Eles Estão Indo Pra onde?

Boas histórias há sobre personalidades que jamais aceitaram a ideia da morte. Tem a do Oscar Niemeyer, aos 90 anos, reagindo a um carinho da neta que desejava lhe dar de presente uma tartaruga. O gênio da eloquência do vazio reagiu: “Não, meu amorzinho, sabe como é, a gente se apega a esses bichinhos, depois eles morrem e a dor é grande”. Na Globo, dizem os que trabalharam próximo ao chefe, era comum o Roberto Marinho, já octogenário, conversar animadamente sobre projetos para quatro décadas. E neles se incluir. Mas a melhor vem do repertório sombrio e folclórico das histórias do Generalíssimo Franco. Franco comandou com mão de ferro a vitória dos monarquistas sobre os republicanos na guerra civil espanhola, um dos mais dramáticos fratricídios da história. No embalo se fez ditador. Austero, cruel e intimidador, Franco provocava em seus auxiliares mais próximos o pavor de lhe levar notícias ou assuntos que o desagradassem. E nada desagradava mais o líder falangista que a ideia de morrer um dia, hipótese que desconsiderava. Quando muito doente, no leito de morte, ainda assim o cruel ditador impunha medo a todos os que o serviam. Num gesto de despedida ao tirano fascista, seus simpatizantes tomaram os arredores do palácio Real de El Pardo, onde Franco cumpria seu martírio. Já condenado pelos médicos, em estado letárgico, Franco há dias sequer balbuciara uma palavra. A tarefa de comunicar ao Generalíssimo a presença do povo na praça para prestar homenagem ao “herói” da guerra civil coube a seu ajudante de ordens. Borrando de medo, o assistente sussurrou ao líder moribundo: “Generalíssimo, o povo espanhol está aqui na praça para se despedir do senhor”. O déspota, em sua derradeira frase, estranhou: “Eles estão indo pra onde?”.

Franco, ao recusar pela última vez a ideia da morte, o fez de forma tão mitômana, que reduziu o povo espanhol à expressão de um ente único sob seu controle, que reagiria em bloco, à margem de suas conflituosas diversidades. Uma simplificação que lembra o comportamento de muitos torcedores que se manifestam impositivamente sobre como a torcida deve agir e pensar, os sommeliers de torcedor. Ingênuos, atribuem à torcida uma expectativa que só se realizaria no plano individual restrito de seus códigos de valores. Não se motiva um grupo de pessoas com traços sociais, comportamentais, humanos, tão diferentes pelo simples ato de um imperativo de ordem: “Associem-se!”, “Vão aos estádios!”, e outras pérolas de exortação vazia. Em geral, esses comandos se dão no ambiente contaminado das redes sociais, como se o indivíduo “torcida” fosse um disciplinado seguidor dessas vozes estridentes que lembram patrulhas de opinião e influenciam muito pouco ou nada. A liberdade de o torcedor agir segundo suas convicções se fortaleceu pelo alcance antes impensável da informação. Ninguém prova amar mais um clube por se submeter a um código ético autoimposto. As relações entre torcedor e clube se dão no plano intangível da paixão e se expressam de forma saudavelmente diversa. Jamais deixei de amar o Fluminense com a mesma intensidade, indo ou não aos estádios, comprando ou não produtos, obedecendo ou não a palavras de ordem voluntaristas. Acompanhei o Fluminense nos estádios por mais de 50 anos, desde a final de 1963, aquela em o Escurinho perdeu, no finzinho do jogo, o gol que nos daria o Carioca justamente em cima do Flamengo, nossa vítima preferencial. Havia rivalidade saudável, menos concentração de torcedores em um único clube. No início dos anos 1960, uma década antes da mobilização gigantesca empreendida pela Frente Ampla do Flamengo(FAF), sob os auspícios do Walter Clark/Globo, o Ibope, em pesquisa associada ao Jornal dos Sports, ranqueava as torcidas cariocas segundo números menos acachapantes que os de hoje: Flamengo, 29%; Fluminense,19%; Vasco, 18%; América, 6%; Botafogo, 5%; Bangu, 2% e São Cristóvão, 1%. Incrível, não? Até a irrupção do Projeto FAF, esses números só se alteraram um pouco a partir dos títulos que o Botafogo, com duas gerações de craques, conseguiu no início e fim dos anos 1960. Ainda assim, nos anos 1970, a torcida do Fluminense mantinha-se à frente do Vasco, bem à frente do Botafogo e não muito distantes do Flamengo. Havia mais diversidade, um equilíbrio vital para que as rivalidades fossem estimuladas e reaquecessem a motivação do torcedor. Ir ao estádio era barato, uma festa segura e estimulante. A bilheteria sustentava a maior parte das necessidades dos clubes, o torcedor se sentia pertencido e sócio simbólico em seu singelo ato de ir ao estádio. Eram tempos em que o futebol rodava com números modestos diante do derrame de dinheiro de hoje.

Quando veio a planejada onda “Zico” articulada pela FAF, o estrago produzido na correlação de forças do futebol carioca foi monumental. Um massacre midiático e ético, criou-se uma hegemonia que em pouco tempo se refletiu no campo e nos cofres dos clubes cariocas. As consequências foram se impondo. Em trinta anos, a população do Rio dobrou, mas o Fluminense manteve sua média histórica de público, crescendo apenas quando o desempenho empurrava o torcedor para o estádio. No Rio, as circunstâncias ganharam dinâmica própria. Depois do tornado FAF, veio a época do domínio euriquista na FERJ, num conluio a céu aberto entre o polêmico cartola vascaíno e o indefectível Caixa D’Água, que alavancou o Vasco e o fez capturar por um tempo a rivalidade preferencial com o recém-sacralizado Flamengo. Hoje, há novas motivações na decisão de o torcedor ir ao estádio ou se associar ao clube. Na decisão de ir ao estádio pesam fatores como conforto, preço, mobilidade, segurança, e, claro, desempenho do time. E não menos importante, a concorrência das transmissões dos jogos, cada vez mais acessíveis pela vigência de um novo modelo de negócio na gestão do futebol. Para se associar, além desses fatores, impõe-se confiança na gestão. O torcedor precisa se convencer de que cada real investido por ele estará em mãos competentes, e que a resposta em desempenho virá com o tempo. Vivemos em cidades sitiadas pela violência, muitas vezes reproduzida nos próprios estádios. Nossos trabalhadores, diferentemente da Europa, têm renda incompatível com o volume de consumo que o torcedor precisa manter para custear os atuais investimentos absurdos demandados por um time da elite. Uma nova elite, que hoje se compõe dos clubes que optaram por práticas de governança mais atrativas ao investimento de parceiros econômicos, indispensáveis ao enfrentamento da nova realidade do mercado, em que o torcedor sai de seu papel de financiador direto para o de valor agregado.

O Fluminense ganhou três títulos brasileiros em cinco anos. Sabíamos que em algum momento os investimentos da Unimed se retrairiam. Não soubemos usar à época essa importante vantagem competitiva para nos reposicionar nacionalmente e gerar programas competentes de captação e fidelização de torcedores e sócios. Perdeu-se um ciclo virtuoso que poderia ser retomado com a conquista histórica da Libertadores, o que não se deu. Ciclos que dificilmente se repetirão num contexto em que as receitas mais importantes do futebol se concentrarão nos clubes de ponta ou nos que optarem pelo pouco testado modelo SAF.

Já fui sócio contribuinte, sócio-torcedor, sócio-tudo-que-é-jeito, mas o associativismo paroquial se exauriu. Amigo e cavalo cansam, como ensina o velho adágio. Hoje não vejo opção para o futuro do Fluminense fora da abdicação da cultura arcaica, catalisadora de oportunistas e populistas de vestiário. Não cabe mais a submissão a quem não paga o preço de sua incompetência e que, pelo controle da política interna do clube, se mantém no poder feito um monarca. Hora de um cavalo de pau no modelo de governança, ainda que se preserve o conceito associativo, necessariamente mais flexível. Muitos clubes de tradição pagarão caro pela desconsideração da ideia da morte, fechados em uma retórica de eternidade que comove o torcedor desavisado, embora correndo o risco de se dissolver diante de uma realidade de mercado incontornável. Quanto aos torcedores deserdados da tradição gloriosa, lembrando a prepotência divinal de Franco, cabe a pergunta: “Eles estão indo pra onde?”.

Não é difícil deduzir para onde irão. 


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Comentários

2 respostas a “Eles Estão Indo Pra onde?”

  1. Relaxa. Se esse ano nós morrermos, no ano que vem não morreremos mais. A ironia macabra é a de que o plano de auxílio funeral mais famoso aqui da cidade chama-se justamente “SAF”. Vida que segue, o pulso ainda pulsa, e bola pra frente. ⚽

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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