Faz pouco mais de um ano que implantei válvula aórtica e marca-passo. A ideia da finitude me aproximou de sentimentos turvados pela lida da tocação dos dias. Reencontrei meus desencontros em angustiante catarse, quase os toquei com as mãos. Meus filhos, filhas, Tereza, amigos e amigas serviram de aparador para que pousasse com segurança a louça desarrumada em mim. Muitas estavam rachadas de contrição, mas em serventia de uso, porque o que racha tem condão de memória. Sofri e sofro todos os dias com o risco de provocar matéria sensível. Tem seu preço, mas tem sabor, ainda que muita vez acridoce. Imergir na aventura de rever a vida em galopes de memória faz de nossas lembranças senoidais estimulantes, mas perigosas, embora libertadoras.
Será que fui compreensivo com meus pais enquanto os tinha em companhia? Será que me dediquei o que devia a aceitá-los por suas instabilidades, que tanta vez me fizeram bater no muro de frustrações etéreas? Lutei como devia lutar pelo amor e companhia de todos os meus filhos? Fui justo com quem devia ou injusto com quem não devia? Decepcionei meus amigos e amigas? Deixei minhas artérias serem tomadas pelo sangue fervente do ressentimento? O que fiz que não devia? Será que isso é mesmo importante? Não, não é. O que importa é viver a sensação de a cada dia não ser um elo frio da corrente que nos prende ao que verdadeiramente importa. Não se deixar tomar pela tentação de elevar ao altar sevicioso do egoísmo apenas o que nos toca pela impressão fácil, onde pensamos nos proteger das dores do entorno por um frágil broquel.
O Brasil precisa restaurar o sentimento holístico de que ninguém se salva sozinho de suas intempéries. Somos um só. Quanto mais gente ganha, mais gente ganha. Já faz tempo que o Brasil vem avançando em status civilizacional. Tiramos milhões da fome, protegemos nosso meio ambiente, inserimos os filhos dos mais pobres na roda antes exclusiva da formação superior, garantimos renda mínima aos vulneráveis. Tudo isso sem abrir mão do crescimento econômico, da inflação controlada e dos mais baixos índices de desemprego de nossa história. Voltaremos em 2027 ao posto de 8ª economia do mundo, de onde só saímos nos intervalos de um governo golpista e de outro da extrema direita.
Quando o Lula na ONU alertou o mundo sobre o Brasil ser grande demais para ser quintal de alguém, ele instilou um sentimento nacional de fé e solidariedade. No domingo do segundo turno da eleição presidencial, foram comoventes as cenas de trabalhadores de grotões se deslocando por balsas, cavalos, ônibus lotados, todos animados pela festa da democracia, uma festa de que eles jamais podem deixar de fazer parte. Eles são o motivo da festa democrática. Emocionaram também as imagens de velhinhos sendo conduzidos nos colos de seus filhos e netos, outros, em cadeira de rodas, tomados de um espírito que nos refunda como nação solidária. Estávamos sob o risco de ver o país ser conduzido por um filho da cultura miliciana, uma pessoa que jamais viveu a experiência de precisar se sustentar pelo suor de seu trabalho, alguém que nos reconduziria à barbárie da morte da empatia, um personagem do pântano mais fétido. Quando vi a entrevista da famigerada Daniella Marques anunciando um “tesouraço” que atingiria em cheio direitos dos trabalhadores, dos mais pobres e dos idosos, me assustou vê-la declarando, os olhos cintilados de brilho sórdido: “Estou louca para começar”. Foi disso que nos livramos.
Agora é trazer os jovens para a protagonização das políticas públicas, confiar neles, começar com eles a revolução real, a que nos fará navegar por este século na balsa da esperança que atravessou rios e igarapés em 25/11. Reformar o quanto antes o Judiciário, começando pelo expurgo dos ministros do STF que tenham relação com qualquer escândalo. Poderíamos começar pelo julgamento do Nunes Marques, Moraes, Toffoli e Mendonça. Num segundo momento, confinar a extrema direita à bolha de seus ódios e governar o Brasil com as forças de centro e esquerda.
Com a internalização dos efeitos da exploração de nossas terras raras, com a exploração sustentável de nossas novas fronteiras de produção de petróleo, com a gestão estratégica de nosso monumental patrimônio ambiental, criaremos as condições para o salto civilizacional, chegando ao G-5 da economia mundial.
As urnas indicaram o desejo da maioria do povo brasileiro. Aos perdedores, a humildade de aceitar esse desejo. Foi melhor para todos e todas. Sob a liderança do maior líder político da nossa história e, hoje, do mundo ocidental, continuaremos a caminhanda para um país próspero e justo. O mundo precisa de nós, mas, antes, nós precisamos de nós. O Brasil democrático pulsa num mundo ameaçado por guerras e forças obscuras. Que orgulho!

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão