Darwin sabia
Quanto mais a envelhança fucinha perigosamente meus horizontes, espero – louvado, Criador – ainda remotos, a ameaçar com um pálido tom laranja o azul etéreo que nos faz viajar pelos trilhos da vida eterna, mais vou me cambiando místico. Transcendo, por via de efeito, pé por pé, os aborrecimentos que me chegam pelo correio e superestimo as possibilidades de qualquer alegria de varejo. Pela cola do misticismo, que me vacina contra a degradação física e o franzinar da memória, fico assim me tornando uma espécie de mago de subúrbio, ou profeta do mato. Ando vendo um trem de coisas onde coisas não há, e vou me dando bem com essas invencionices encapetantes. Até aqui nada demais: uma ou outra alma assombrada, um pangaré de asas cá, um é-tê cabeçudo acolá. Saci, boi-tatá e caapora, vez por quando. Cardinalato partidário e eclesiástico todo dia. Não pela via do delírio, mas pela estupefação da realidade.
Curiosista praticante, vou assuntando o imaginário, cuidando de o manter suficientemente perto para instigar a loucura, e suficientemente longe para não deixar que a loucura se apodere de mim e me conduza por caminho torto. E assim passam os dias que contam as horas que passam dos minutos contados. Naquela manhã, no entanto, o bicho entortou. Não sei se pelo café forte da Dona Vera, cuja cafeína concentrada hora e outra me insere em um mundo de ensinantes alucinações, ou se pelo o que vai se contar aqui representar a expressão da verdade. Nem mesmo sei se por um ou por outro, mas aquela manhã me entregou pela bei uíndou do escritório um surgido de arrepiar os cabelos, o que em mim, constrangido alopécico, é obra de milagre de dez sermões. Troço estranho o que se passou.
Tratava eu de ouvir um apanhado de música árabe que andei recolhendo no Spotify, quando, ainda que luz não tenha faltado, meu computador abruptamente desligou. Religou e redesligou, e treligou e destreligou, até que ficasse a tela piscando freneticamente. O nublado do crepúsculo chuvoso ficou mais nublado, e da coluna formada pelo dobrar da janela que serve de paspatur para o corredor do condomínio surgiu um intensíssimo clarão. Intenso, porém fugaz. Foi-se o clarão e tudo voltou ao normal. Era o que eu pensei, mas nada disso. Minhas mãos e meus dedos fugiram de meu controle e procuraram o teclado tamborilando-o freneticamente. Um falado escrito ia surgindo na tela como se eu o apenas o psicografasse, ou psicodigitasse, diabo fosse. Em nome da preservação de minha lucidez, e dando cabo à determinação do Além – e com o Além não se troça -, transcrevo-o pros amigos deste cantim afetivo e quase confiável.
O texto:
“Beto Sales, por 125 anos meu espírito vagou perdido por todos os cantos do mundo. Flanei em vôo rasante por mares, oceanos, terras, desertos e neves. Em ninguém intuí a confiança necessária para que recebesse esta tarefa da qual preciso me desincumbir para que descanse entre os espíritos em paz. Em Galápagos, pensei em incorporar em um iguana, mas o iguana não tinha acesso à internet, e o que eu preciso dizer deve ser comunicado ao mundo agora com devida pressa. Desde Shrewsbury, onde encarnei por conta de minha última passagem na Terra, não me sinto tão aliviado, quando posso enfim dar por encerrados meus estudos sobre a Teoria da Evolução. Estou ávido por me libertar deste último compromisso terreno para poder chegar ao paraíso evolutivo e contar a Adam Sedwick e John Henslow a novidade. Anote aí, Beto Sales, e dê ciência à Humanidade. Faltava um estágio, o Quinto Estágio! Ao cabo dos cerca de 150 mil anos em que o Homo Sapiens deixou a África e foi ganhar mundo pela Europa, trazendo poesia e ciência ao viver árduo das cavernas e ocas, afinal esse estágio está por concluir seu ciclo. Tome nas mãos a tarefa e avise ao mundo que há um último Homo. Um humano desprovido de vaidade e competição. Um humano entregue ao altruísmo e à caridade. Um humano que não vende seu trabalho por dinheiro. Um humano que apenas trabalha pela essência da causa e que se dedica abnegadamente a tudo o que faz e ama. Um humano que prescinde do valor material e se alimenta de generosidade, paga os devidos com eflúvios de amor. A esse humano, Beto Sales, a esse novo Homem batizo Homo Abnegadus. Espalhe aos quatro ventos, faça correr os sete mares. Homo Abnegadus, o Quinto Estágio. Nada o detém em seu fundamentalismo caridoso, só quer se dar e não pede nada em troca. Serão, raros, raríssimos, deverão ser observados com critério meticuloso. Encontrá-los se constituirá tarefa penosa, pois estarão submergidos em meio à estridência da verborragia e o império da opinião. Mas preste muita atenção, Beto Sales, muita atenção. Homo Sapiens haverá que se dissimulará em Abnegadus, mas auferirá interesses materiais que semelhem apenas abnegação. Sua arma é a mentira do caminho fácil e sua desvirtude a dissimulação e a sem-cerimônia. Eles chegarão como profetas, infiltrados em igrejas, partidos e instituições, se autoproclamarão senhores da motivação, caminho da riqueza, deuses da teatralidade. Muitos usarão do poder dos púlpitos e do falso álibi da representação política. Mas os piores abarcarão as empresas e instituições com seus ritos histéricos, submetendo seus seguidores a um histrionismo patético. Venderão a vitória pelo protocolo vociferante, perseguirão funções públicas, encantarão multidões. Esses, Beto, esses deverão ser confinados e taxonomizados como Homo Motivacionalis, uma derivação logorreica do Australopithecus
Adeus,
Charles Darwin”.
Em transe, dei por terminado o que por terminado terminara e aqui estou apenas para cumprir os desígnios que se revelaram pela extravagante aparição. Desincumbo-me, assim, da missão de dar ao mundo ciência do que me foi passado, por obra e graça da capacidade repercutiva de meus dez leitores.
Oba, oba, oba, Charles.
Descanse em paz.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão