O enfermeiro tinha até simpatia por aquele homem muito velho. O silêncio renitente do homem muito velho trazia para o enfermeiro estranha sensação de compartilhar com o velho o que o velho não falava. Mais fácil concordar com o que não sabemos, apenas especulamos. O homem muito velho não era visitado por ninguém. Não cabia ao enfermeiro conjecturar sobre quem arcava com os custos do homem velho naquela instituição lúgubre, estação terminal de vidas. O homem muito velho só trocava com o enfermeiro pequenos muxoxos, que sequer provocavam no velho um estender de suas rugas falesianas. Teve o dia em que o homem muito velho não usou de muxoxo para responder ao enfermeiro. Não usou de nada. Ele era nada. O que ele era, era o fim. Um peso de carne sobre uma cama que lembrava tarefa. O enfermeiro não se chocou com o fim. Era esperado. Antes de dar função ao que lhe cabia, viu na gaveta entreaberta da mesinha de cabeceira uma nesga de papel amarelado. Percebeu se tratar de um escrito com boa grafia. Aquele escrito, imaginou, poderia revelar tudo o que o silêncio do velho insinuava. Tomou o manuscrito às mãos. Não se conteve em cometer a indiscrição de ler e se surpreender com que leu. O manuscrito:
– Não sei se quero envelhecer aqui até que, muito velho, seja expressão de meus ascos e temores. Quando jovem, tinha medo de velhos. Não eram todos os velhos de que tinha medo. Eu tinha medo dos velhos que ficam nervosos na fila e grunhem xingamentos intraduzíveis. Outros velhos sequer vão às filas, mas desses eu não tinha medo. Os velhos que fumam têm cabelos emplastados e fedidos. Se ainda lhes cobrem muito cabelo, o cabelo lembra pelos de ursos mortos. Se espetados, são ouriços inelásticos. Quando respiram, nos apreendem. Velhos gostam de andar de ônibus e vão e voltam e abusam de passes. Velhos atravessam as ruas suas e nos fulminam de ódio pelo centímetro e meio que avançamos sobre a faixa. Muitos velhos deixam derramar suas bochechas tal sabugo. Nem sempre são os velhos que lembram bichos, mas são mais propensos. Ovo, que não é bicho, embora véspera, se tiver bigode, lembra Sarney. Os cachorros de velhos são mal-humorados. Pequineses, chiuauas, foxes gordos. Velhos são vizinhos chatos, e não descolam de suas orelhas o vienatone, para que nossos ruídos já constrangidos por escrúpulos possam lhes soar esporros. As orelhas e os narizes dos velhos têm chumaços de pelos renitentes. O nariz dos velhos lembra bola de rugosidade lunar. As orelhas, um emplasto túmido de estrias flácidas pousadas sobre cartilagens pétreas. Velhos frequentam procons e contam nas mesas histórias já sabidas. Falam de honestidade os velhos, ainda que torpe seus ontens. Os velhos que moravam na casa de meus amigos eram velhos de que tinha mais medo dos que à minha casa vez e meia vinham. Os velhos de minha casa vagueavam por meu sono, me censurando do teto delirante de seus protocolos. Velhos que usam sandálias franciscanas deixam à mostra suas unhas arqueadas e duras, leitosas. O mindinho vergado pela imposição das limitações de sapatos imemoriais. Parecem sujos os pés dos velhos, ainda que limpos. Os velhos muito velhos vivem mais do que se lhes poderia suportar, e cagam nas fraldas que enfermeiras pagas por economias ou imposto jogam nos lixos não sem antes desejar-lhes mortos. Esses velhos que vivem muito nos afastam da morte, mas nos lançam nela de chofre quando enfim cedem ao óbvio de seu fenecimento. As velhas que fumam falam muitos palavrões. Seus cabelos são amarelos e seu pigarro indecente. São roucas e conspiradoras as velhas que fumam. As velhas têm mais gatos que os velhos. Os gatos não se apegam tanto, e as velhas sabem que há idade de se apegar e idade onde se apegar é desconhecer. Há velhos que moram sozinhos, e sozinhos ficam se suas contas não batem com o apetite dos que perdem seus domingos para convencê-los de empréstimos consignados. Velhos abastados se envolvem de carinhos construídos por dízimos de afetos ad-hoc. Velhos pobres se abrigam de outros velhos pobres, antes pelo espectro do vazio. Velhos vão à igreja e dela voltam pelo conforto de um quarteirão de pecados remidos. As mãos dos velhos lembram tenazes e, se vistas pelas sobras de mangas intermináveis, nos constrangem. Velhos gostam de crianças. Uns e outros nos espremem em nossas vaidades boçais. Devires e malogros. Velhos não morrem de infarto. Nada nos velhos explode ou estronda. Cansa, somente. Acaba. Tenho pouco medo dos velhos que lêem. Tenho menos medo ainda dos velhos que manejam videogames. Mas não nos adianta matar os velhos se lhes perdemos em aprendizado quando imprimimos passadas bufas sobre nossas meias soquetes e certezas compassivas. Há quem os considere estorvo, embora antirretratos incômodos de nós mesmos. Não quero o não-querer de quem me estende a mão para aplacar a repulsa que o sentimento de gratidão fustiga.
O enfermeiro dobrou o papel antes de guardá-lo sabe-se lá por que motivo no bolso do avental. Só queria guardá-lo. Ao sair do quarto para cuidar do que se impunha fazer, parou a meio passo da porta, tomou de volta às mãos o manuscrito e juntou ao texto do homem muito velho uma observação: “O inevitável não conforta. O inevitável se presta a apenas vestíbulo do inevitável.”

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão