidioso da lembrança embaçada de saudade.
Ouvindo agora.
Que esteja em paz.
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Minha mãe teria hoje 99 anos.
Sua vida foi abreviada por erro médico, mas viveu o bastante para nos legar o exemplo de suas muitas qualidades. Sertaneja da Chapada Diamantina, de princípios incorruptíveis, alma sensível, mãe e mulher dedicada.
Saudade que não aplaca.
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Para controlar pela Alexa, um Olimpo tecnológico, pus na tv da sala o nome de Juraci, minha mãe querida e fonte insecável de saudade. Volta e meia comando um “Alexa, ligar Juraci”, e me sinto um pouco Deus, trazendo vida por um desejo ainda que etéreo, mas vocalizado. Para desligar, uso o controle remoto mesmo, já basta a dor de quando a vida a desligou de mim.
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Desde menino me vi instado a apreender a essência das coisas pela linguagem codificada de minha mãe. Dona Juraci, de quem tenho sufocante saudade, reunia, com talento incomum, ternura e rigidez. Dotada de fino senso de humor, era a rainha da sutileza em suas metamensagens, imperatriz do sarcasmo cortante.
Dona Juraci usava um código comunicacional sofisticado, que exigia dos filhos um apuradíssimo senso de dedução.
“Heitor” – e era eu e não o meu saudoso irmão Heitor -, “pega aquela coisa com a menina lá embaixo”. E eu que me virasse entendendo que era comigo e intuísse o que era a “coisa” e de quem se tratava a “menina”. Com o tempo, eu e meus irmãos fomos aprendendo a decifrar aquela linguagem codificada de minha mãe.
Não é que esse aprendizado tenha me levado a entender confortavelmente a Cabala Luriânica ou a ler sem engasgo a tradução houaissiana de “Ulisses”, de Joyce, mas que ajudou, ajudou.
A prática adquirida me trouxe alguns dissabores nas trocas sociais, quando pareço demonstrar impaciência com pessoas que demoram eras pra explicar algo que já entendi no meio da primeira frase.
Se alguém tomou ou tomar isso como arrogância, aceite minha mais pungente contrição. Nem de longe é arrogância – sei nada de nada -, é só instinto de sobrevivência mesmo. Até porque, para a velha Juraci, arrogância se incluía na categoria dos pecados imperdoáveis.
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Dona Juraci, de quem o destino me bem aprontou ser dela filho, getulista, botafoguense. Não fazia forfait em comício do PTB, partido político de sua devoção. Criança inda, aprendi com ela a espalmar as mãos com os dedos esticados contra o horizonte para amplificar pelo estalo a palma batida nos comícios do Jango. Sua paixão pelo Botafogo só admitia concessão à minha obsessão doentia pelo Fluminense. Mãe amorosa, sofria com meu sofrimento quando o Flu perdia e ela me visitava no quarto para assuntar minhas noites insones. Só eu sei a carga simbólica de seu amor por mim quando torcia pelo empate no Clássico Vovô.
Costureira prendada, com sua velha Leonam de pedal, confeccionava, além de minhas roupas, as bandeiras e adereços tricolores que eu levava orgulhoso dela para o Maraca a bordo de um 434 lotado.
Quando saí de casa pra fuçar o mundo com minhas asas, ela jamais deixou de me ligar depois de um jogo do meu Fluminense, compartilhando alegria nas vitórias e oferecendo seu ombro nas dores das vicicitudes.
Com o tempo de sua partida, toda lembrança dela se reverbera de um sofrido afeto, de uma sensação permanente de incompletude.
Hoje, seu dia, mais que muito.
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Faz anos que não tenho a companhia da minha mãe no Dia das Mães. A família orbitando orgulhosa sua presença, todos protegidos e tocados por seu amor. A casa recendia cheiros de sua alquimia particular. Tudo meticulosamente arrumado e impregnado de doçura e rigor. Era o dia dos seus dias. Nós a reverenciávamos em seu rito de ser mãe em exercício pleno, com os seus sob suas asas hígidas irradiando felicidade de epifania. Reinava, por sua presença, uma sensação de segurança que mantinha os medos à distância segura de nossas fragilidades. Os doces fechavam a festa, com açúcar medido e afeto desmedido.
Todo ano, visito a saudade dela e desses dias dela, que só ela permitiu acontecerem como exata ou fugidiamente me tocam as lembranças.
Feliz Dia das Mães a todas e todos que são mães por se sentirem assim.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão