Vez sem desvez, os que podemos consumimos nossas vidas pela histeria de cumular, de jogar no cesto de nossa vaidade tudo quanto é capricho ou traquitana que pode juntar a bufunfa que suamos ou não para ganhar. Se filho macho em idade de atrevimento, a lida de muitos é juntar de forma a prover o suficiente pro cabra cair solto no vidão, pra mulher nenhuma recusá-lo por muxoxo ou desconsideração. Pro filhão mandar no pedaço, cobrindo-o de mimos e caprichos. Se é filha, junta com razão pra ela não depender de vontade de marmanjo, o que pra valer mesmo, numa sociedade impregnada de misoginia, seja forjá-la pra ser o que quiser ser, livre e respeitada em suas opções, pronta pra tomar o mundo, seu destino e função. A gente junta. Junta pra dizer que tem, o que num é só de conta de se dizer por palavra de letra, mas pelo que mostramos ter. No balaio desse ter ou mostrar ter entra tablet embaçado, celular encardido, camisa grifeira, carrão de capa de revista, TV fina feito canela de tópi-model, sonzão de costear por efeito a escala de Richter, livro com tomada, vinho de três dígitos, restaurante de quatro, viagens paradisíacas. Entra mais. Entra contar pro resto de mundo que o endereço onde se mora é o que restou do Paraíso, se por lá desmorasse serpente.
Tudo isso vale para até quando se passa a contar tempo do jeito de leitura de livro japonês, de trás pra frente. Quando se vive a vida não mais pelo enredo de capítulo, mas pela capitulação do enredo. Quando se chega aí, nesse pedaço de mundo vivido onde o que se quer é deitar a carcaça depois de mais um dia vencido, só há algo realmente que importa: o nosso quarto. De que valem as cidades e os bairros da cidade e o burburinho das ruas dos bairros das cidades e os edifícios que nos abrigam nas ruas dos bairros das cidades? De que vale o que paira circunstancialmente em volta de nosso santuário e refúgio? O mundo em volta murcha de importância tal bexiga mal amarrada. Só resta do mundo o mar bravio que dele fazemos pretexto para voltar em êxtase como náufrago à ilha. Nada mais substitui o prazer de, vindo de onde for, de lugar de chão ou imaginado, fechar a porta do quarto e se entregar àquele ambiente-útero, em que cada palmo de ar é perscrutado pelo esforço de meio metro. Transposto o portal que nos aparta de nossos quartos, sóis se põem em pano de fundo de cerejeiras exuberantes, caminhamos por jardins de violetas que salpicam de uma tela imaginária como números e fórmulas cintilavam da lousa a John Nash. O céu nos abarca em dimensão doméstica de planetário e somos envolvidos pelos braços aplacadores da casa da calma. Quem pode, controle remoto à mão tal samurai tecnológico, entra solene pela epifania de roupas largas, biscoitos de polvilho ou cinicamente fit, cocas zero, espelhos parcimoniosos, banhos de césares, livros em pilha, streaming parrudo, chinelos de alívio, especulações irresponsáveis, celulares inconfessáveis, lembranças arredondadas, refrigérios de espírito. Coonestados, ninguém é de aço, por betabloqueadores, óculos de perto, óculos de longe e ansiolíticos no criado mudo. Quem não pode, dá seu jeito.
Porque more onde se more, em casa simples ou casulo de Forbes, só se é feliz na dimensão de felicidade que não se experimenta pelo receituário patético dos que vivem no planeta além do nosso arcano; só se é feliz desse jeito de felicidade que não cabe em medição, quando ao fim do dia plantamos os pés em nossos quartos. Chão sagrado, onde recebemos sob a forma de colchão, travesseiro e balsâmica intimidade a unção panaceica do alívio existencial, abrigo seguro da alma.

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