Ninguém com juízo pra temperar um ovo frito pode questionar a importância da pesquisa científica para a construção de um país assentado em princípios civilizacionais. Não se constrói um país civilizado sem Ciência, mas, bom lembrar, desde que a Ciência se abra para a cultura e as demandas reais do país, pois resulta do esforço de todos. Nem sempre assim é. Muita gente da Ciência vai no carrilhão de um isolamento asséptico da realidade da vida vivida pelos paisanos. Gente que senta a buzanfa na banca do pré-escolar e de lá só arreda aos 30 anos com um pós-doutorado nas axilas, deitando regra para os mortais que precisaram ir à luta. Os paisanos que, com sua ralação, veem subtraídos de seus ganhos os trocados necessários para a formação do grande bolo sustentador da demanda geral da nação. Há gente que passa a vida inteira numa bolha, financiada pela vaidade dos pais ou pelos programas de bolsas de estudo que alimentam o panteão acadêmico. Alguns cumprem o itinerário sem qualquer forma de enfrentamento de um embate sério, de um pega pra capar, descompromissados dos reais problemas do país. Alçam ao Olimpo pela via discutível dos diplomas empilhados. Grande parte, verdade, dedica-se a áreas de pesquisa importantes para o enfrentamento dos imensos desafios de um país mergulhado em culpas sociais decorrentes do pacto de descaso em que nos metemos desconstrangidamente. Outros muitos, apenas emendam mecanicamente curso em curso, acumulando um saber de especialização por vez descabida. Tornamo-nos, quando por vez, mantenedores de cartórios científicos cuja ocupação primordial é observar diletantemente os próprios umbigos. Embrulhamos nossos estômagos pela digestão difícil de um ensino básico que perpetua diferenças, mas avançamos como um general romano em direção à glória científica de perfumaria, com um exército de doutores que mal tiveram tempo de aprender a lavar suas próprias calças. Nada contra os doutores, fundamentais para embasar o desenvolvimento científico de qualquer país sério. A ciência brasileira se fez orgulho nacional, com expoentes respeitados mundo fora da cerca de nossos limites. Mas se impõe cuidado com a celebração de um modelo que outorga poderes vitais a alguns cedeefes desobrigados de pagar seus lanches e alugueis, cuja tarefa se resume em ditar regras para os que lhes conferem status e prerrogativas. Ciência, prioritariamente, deve auferir retorno social.
Não menos estarrecedor é o mundo dos pós-adolescentes de toga e pistola. Numa sociedade que normalizou a execração pública pela banalização de escândalos, só a cadeia assusta. E assusta por ser reprodutora da violência que pretende combater. E quem é que pede prisão, manda prender e prende? Eles, os nossos novos herois sociais: promotores, juízes e delegados. Fácil reparar no continental noticiário sobre a matulagem brasileira o surgimento de uma nova personagem, os Garotos da Lei. Gente que encomenda a toga ainda na primeira idade, muitos sem que ainda tenham sido pelo menos uma vez corneados ou experimentado um mal de amor, uma desilusão, uma porrada nos cornos de sua vaidade surda, ou mesmo tomado uma injeção de glicose pelo exagero da véspera. Juízes cheirando a mijo, promotores imberbes e delegados acneicos. Absurdo outorgar poderes cruciais para a sociedade a alguém que não viveu suficientemente a vida real que bate à nossa porta todos os dias. Quando abusam de sua autoridade, muita vez pela visão elitista de mundo que os ceva, sabem desde cedo que serão julgados por seus pares e ganharão de presente aposentadoria precoce, sem prejuízo dos vencimentos e sem punição concreta. Não há como dar certo.
Justo exigir idade mínima ou interstício para as funções de estado que exercem autoridade discricionária. Do jeito que nos ensinam as duas das mais antigas instituições humanas: a igreja e as forças armadas. Não importa se o padre se destaca dos demais por seu preparo e virtude vocacional, ou se um tenente é genial. Terão de esperar para ser bispo ou capitão. Santa sabedoria. O que tem de menino forjado na bolha de colégios caros julgando contextos para os quais só está equipado pela metabolização açodada do Vade-Mecum é uma grandeza. Ainda que se louve um certo tesão cívico dos meninos, tem que dar um tempo nisso, na pulsão de acertar as contas com o mundo pela histeria condenatória, pelo mandonismo histriônico. Juiz bom é forjado na têmpera do drama humano e social. Tem que viver a vida dos mortais, com seus vícios e ensinamentos. Por isso carece tratar com calma e critério a tara pós-gradueira que tomou conta desta terra de bolsões de analfabetos funcionais. Quer fazer mestrado? Justo, melhor ainda se esperar um tempo de graduado, indo à luta dos iguais. Vale para o doutorado e o pós-o-escambau. Tira antes o rabo da carteira e vem ver o mundão de Deus que respira aqui fora, sem a proteção higienizadora de cartórios.
E tratar de educar essa meninada que fuma crack, anda de fuzil e funga no cangote de nossas contrições sociais.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão