A Carta

– Carmen, há alguma coisa estranha com o Lenilson. Tem mais de mês que ele não emite um som, uma palavrinha que seja. Vive pelos cantos da casa, voltou a fumar, às vezes dorme na sala. Se eu me aproximo, para evitar que eu pergunte qualquer coisa, ele se afasta. Tá muito estranho.

– Liga não, Marlene, isso é coisa de homem. Vem e passa. Todo mundo percebe que você e o Lenilson nasceram de um pro outro.

– Pois é, Carmen, são 28 anos de casamento. Pode ser impressão minha, mas nunca vi o Lê desse jeito.

Marlene tinha lá suas razões para estar acabrunhada. Lenilson andava meio estranho mesmo. Viajava mentalmente por um passado perigoso, pondo na balança descriteriosa da saudade as decisões que lhe deram rumo à vida. O que era para ser simplesmente o passado soava-lhe aqui e ali com a contundência de um remorso. Todos nós, pelo menos por um dia, nos enfiamos em dúvida quando revemos uma atitude que teve para nossas vidas o peso de uma opção excludente. E se naquele dia a minha paixão da adolescência fosse antes tirada por mim para dançar? E aquela viagem que não fiz e que alguns amigos voltaram dela namorando suas futuras companheiras? E se eu tivesse insistido na relação com alguém que ao deixar me ficou um travo de arrependimento? E se eu tivesse aceitado o convite para trabalhar em outra cidade? E se em vez de, por insistência de meu pai, me formar em engenharia, eu me formasse em Biologia, que era a minha vocação? Passear pelo ardiloso caminho do questionamento de nossas decisões vitais é vez por mais vestíbulo de infortúnio.

Lenilson fora levado à borda do precipício da contabilidade de nossos atos em vida por uma atalho inesperado: uma carta. Lenilson não recebia carta por tempo que não se conta. Estranhou-lhe aquele envelope endereçado com todas as letras e números a ele. Marlene, acostumada a recolher a correspondência da casa, não emprestou àquela carta nenhuma atenção especial. Tomou-a nas mãos entre os envelopes de extratos e contas a pagar que fazem de manipular nossa correspondência um ato tão proverbial quanto lavar louça. Antes mesmo de abrir o envelope, Lenilson teve um estranho pressentimento, uma visão. Soube logo ao tocá-la que aquela carta iria lhe trazer um fato novo para uma vida instalada confortavelmente na bitola da rotina. O envelope não era um envelope qualquer. Fugia do padrão pelo tom pastel do verde que lhe servia de margem. Ao abri-lo, o ambiente se tomou de um cheiro que a ele, Lenilson, era familiar. Antes de ler a carta, foi para a última folha e na última folha procurou ávido por quem aquela carta assinava. Com uma grafia graciosa, a exalar afeto e pureza, assinava-a Rosinha. Não sem antes reacender uma incompreensível esperança por um “Da sua de sempre…”.

Lenilson, agora imerso num turbilhão de lembranças, pôs-se a ler a carta. O tom carinhoso e melancólico ia conferindo à carta um caráter de confissão de arrependimento. Rosinha lamentava não ter procurado Lenilson antes da decisão de casar com Juarez, de quem estava se separando, segundo confessava no texto. Acomodado e feliz em sua relação com Marlene, uma companheira exemplar, guerreira, boa mãe e mulher, Lenilson agora se enfiava em dúvidas para as quais se mostrava vulnerável.

Veio logo à lembrança de Lenilson aquelas tardes inocentes de Passa Quatro, quando todos brincavam no parque. Os homens jogando bola; as meninas, entre uma e outra Amarelinha, se aproximando do campinho de pelada a deixar aqui e ali um sorrisinho de entrega no ar. Era o mais próximo da felicidade que ele experimentara em vida. Rosinha tinha dois irmãos, Joca e Lívio, o Livinho, e eram os dois muito amigos do Lenilson. Quando saiu da pequena cidade para estudar no Rio, Lenilson passeou de mãos dadas com Rosinha pelo parque que lhes serviu de cenário para as brincadeiras adolescentes. Pensou em fechar ali com ela um compromisso: ainda que distante dela, a ela se resguardaria para que um dia se casassem. Faltou-lhe mais coragem que vontade. Temia por ela não aceitar o relacionamento ausente. Tempos depois, soube por Livinho que Rosinha andava com planos de levar mais a sério o namoro com o Juarez. Ainda amando Rosinha, Lenilson por várias vezes ensaiou telefonar pra ela e, confessando seu amor, suplicar-lhe que desistisse do casamento para que agora os dois pudessem juntos retomar seus destinos. Nunca ligou, e isso agora, com a leitura da carta, o consumia.

Rosinha, antes de assinar a carta com a grafia que trouxe a Lenilson o frescor de um renascimento, fez-lhe um pedido. Queria encontrá-lo no mesmo parque em que por um capricho deixaram de atar suas vidas. Lenilson se tomou de dúvidas por dias e dias, e isso o angustiava, e essa angústia era razão de sofrimento da boa e velha companheira Marlene, ao ponto de levá-la a confessar sua inquietação à Carmen.

Lenilson precisava tirar aquela dúvida do peito. Não suportaria viver em paz com Marlene, se não fosse de forma honesta, seguro de seu sentimento. Precisava ver Rosinha para libertar-se dela ou quedar-se a ela. E fosse como fosse, seria sincero com Marlene. Lenilson respondeu à Rosinha numa carta econômica, quase lacônica, temeroso de que as palavras entregassem seu sentimento dúbio. Marcou dia e hora. Não foi difícil inventar uma história difusa para que Marlene não somasse à angústia de seu silêncio a dor da desconfiança.

Viajou para Passa Quatro com o coração em ritmo percussivo. Cada quilômetro da estrada lhe trazia um torvelinho de lembranças e temores. Ao chegar na rodoviária foi o último a descer. Por pouco não pegou um ônibus que o levaria de volta ao Rio e dar um fim a esse enredo louco, irresponsável. Não reuniu coragem para isso, e se entregou ao oceano de incertezas que lhe aguardaria em duas horas. Andou pela cidade, perscrutando em cada canto o que cada canto lhe trazia de lembrança de Rosinha. Vez por outra sentiu-se observado. Aprumava o corpo, passava a mão no cabelo. Trinta anos depois, estava mais gordo e com cabelos de um cinza quase branco. Não conseguia imaginar Rosinha que não fosse a Rosinha que deixou naquele parque. Linda, magrinha, com um sorriso de encher salão. Pedia a Deus que Rosinha não o idealizasse como o jovem a quem faltou coragem no passeio-despedida. Já no parque, Lenilson, suando muito, passava no rosto o lenço empapuçado. De suor e lágrimas, que não soube conter. Passados cinco minutos do horário do encontro, seu coração subiu-lhe à boca ao reparar um movimento de gente por trás de um arbusto. A imagem foi se revelando por entre a folhagem rala de maio, e se mostrou inteira num misto de espanto e salto.

– Livinho?!

Lenilson imaginou de imediato que Rosinha sucumbira ao medo do rencontro temerário, e pedira ao irmão que lhe oferecesse uma desculpa qualquer pela ausência inesperada.

– Livinho, cadê a Rosinha?

– Lenilson, a Rosinha vive muito feliz com o Juarez. Eles têm três filhos e uma família linda. Até hoje ela ama o Juarez com a mesma intensidade de quando casaram.

– Mas, Livinho…por que então ela escreveu aquela carta?

– Não foi ela, Lenílson, fui eu. Desde menino eu sempre fui apaixonado por você. E nunca pude lhe confessar. Hoje, estou muito doente, e não queria me despedir da vida sem antes realizar um desejo. Usei o subterfúgio de uma carta falsa porque sabia que você jamais viria ao meu encontro se eu simplesmente lhe falasse do meu amor.

– Porra, Livinho! Isso não se…Mas você não é casado?

– Sim, com a Dulce. Mas nos separamos, hoje ela trabalha na prefeitura de Carangola. Levou os meninos. 

– É grave sua doença?

– Esquece isso, eu só quero lhe dar um abraço.

Livinho foi caminhando lentamente em direção ao Lenilson, que, estático, não lhe opôs resistência. Livinho abraçou-o terna e vigorosamente. Chorava quando lhe fez um pedido final.

– Lenilson, posso te dar um beijo?

– Livinho, aí você já…tá bom, tá bom.

Livinho encostou docemente seus lábios nos de Lenilson. Encostou apenas. Lenilson consentiu o contato, mas recuou em seguida.

– Livinho, chega. Eu só quero que isso tudo acabe, e que você…bem…que você melhore. É grave?

– Deixa pra lá, Lenilson, já me conformei, vontade de Deus.

Lenilson saiu a passos lentos, passando aos poucos a vigorosos e, no fim, como a bater em retirada. Ao chegar na rodoviária, descobriu que ônibus para o Rio só no outro dia. Alugou um táxi. Durante a viagem não disse uma sílaba além de seu endereço, um muxoxo sequer. Chegou em casa, abraçou Marlene, e carinhosamente lhe perguntou: 

– Tem café, minha preta?


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Comentários

2 respostas a “A Carta”

  1. Avatar de Ricardo Manchester
    Ricardo Manchester

    Beto fantástico ,aguardo o livro Contis e Crônicas do Beto !

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado, amigo. Quem sabe um dia o livro saia?

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