Quando vi o Michael Jordan no sagrado uniforme da seleção brasileira, rendi-me ao óbvio: o Brasil abriu mão de uma de suas maiores integridades. Piorou quando os idiotas da objetividade argumentaram que era a marca de uma coleção da Nike. Desanimador, mas compreensível em tempos de recusa ao simbólico. O futebol brasileiro foi hegemônico no mundo por algumas décadas. Os números do que conquistamos em campo não encontram semelhança em nenhuma outra seleção do planeta. Somos pentacampeões, os únicos bicampeões em seguida dos últimos 60 anos. Antes, apenas a Itália em 1934 e 1938. Mas era uma Copa restrita, sem a representatividade que o torneio ganhou com o tempo. 16 jogadores nossos ganharam mais de uma Copa, todos eles no Olimpo do futebol mundial. Produzimos, por safras recorrentes, dezenas de excepcionais jogadores, e pelo menos uma dúzia de gênios. Fomos amados pelo mundo porque, ao contrário dos nossos vizinhos indigestos, jamais fizemos de nossa hegemonia arrogância. Tudo o que ganhamos, ganhamos jogando futebol. Quando fugimos disso, pagamos o preço. O futebol brasileiro se impôs como referência de estado da arte, e os povos de todos os cantos reconheciam nossa superioridade como algo natural.
Tudo começou em 1958. Poderia ter sido em 1950, quando sofremos o Maracanazo. Mas o destino tem vez que deixa de ser inconsequente. E quis o destino que o Brasil esperasse pela chegada de um menino que fez do futebol o que do futebol todos pensavam que seria impossível. O menino de 17 anos chegou a Estocolmo com a missão bíblica de liderar uma era. Saiu da Copa com o nosso primeiro “caneco”, mas foi além: entronizou-se Deus do esporte que se tornaria o mais popular do planeta. Com o auxílio luxuoso de uma geração extraordinária, em que pontificavam dois gênios, Garrincha e Didi, Pelé fundou as bases para um longo tempo de hegemonia do futebol brasileiro. Colou seu nome ao Brasil como referência automática. Nascia o país do futebol. Brasileiros pelo mundo, em turismo ou diáspora, passaram a ser saudados pelo código mágico de um dissíbulo com deliciosa sonoridade: Pe-lé.
Vi Pelé jogar dos meus 10 aos 18 anos. De forma intermitente, como intermitentes eram as fontes de acesso à informação. Pelé me assombrou por vê-lo desafiar a lógica com uma simplicidade acachapante. Aos que não o viram jogar, sua mística se manteve pelo farto registro de suas inflexões de impossibilidades e pelas referências hiperbólicas que a imprensa em encantamento fazia a seu talento. Justo. Absoluto gênio, incomparável. Construiu números espetaculares, ganhou três copas do mundo, sendo a última em performance memorável. A primeira, aos 17 anos, sepultando naquela fria cidade escandinava nosso trauma de 1950. Seu talento fluiu como um afago à sensibilidade, jamais rascante. Tornou-se verbete e referência para “o melhor”. O Pelé do basquete, o Pelé da poesia, o Pelé da política. Num mundo sem internet e longe ainda de engatinhar em sua integração, fez-se sinônimo de Brasil. Chefes de estado se curvavam à sua presença. Pelé, a palavra mais conhecida em todo o planeta, a palavra-chave, o primeiro vocábulo da globalização. Caçado selvagemente nos campos em tempos sem VAR e cartões, ainda assim sua arte fluiu como nascem sóis e luas, inevitavelmente. Foi Deus ascético, sim, não precisava ser mais que isso. Expressou valores de um arquétipo conveniente, que juntava à genialidade o bom-mocismo, ainda que em tempos duros da vida brasileira. Mas era o Pelé, farol e caminho. Exemplo de atleta, de “cidadão”, nada o afetou. Reinou soberano no coração do planeta, sobrevivendo, por seus dons excepcionais, a toda forma de patrulhamento. Nunca se obrigou a trazer para si causas que lhe serviriam de bálsamo e veneno. Diferentemente de Maradona, o que mais se aproximou dele, embora a distância sanitária. Maradona foi uma divindade humana, espelho de muitos de nossos defeitos. Pelé só precisava ser o que foi: Pelé. E assim será eternamente. Pelé, o Rei, o craque que esculpiu a Pietà de seleções brasileiras arrebatadoras. O Deus que fez do futebol arte e espetáculo, fúria e sensibilidade.
Quando a cada Copa do Mundo os idiotas se precipitam em comparar os novos gênios com o gênio incomparável, dá-se o mesmo fenômeno: a memória dos feitos do Pelé se impõe humilhantemente. Seus números, suas conquistas, seu repertório, sua capacidade de estressar as impossibilidades, de encantar, de fazer no campo o que não cabe em leis da ciência, fizeram de Pelé Deus de uma religião monoteísta. Que os cretinos monumentais e os vira-latas de safra aprendam: esqueçam o Pelé como valor que se coteje. Agora mesmo em 2026, Pelé sai de uma Copa ainda maior que entrou.
Para mim, o Rei Pelé foi uma máquina de invenção de impossibilidades, elevou o futebol ao plano inescrutável da fantasia, deu sentido aos contos fantásticos da infância em que eu punha os pés. Sob sua magia, entendi duendes, bichos falando, bruxas, princesas catatônicas, sapos beijadores.
Vendo-o jogar, tudo se explicava. Foi a minha máquina fantástica de Morel, do Bioy Casares. Sua importância vai além do gênio que assombrou o planeta, nada nem ninguém foi tão universal como ele. Quando se foi, meu mundo deixou de ser meu mundo. O mundo sem ele não é o meu mundo.
Que venham outras Copas.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão