São espinhosos os atalhos da inspiração literária. Era de se supor que para grandes temas correspondessem grandes textos, mas o buraco é mais embaixo. A Literatura e a Ciência não são facilmente domáveis por deduções ou causalidades simplórias. Ambas as desmentem com frequência. Comecemos pela Ciência. Muitos dos mais sofisticados tratados científicos, na inglória busca do homem pela explicação dos fatos que a religião nos simplifica por dogmas ou pelo medo que temos deles, irromperam por fatos banais, distanciados do alcance universal de seus desdobramentos. Imaginemos que Newton optasse por fruir a sesta vespertina não sob uma inofensiva macieira, escolhendo por pouso para o corpo cansado a sombra abarcante de uma frondosa jaqueira, se jaqueira houvesse na Inglaterra. Ficaríamos privados das três leis fundamentais da Física pelo estrago que a jaca produziria no cérebro privilegiado do cientista que explicou a natureza das forças e suas relações com o ambiente em que vivemos. Sem a singela maçã de Newton, estaríamos hoje vivendo curvados sob a ação da gravidade, reagindo de forma submissa quando deveríamos impor à reação uma força igual e contrária. Teríamos um mundo de idiotas perseguindo equilíbrio. E de professores desempregados. Especulemos um pouco mais. Quem poderia supor que uma provocante morena, com os bem desenhados quadris docemente recostados no balcão de um bar vizinho do campus do MIT, pudesse estimular cinco aplicados estudantes do mais respeitado centro acadêmico norte-americano ao ponto de inspirar um deles a produzir uma teoria que revolucionaria as relações econômicas internacionais? Ali, naquela noite vulgar como são as noites em que estudantes bebem e azaram, John Nash teve o estalo de observar que em jogos múltiplos a boa estratégia é fortalecer um a um os adversários. Ganhou a mulher e o Nobel de Economia. Vá lá que o cara é esquizofrênico, mas quem não o é ainda que em pequena escala ou a seu jeito?
Na Literatura ocorre o mesmo fenômeno. Alguns escritores pretensiosos se debruçaram sobre grandes temas – guerras, revoluções, genocídios, escândalos políticos, altura das saias das mulheres – e produziram obras pífias, enquanto outros, como Leon Tolstoi, contaram sua aldeia e contaram o mundo. Reza o clichê que Proust estava diletantemente saboreando umas madeleines em um café parisiense, quando, observando os tipos que passavam, de lá se levantou para dar início à mais vigorosa aventura literária dos tempos modernos: “À Procura do Tempo Perdido”. A desproporção entre a dimensão do tema e a qualidade da obra científica ou literária nele inspirada carrega muita vez grandes injustiças da existência humana. Talento, por lado outro – e graças ao bom Deus -, prescinde de pompa para sua manifestação.
Dito isto, vamos ao que interessa, o livro do Nelson Motta “Uma Breve História de Uma Máquina de Jogar Bola”. Poderia haver no mundo fonte de inspiração mais abundante que a história do Fluminense, uma glória do esporte nacional, a maior instituição esportiva brasileira no século 20? O imenso Fluminense de conquistas épicas; de deuses que se sentam à vontade no Olimpo esportivo, fundando mitologias de corar inquilinos do Parthenon? O imenso Fluminense mobilizador de uma nação de apaixonados, referência por tanto tempo para o esporte mundial – o que o levou a receber a Taça Olímpica? O clube brasileiro que construiu o primeiro estádio de futebol em alvenaria, fundador do profissionalismo, inaugurador da seleção brasileira, instituição cuja história se confunde com a própria história do futebol brasileiro? Pois bem, o nosso Fluminense é reduzido nas páginas do livro do Nelson Motta a cavalo de um ego monumental, cujo brilho se restringe a uma quadra – linda, é verdade – mas restrita de nossa existência, sem as devidas referências históricas. O livro poderia ser apenas um erro isolado, não fosse o agravante de estar inserido em uma coleção em que torcedores ilustres homenageiam seus clubes de coração. A escolha apressada do simpatizante Nelson Motta se contrasta ainda mais com a escolha certa dos autores das obras que tratam dos outros grandes clubes brasileiros. O que se dá no livro do Nelson Motta não se dá nos outros títulos da Coleção Camisa 13, com os apaixonados e saudavelmente parciais livros do Rui Castro sobre o Flamengo, do Peninha sobre o Grêmio, do Olivetto sobre o Corinthians, do Mário Prata sobre o Palmeiras, do Veríssimo sobre o Internacional. Para se ter uma ideia de quanto a paixão deve pautar a relação do torcedor com o clube, o Peninha, no livro sobre o Grêmio, não cita uma vez a palavra internacional, ainda que num contexto em que o uso se impunha. Perdemos uma ótima chance de lembrar às novas gerações que o gigante Fluminense é muito maior que a pálida versão que os cartolas que causaram lapsos em nossa história cuidaram de esculpir.
O livro é até bem escrito. Pode-se pinçar aqui e ali um rasgo de refinamento literário, ou mesmo de sofisticação estilística. Mas são raros esses momentos. No mais, uma tragédia para a memória de Oscar Cox. Com uma narração fria, artificialmente distanciada, o escritor-pop consegue auferir tédio onde deveria vigorar paixão. Se considerarmos os lapsos nas referências factuais, aí mesmo é que a mula tosse. São tantos erros banais que nos fazem crer ter sido o livro escrito nas horas vagas da vasta agenda mundana do letrista de “Como uma onda”, embora o autor tenha por várias vezes adiado seu lançamento argumentando estar debruçado em um frenético processo de pesquisa. Nem a revisão da Bíblia pelo colégio de sacerdotes gregos, realizada pela imposição da descoberta dos manuscritos do Mar Morto, demandou tanto tempo. No caso da “Breve história…”, nunca tanto tempo serviu para produzir tantos erros. Edinho estreando no time de cima como lateral; Gil chegando ao Fluminense como ponta-direita; Dirceu vindo do Vasco para o Flu; Marinho Chagas sendo pernambucano; Vogts, que a vida inteira jogou no Borussia, sendo escalado no time do Bayern que levou um show da Máquina; Paulo César Caju despontando pelo Flamengo; e por aí vai. Bastaria para ser grave, mas não para por aí. Valida a versão falsa do episódio em que os ritmistas da Mangueira do tricolor Cartola desfilaram no Maracanã no sábado de carnaval da estreia do Rivelino usando por baixo da camisa tricolor o que ele chama de manto sagrado preto e vermelho. Um tricolor se referindo à camisa do rival como manto sagrado! Sem aspas! Glorifica a farsa da invasão corintiana – eu estava lá, e nunca foram os 50 mil corintianos da lenda urbana – e chama o Corinthians de Coringão, porra! Subestima o Manfrini, citando-o, com sarcasmo fácil, unicamente por sua propensão boemia, omitindo a bolaça que jogava o craque da chuva. Comete omissões iperdoáveis sobre tantos outros craques da época. E ainda debocha do lindo hino do Fluminense, por sua austeridade.
O livro nada mais é que um exercício apologético ao Horta, atribuindo-lhe folcloricamente qualidades de super herói, apontando-o como uma espécie de fundador de nossa história, em prejuízo do lindo passado construído pela glória de ídolos inesquecíveis. Embora reconheça no criador da Máquina qualidades de ousadia, criatividade e coragem, com o distanciamento histórico, pode-se hoje avaliar que todo o extraordinário esforço de construção do maior time de futebol de todos os tempos tenha sido manchado pelo festival de besteiras que marcou o fim de sua gestão. Obcecado por um jogador já em condições discutíveis – Marinho Chagas, Horta desmontou o que seria a base de um longo tempo de hegemonia no futebol carioca e brasileiro. Fortalecer os adversários, quando se trata de paixão clubística, desmoraliza até a tese nobeleira do gênio John Nash. A ênfase dada ao desempenho do Horta na montagem da Máquina é justa, mas até a exaltação se sublima pelo tom tépido das considerações do autor, o que levará muitos que não viram jogar aquele timaço a pensar estar ali apenas mais um grande time entre os grandes times da história do futebol brasileiro. Não, definitivamente não. Naquele momento histórico, formou-se um dos maiores times da história do futebol.
Sente-se na leitura um Nelson Motta com inescondível preocupação em fazer crer ao leitor que ele é torcedor, mas, antes, inteligente. Não me importa muito o fato de ele começar o livro confessando ter sido Flamengo; todos merecem a chance de procurar o melhor para si, e livrar-se de uma escolha equivocada. O Nelsinho da joia “O Cantador” enamorou-se do Fluminense quando o Fluminense reunia o sumo da resistência intelectual e etílica na MPB, no jornalismo e no teatro de vanguarda nos duros tempos da ditadura militar. Estar ao lado do Chico, do Mário Lago, do Tasso de Castro, da Elis, do Ivan, do Oduvaldo, do Sérgio Porto, do Gil, do Bôscoli, da Fernanda, creditava o jovem que punha os pés no cenário artístico brasileiro pelas mãos do sumo da geração-protesto. Passada a agonia, andou pelo rock-b dos anos 80, coadjuvou o “Manhattan Connection”, vindo a assinar depois a produção de bons musicais. É ativo em sua produção, tem a qualidade da inquietação. Jamais, porém, foi figura constante nos jogos e nos debates sobre o Fluminense. Quando se lê “Febre de Bola”, de Nick Hornby, um intelectual e acadêmico de peso, e simultaneamente um torcedor apaixonado, aprende-se que podem conviver em harmonia no mesmo casco existencial o obsessivo e o disciplinado. Não deve causar prurido a nenhum intelectual cioso dessa sua condição confessar-se saudavelmente fanático por um clube de futebol. O próprio Nick Hornby, João Cabral de Mello Netto, José Lins do Rego, Nelson Rodrigues, Rui Castro, confirmam a tese. Há bons livros sobre o Fluminense. Mas se escrito por um torcedor, não aceito a imparcialidade dos simpatizantes, dos cerebrais. Não desejo torcedor escrevendo sobre o Fluminense com o distanciamento de um scholar ao tratar da semiologia da língua quíchua. Para ser imparcial, temos os historiadores e jornalistas.
Salvam o livro a orelha – Pedro Bial – e o posfácio – Marcos Caetano. Este último uma pérola de visão parcial e apaixonada do torcedor real, daquele que traz ao futebol o tom de magia e encantamento que faz do esporte a contramão de todas as intuições humanas.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão