Logorreia e Drive Thru

Da criatividade brasileira sou devoto. Por aqui e por desaqui, qualquer observador que tenha juízo pra temperar tapioca reconhece: navegamos em solução onde tsunamisa o impasse. Somos resultado de uma formação etnográfica múltipla, que se revela por cada tantim de nossa diversidade cultural, rica de encher olho de regalo. Por invés, não cuido de justificar nossa inventividade pela via de uma tese antropológica canhestra. Resumo-a por conta de uma só virtude, ou desvirtude, se assim ou assado: brasileiro se apavora com não ter opinião. Tente confinar um brasileiro numa proposição acabada. Não dá, ele se desconforta, ele se inconforma, ele encontra logo um jeito de agregar uma visão pessoal. Somos uma nação verbal. Falamos de não mais dar conta. E se sozinho não convém por razão de juízo falar com as paredes, falamos pelos teclados. Por toa não é que lideramos todos os rânquins mundiais de participação em redes sociais, com gente deitando falação em vazão de cachoeira de chapada.

O brasileiro, por esquisitice ou prumo, motivou estudos de caso em todas as grandes corporações mundiais que por aqui focinharam seus interesses. Reagimos diferente, consumimos diferente, temos nossas próprias razões para não dar razão a teses pretaportê. Somos doentiamente verbais. Nosso tchau virou “Um beijo no coração, fique com Deus”. O bom dia não se contenta com um bom dia, tem que ser “Como vai, tudo bem com você, abençoado?”. Feliz aniversário, jamais lacônico como o recomendável, é “Que Deus nesta data te dê saúde, paz e muitas realizações”. Feliz Natal, trazendo no vácuo o novo ano: “Que a paz do senhor Jesus invada seu lar e o abençoe e à sua família e traga um ano com muitas realizações e saúde”. Somos maximalistas. E dane de falar. Falamos todos ao mesmo tempo, e não entendemos o silêncio como direito à introspecção ou mesmo um gesto de civilidade. Outro dia desses, num bar com os amigos, parei por um dois minutos por dar atenção a alguém da mesa que cagava regra sobre assunto vadio. Noutro dia já me julgavam em crise existencial. Nosso jornalismo é verborrágico, nosso cinema, muita vez, idem, com legendas a tomar meia tela em terras estrangeiras. Na literatura, exceções honrosas, reina texto gorduroso, com adjetivo fazendo fila e aquecimento pra entrar na página. No Brasil, quem fala, manda, ou impressiona, que é um jeito de não mandar parecendo que manda.

Se pelo temor de Deus ou diabo, brasileiro é praticante de sinal da cruz, pelo medo de não ter opinião, brasileiro entrega a alma ao Google. E tome de superficialidades adornadas por datas e citações de varejo de buscador. Não ter opinião tem para nós o peso de um estigma devastador. Se somos surpreendidos numa roda por um assunto de estranheza, caímos constrangidos com a carga de vergonha de um peido em casa de noiva.

Incomoda-nos o não ter o que ajeitar no ajeitado. É assim com cardápio, quando jamais nos satisfazemos com as opções meticulosamente arranjadas pelos donos de restaurante para auferir escala e método na cozinha. Brasileiro não se submete a cardápio, quer sempre ajustá-lo à sua cagação de regra pessoal. E aí intrinca o garção com as perguntas mais calhordas. “O estrogonofe pode vir sem creme de leite?”, “Tem arroz com brócolis sem brócolis?”, “Sai um macarrão a alho e óleo sem alho?”.

A apoteose de nossa histeria opinativa se dá no mundão dos fast foods. É um tal de Big Mac sem picles, Coca sem gelo, Mac Melt sem cheddar, Mac Chicken sem alface. Nada nos satisfaz em sua conformação original. E tome de fila-anaconda em drive thru, com carros demorando nas gôndolas a eternidade de nossos caprichos idiotas. E saímos do circuito com nossas mãos vazias, forçados a esperar no estacionamento, em vez de simplesmente sair do carro, entrar na loja, e despejar no balcão asséptico dos Mac Donalds nossa incontrolável cretinice de mudar o pronto.

Quando a pandemia nos assolou com seu peso trágico, tornamo-nos mais uma vez especialistas, com teorias que iam de teses eugênicas como a imunização de rebanho matando velho pra salvar taludo produtivo, passando pelo histrionismo da forma correta de lavar as mãos, pela cloroquina erguida no fronteirão do gado em semelhança com Copa do Mundo conquistada, pela hipérbole do confinamento radical. Com isso, partiram, por criminosa omissão de quem deveria agir e por falação de quem deveria se calar, 700 mil de nós.

O simpático desse engasgo é que nós brasileiros entramos para a história da cultura global do fast-food como o país que inventou o drive thru com mais fila que balcão.

Não é pouco.


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