O Mago e o Mentor: Paulo Coelho e Augusto Cury

Por conta desses dias, com o tema da autoajuda ganhando o noticiário pela subida abrupta de um candidato à presidência, me lembrei de quando vi na tevê uma série sobre o Raul Seixas e de quando dei cabo à tarefa de ler o alentado “O Mago”, mais um rebento da talentosa maternidade biografeira de Fernando Morais. Daquela tanta sobre o best-selleríssimo Paulo Coelho. A leitura correu fluida, com picadinhos de volúpia entremeados por andar manso e firme, como as águas do Araguaia, por onde, quando li, deitei minhas angústias por bons sete dias. Jamais tinha lido Paulo Coelho, mas não o fizera por charme intelectual, ou por preconceito macacado. Brasileiro pretensioso é chegado a tranco de culturalmente correto, de ver novela de soslaio, de ouvir brega romântico enrugando olho, de dissimular contrição pelo falso livramento da armadilha piegas. Não li Paulo Coelho simplesmente por conta de um misto de falta de tempo com desinteresse. Desinteresse insuspeito. 

Se a temática do Paulo Coelho costeia com desembaraço a cerca da autoajuda, aprontando vida cheirando à tinta onde campeia soçobrança, sua biografia não foge muito disso. O ramo da autoajuda é um flagelo da modernidade, filho dileto de uma cultura centrada no ter pelo ter mais que os outros, negação estúpida do que nos aproxima da essência humana. Viver é mais complexo. Quando a esperança vem embalada com misticismo, aí é tiro na mosca do senso comum, sem erro. A única certeza que nos guia neste chão de Deus ou do tinhoso é o quanto a vida nos empurra pro patético, o tanto que ela nos limita em nossa secura de ser feliz, se felicidade fosse fundamental. A autoajuda nos desempurra de nosso destino óbvio, e entorpece feito haxixe fraseado com glicose.

A vida do Mago de Compostela é um apanhado curioso de fetiches, misticismos, desvantagens conviviais, complexos, fama, frustração, loucuras químicas, visões, delírios, caráter suspeito, trairagens, eletrochoques e o escambau. Ao pisarmos em sua trilha, sentimo-nos figurantes absortos de um mundo em êxtase. Taí o segredo do autor que pulverizou todas as estatísticas da literatura brasileira, o que nos incluiu, no fim do século passado, no rol dos países com índices civilizados de venda de livros: apresentar-se como louco, viver o mais próximo disso, enfiar os cornos no fundo do poço, e de lá sair pela via do inusitado, com direito a encontros metafísicos com personagens etéreas. E, no fim, enriquecer, que ninguém é de ferro. Tudo lembraria fraude, mas, por lembrar fraude, lembra verdade. Impulsiona-o o desejo repetido à tripa forra pelo biógrafo: ser um escritor com reconhecimento mundial e vender milhões de livros. Chegou lá, o que incita beócios a se verem capazes de repetição do fito. 

O provocante no fenômeno Paulo Coelho é que, enquanto a crítica brasileira, com seus próceres acadêmicos a inventar frases com torcicolo descia-lhe a ripa, a remoer sentimentos vez por meia inconfessáveis, o letrista de Gita ganhava mundo armado com números e marcos impressionantes. Foi louvado por gente do peso do imenso Umberto Eco, com sua semiologia tão ao gosto das bolsas da Capes, e mais uma meia-dúzia de não fazer feio em qualquer seleção de expoentes literários. Vendeu livros como um popstar. Mal podia caminhar sossegado por qualquer grande avenida de todos os cantins do mundo, o que sempre lhe causou confessável satisfação. Fechou contratos em cerimônias e tratativas encrencadas, próximas de um ídolo do Real Madri. O que nos estarrece no que deve estarrecer e nos conforta no que se propõe confortar: nem todos os cretinos dividem sua nacionalidade conosco. Pelo viés, assentam suas bundas nos bancos de praça planeta afora, e enfiam em seus cérebros toda raça de toxina intelectual que a praga da autoajuda carrega em sua celebração de auditório.

Muitos profetas da autoajuda enriqueceram com suas receitas simplórias de felicidade possível, vendendo vitórias pessoais improváveis como algo palpável, à semelhança dos pastores da teologia da prosperidade. Quando um Augusto Cury, celebridade da autoajuda, a bordo de seus milhões de seguidores, propõe soluções motivacionais para um país complexo como o Brasil, o impulso é aceitá-las, por ser mais fácil entender que soluções decorrentes de uma exótica teoria da vontade estão mais próximas de todos do que as construídas coletivamente pelas intrincadas demandas da sociedade em sua prolífica diversidade. 

Augusto Cury trilhou um caminho distinto para chegar ao mesmo fim do Paulo Coelho. Psiquiatra de formação, arquétipo do careta, esculpiu teorias exóticas como a da “Inteligência Multifocal”, que deu origem a dezenas de livros, embora rechaçada por seus colegas de profissão. Vendeu no Brasil e no mundo milhões de livros de autoajuda dissimulada por verniz teórico, enriqueceu com isso. Com uma multidão de seguidores nas redes sociais, animou-se a concorrer a presidente. Não vai ficar na faísca. Há campo fértil para os com o seu perfil num país idiotizado pelo bolsonarismo. Eleições no Brasil, presidenciais inclusive, se fizeram território de animais exóticos, de histrionismos patéticos, de voluntaristas estimulados pelo fundo do poço moral e intelectual do mais tosco presidente de nossa história.

Paulo Coelho e Augusto Cury são expressões de uma mesma carência social. Provedores de desejos que escapam da realidade crua das pessoas, de sonhos improváveis, os dois se assentam no campo pegajoso das ideias, onde se esconde, com suas tenazes de gárgulas assustadoras, o perigo do sonho devastado pela realidade.


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Comentários

2 respostas a “O Mago e o Mentor: Paulo Coelho e Augusto Cury”

  1. Avatar de Ricardo Manchester
    Ricardo Manchester

    Beto disse tudo e mais um pouco do mundo coach ,tipo as mil e uma maneira de enriquecer….

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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