As canetas emagrecedoras vieram para ficar. Trazem com ela boas notícias sobre uma velha guerra contra um mal da humanidade: a obesidade e suas consequências mortais. Mas trazem com ela também uma certa nostalgia da saciedade desregulada, porta aberta para o ágape das delícias venenosas. Tempo em que se comia sem carregar o peso do mundo, imune aos desdobramentos dramáticos da marca social dos gordos e dos incômodos motores do peso em excesso. Mas veio o tempo da razão, tempo em que os magros orgânicos passaram a desfilar sua imunidade carboidrática submetendo os gordos a toda forma de opressão e renúncia. Gordos têm níveis de saciedade fora dos padrões ascéticos, encontram na comida a droga que lhes gratifica pela mastigação feérica e mortal.
Gordos podem ficar magros, mas jamais deixarão de ser gordos. Ainda que magros eventualmente, ou mesmo por tasco generoso da existência, a peculiar noção de saciedade e recompensa dos gordos será sempre distante da forma como os magros veem o mundo.
Gordos jamais entenderão a ingratidão dos magros por poderem comer sem a contrição que vem agarrada a cada musse de chocolate ou batata frita que o gordo come.
De parte minha, penso ser bobagem de monte a ciência tentar entender os gordos por tratados intermináveis de teses e especulações; diagnosticar nos gordos, por testes sofisticados, sua tendência indesgarrável a se manter mentalmente gordo.
Sou gordo, aprendi a lidar com isso ainda que esteja temporariamente magro, ou aceitável. Deixo aqui uma dica aos cientistas. Esqueçam os corolários chatos e alentados e apliquem, antes de receitar as canetas, o Teste Doritos.
Ponham um saco de Doritos na frente de alguém. Se esse alguém abrir lentamente o saco e de lá retirar, a espaços de tempo seculares, um a um cada triângulo da gostosura, e ao fim guardar o saco com Doritos ainda dentro, creia, esse cara é magro.
Se outro abrir o saco num gesto violento, arrebentando a pré-costura industrial que lhe facilitaria a abertura do saco; pegar no mínimo quatro doritos por cada enfiada de mão; mastigar furiosamente os doritos enquanto já arma a mão para nova investida; sacudir o saco, batendo-lhe nos fundos com vigor e virar o dito na boca com os restos esfarinhados do Doritos; esse cara é gordo.
Com o teste, economizariam os hospitais com traquitanas tecnológicas e exames de laboratório, e ganhariam os gordos com a antecipação do início do tratamento. E com o prazer de ter matado um Doritão da hora.
Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão