Na esteira do espanto do caso Obama, em 2008, muito lixo se publicou na tentativa de interpretar o fenômeno eleitoral dos Estados Unidos pela via do facilitário. Grande parte flertando explicitamente com um discurso de autoajuda, o paraíso da subliteratura. Raríssimos textos se debruçaram sobre os aspectos realmente importantes da mega mobilização virtual provocada pela campanha do primeiro afrodescendente presidente da maior economia do planeta. Tudo era novo, e com o novo deve-se guardar prudência. O que à época se escreveu refletia o que se vinha estudando sobre o impacto cultural da grande rede, sobre o quanto os costumes seriam atropelados pelas possibilidades ainda insondáveis de uma ferramenta que subvertia radicalmente o conhecido. No caldo das interpretações, retumbantes bobagens foram ganhando densidade e as novas verdades prescindiam da calma das ondas tépidas que lambem a areia em harmonia desassustada. Só há um Obama, e sua surpreendente relação com as mídias sociais apenas sinalizava a alvorada de um tempo inquieto. Com particularidades inerentes àquele tempo e àquele ator político.
A internet, ao trazer à cena um processo de comunicação de todos para todos, prometia reunir simultaneamente duas qualidades que até então pareciam excludentes: a quebra de paradigma e a ancestralidade. Ela quebra o paradigma pela decretação do início do fim de uma era em que a formação de opinião se dá com base no processo um pra todos ou de poucos para todos. E ancestral, pois remonta aos métodos praticados pelas sociedades pré-midiáticas, quando a informação se disseminava pelo contato pessoal. O que faz a internet é tornar massivo, concomitante e fisicamente descolado, o processo de transmissão pessoal. Todos falam com todos, e todos se entendem ou se desentendem. De suas casas. Ao transgredir normas sociais, do direito à privacidade à propriedade intelectual, a internet ampliou também radicalmente o conceito de marketing, por permitir ao consumidor acesso fácil a várias fontes de consulta. Já não compramos um carro porque a montadora nos informa de suas qualidades sem que os testemunhos da nossa rede validem essas qualidades.
À época, o caso Obama causou frisson entre os marqueteiros políticos pela chance real de emplacar novos “produtos”, ainda que sobre os meios e a tecnologia não se tivesse informações confiáveis. Multiplicaram-se os panaceicos, ávidos por provar a candidatos e governos que a internet resolveria seus impasses de comunicação, com o benefício de um subproduto tentador: o aumento da popularidade a bordo de golpes de prestidigitação virtual. E assim foram governos e campanhas despendendo fortunas em soluções ineficazes, desgarradas de suas intenções. Coisas como infestar aleatoriamente o You Tube com vídeos institucionais, inserir perfis suspeitos em comunidades, construir redes chapas brancas, responder a perguntas higienizadas em sites oficiais. Engatinhávamos na internet, era justo imaginar que as mídias sociais confirmariam a expectativa de espontaneidade e do respeito incondicional a dois eixos sobre os quais qualquer comunicação ética se sustenta: convicção e honestidade. Acreditar num conceito e ser honesto ao defendê-lo. Sem isso, pensava-se, não se estabeleceriam os pressupostos para o marketing viral. Mas tudo mudou com a cultura das fake news e o império das narrativas que se consolidou com a massificação do acesso validando a voz dos imbecis de Umberto Eco. Jamais os idiotas, em suas interações sociais, pisaram um campo fértil dessa magnitude. Ao se sentirem encorajados pela descompromisso intelectual do que defendem, os broncos se prestaram a massa de manobra do projeto de poder da extrema-direita.
Muita gente séria vem se esforçando em entender e precificar o papel das redes em campanhas eleitorais, e muito se avançou nesse campo, embora produza mais estarrecimento que certeza. À semelhança da História, na internet, a repetição só se dá como farsa, com a diferença de que a farsa replicada pelo engajamento se assume verdade. Nada pelo ciberespaço se replica por modelos convencionais, verdades se dissolvem como espuma ao sol, e o marqueteiro, se honesto, deve prometer menos que alardeia, entender que nesse chão se caminha por terreno pantanoso.
No Brasil, estivemos próximos de uma experiência de mobilização virtual que poderia surpreender nas eleições presidenciais de 2010: a candidatura Marina Silva. Marina reunia algumas das condições, contextos à parte, que fizeram de Obama o fenômeno que a História já registrara. Por sua biografia e comprometimento com causas tão simpáticas aos novos tempos daquele tempo, a brava acreana guardava em sua biografia algo que na internet tem o peso de um transatlântico binário: a adesão espontânea ao insólito. O erro foi imaginar que essa adesão se desse no campo da sensibilidade, da humanidade. Qual o quê. Marina foi atropelada pela volúpia eleitoral de um partido que ajudou a construir e que precisava fazer o sucessor para dar curso a suas políticas públicas e continuar hospedando sua militância. Diferentemente do Obama, que assentou sua candidatura numa estrutura partidária gigantesca, Marina vinha por uma pequena legenda, mais romântica que pragmática. Não resistiu. Tempos depois, com o golpe que levou o Lula à inelegibilidade, em 2022, o PT provou de seu veneno nas redes. Numa escala absurdamente maior e mais devastadora. A extrema-direita ocupou o território virtual, subvertendo o espírito que muitos imaginaram que as redes preservassem em priscas eras. E o que se deu, a eleição de um tosco, vem fazendo o Brasil pagar um alto preço histórico pela irresponsabilidade de se votar pelo ódio aspergido na internet. Ódio que prosperou e se tornou o código vital das redes sociais. Hoje, com a ascensão da direita pelo engajamento de seu discurso feroz, os valores da tolerância e ética foram carimbados como fraqueza, ecoando a visão masculinizada, misógina desse campo ideológico. Sustentar discursos “do bem” se fez armadilha. Qualidades humanas foram taxadas como sinalização de virtude. Pior para os novos tempos.
Se Marina à época tinha chance de vencer, é outra história, mas representava uma esperança, por ser a candidatura mais identificada com os então idealizados arquétipos das redes sociais, atrelados à presunção de um território ético. Mas duraria pouco. O que prevaleceu é o que hoje observamos: a internet se tornou uma savana de catarses selvagens, um serpentário de frustrações. O jogo mudou, e nele, ser ético, já não é impositivo.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão