Verbos foram pensados para servir. Prestam-se para manifestar opinião, expressar sentimento ou desejo. Servir – que é um verbo: o leitmotiv dos verbos. Não por outra razão, guardo encrenca dos diabos dos verbos defectivos. Por vigir verdade, confesso: nutro por eles um misto de bronca e desdém. Acho-os sem caráter, velhacos, pusilânimes, dissimulados, carregados de tônus ideológico radical, inflexíveis. São omissos, ridiculamente omissos. Se me incumbisse, por via de Deus, colorir um desenho banal e dizer a alguém que o estou fazendo com engenho, fico despermitido, por covardia do defectivo colorir, de simplesmente citar o instrumento com que dou conta de minha arte: “Coloro com o Winsor & Newton”. Não posso, sou opressivamente proibido de fazê-lo. Sou forçado a empregar o verbo usar, que eu não estava a fim de empregar, ou usar, sei lá. Ansiogênicos, os defectivos provocam tensões desnecessárias, cultivam personalidade canhestra, cerceadores da espontaneidade. Uma inversão imoral da função dos verbos.
Imagine um fiscal maneiroso, mas desonesto, ao relatar a um colega menos maneiroso, mas honesto, suas ciências de extorsão. Não cabe desonerar o companheiro do constrangimento de volteios verbais por lhe dizer taxativo: “Eu extorco com classe, sem riscos”. Obriga-se a dar voltas, persegue frases com torcicolo, deixa o outro tenso e, pelo verbo inachado, recorre ao plural majestático que torna cúmplice o honesto, embora com presunção de inocência.
Pense no Claudio Castro, ao tentar justificar sua fala fragmentada em um pronunciamento. Não pode, está impedido de retrucar “Eu balbuço”. E ficam todos rindo sorrateiramente, sem entender o real sentido da situação. Trágico.
Terrível a privação de expressões a que somos submetidos pelos verbos defectivos, esses canalhas da gramática. Não se pode falir na primeira pessoa, a admitir solitário uma culpa que não deve ser compartilhada com ninguém. Tem que usar “nós falimos”, pela opção rediviva do plural majestático, e vai pro saco o sócio, obrigado, pelo defectivo, a assumir com o inconsequente a culpa pela falência.
Fosse eu instado a dar conta do que faria se tivesse o poder de intervir, por obra de um poder imponderável, no esculacho do quadro atual das coisas, não me seria indefectivelmente permitido ceder ao impulso de rosnar: “Eu bano o Lira, abulo o Ciro Nogueira, ruo o Sóstenes, demulo o Flávio Bolsonaro, explodo o Malafaia, carpo o Caludio Castro, delo o Trump, combalo o Bolsonaro”.
Ao procurar alternativas gramaticais para a frase indizível, poderia dar tempo a essa gente, antes que as encontrasse.
Vai ver é por isso que nada ou pouco acontece com eles.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão