A Aposentadoria do Edegard

Um antigo texto sobre um amigo de uma vida que hoje, 8 de junho, faz aniversário.

Edegard Gomes Júnior. Com esse “e” inusitado, meio que chegando a fim de marcar um jeito próprio entre os edgares às carradas que andam por aí. Edegard Gomes Júnior, esse é o nome do cara. Esse é o cara. Júnior, por herança genética insuspeita: é escritinho o velho Edegard Gomes, já não mais entre os que estamos sob sol e lua. Lembro-me do velho Edega, sempre discreto às margens dos campinhos de pelada por onde pontuamos nossos dias de infância e adolescência, desfrutando aquele frescor que nos abandona à própria sorte quando envelhecemos. E não falo de velhice velha, falo da velhice que invade a sala de nossa vida quando já não mais podemos deixar a barba ao acaso, enfiar tralhas na mochila, coçar o saco, enquanto o papai e mamãe pagam as contas. A velhice começa exatamente no dia em que passamos a acordar cedo não mais para vestir o uniforme do colégio ou fazer o dever de casa, mas quando já não temos ao lado, à mão, a âncora dos pais como porto para voltar de nossos erros.

Edegard é amigo de 50(hoje, 60) anos, único em seu jeito de ser único. Nossas vidas se entremearam desde os primeiros dias do colégio São Vicente, memoráveis dias em que nos entregávamos aos fazeres normais de qualquer adolescente: aulas e deveres de casa da velha sexta série, que substituíra o funil da Admissão no rito de passagem ao Ginásio; jogação de bola no campo de cimento – o liso, à direita; o áspero, à esquerda. Já ali, no pátio dos lazaristas do Cosme Velho, minha vida e a vida do Edegard meio que foram se dando as mãos, como deram-se as mãos as vidas de mais uns quatro amigos. Dividimos as mesmas turmas da 6ª à 3ª do Científico. Fizemos juntos o vestibular para o Fundão, e para lá passamos juntos. Foi um ano duro, de dedicação camponesa à revisão diária do que aprendíamos no colégio, em meio aos providenciais biscoitos e suco de maracujá com os quais sua mãe, Dona Maria Amélia, atenuava nossa lida vestibuleira. Naquele ano, Edegard tentou por tudo me converter à seita progressiva, embora resistisse bravamente a desertar de minhas convicções blackianas e às guitarras enguiçadas. No meio do caminho, dividimos uma sociedade precoce à frente de uma vendinha em São Pedro da Aldeia; incontáveis alegrias e sofrimentos tricolores; muita pelada no Aterro e em Boca do Mato, na serra de Friburgo, que ainda insisto em assim chamá-la apesar do mau-humor das gentes de Macacu.

Dividíamos nossas férias entre Boca do Mato e São Pedro da Aldeia, onde minha família até faz pouco tempo pagava IPTU. Edegard, bem que se diga, era mais assíduo na serra que na praia. Mas jamais deixava de dar uma passadinha pelo casarão da Região dos Lagos, à época uma casarinha.

Em Boca do Mato, na companhia de uns bons oito amigos-irmãos, a quem jamais deixei de cultivar pela rega da lealdade e amor fraterno, ensaiamos nossos primeiros passos no rito de passagem da adolescência, alternadamente vibrante e sombrio. Na adolescência, quando somos felizes, o somos de forma esquisita, sonrisais de felicidade. A incompreensão do mundo, no contraponto, carrega de angústia o que deveria ser apenas essa felicidade. Convivíamos ali não só com aqueles irmãos em acirradas reencarnações do Clássico Vovô – Flu x Botafogo – no campinho de pelada do sítio dos Correia Meyer. Vivíamos a delícia de ali estar conosco a Andréia e as amigas da Andréia, motivo pelo qual à noite já não éramos mais os meninos sujos de lama que se empenhavam em defender suas cores nas batalhas épicas que travávamos naquele campinho. Cá entre nós, o time dos tricolores abriu larga vantagem sobre o dos alvinegros, e isso na casa de uma família que deu dois presidentes ao chamado por eles de Glorioso. Bem mais tarde, um outro de nós, o inundante de generosidade Carlos Augusto Montenegro sentou-se à cabeceira de General Severiano. E não foi nada mal: tornou-se o presidente imortal, incorporando à sala de troféus do clube um título de campeão brasileiro, o único já no formato de Campeonato Brasileiro(e lá se vão 30 anos). Ajudou-o um outro amigo de infância, o valoroso Zé Luiz Talarico, botafoguense encardido que conseguiu a proeza de juntar o verde da 7Up aos branco e preto da tradição do Glorioso(quase três décadas depois, um outro vicentino chegou à presidência do Botafogo, a força da natureza Durcésio Mello, que forjou as bases para que o Botafogo pisasse neste século). 

À noite, voltando a Boca do Mato, já na expectativa de uma dancinha ou outra no anexo à casa onde rolava um sonzinho noturno, nos emperetecávamos, trocando a lama pelo charme desajeitado típico dos que estão na muda, naquele inflar de peito que lembra o dos jovens perus. Antes, em rito, encorajávamo-nos no Bar do Ivo com conhaque, calcinha de nylon, traçando Cinzano com pinga entre um e outro jogo de totó. Muitas vezes nas festinhas de todas as noites o som do arcaico toca-discos era substituído pela rodinha de viola, onde eu e Edegard nos revezávamos ou nos acompanhávamos ao violão. Só muito mais tarde pude perceber que nossas chances com as garotas diminuem drasticamente à medida que vamos tocando violão melhor. Esmeramo-nos em interpretações cada vez mais caprichadas, atendendo de pronto aos pedidos melosos das meninas, e, enquanto tocamos concentrados na melhor performance, os espertos vão garimpando amassos intercalados por um “agora toca aquela”.

Tempo a passar pelo que o tempo passa, fomos fazendo nossas opções pessoais pelo destino de nossas férias. Eu, fiel a São Pedro de Aldeia. Edegard, mochila às costas, correndo os cantos da história interrompida desta nossa América, de Santa Cruz de la Sierra a Machupichu. Da Patagônia às Guianas. Num houve nesga de chão interessante por este grotão de Deus que os pés do Edega não tenham pisado.

Impossível lembrar de quadra de minha vida sem que nessa lembrança não esteja o Edegard. Tranquilão, craque de bola, um tremendo de um bom caráter, incapaz de produzir ou reproduzir uma maldade, de dar curso a uma intriga. Ético pacas. Gostar do Edegard é ofício. É protocolo. Jamais vi na vida alguém mais amado ou admirado que o bom Edega. Tente marcar alguma coisa com ele. Caia nessa besteira. Mas se quiser fazê-lo, faça-o com prudente antecedência. Edegard tem uma agenda afetiva que o prende a compromissos pelo ano inteiro. Todo mundo o quer em volta. E tome casamento, batizado, aniversário, Bar-Mitzvá, churrascada, chopada, e o escambau. 

Bom ouvinte, amigo solidário, parceiraço, Edegard é um ventre de calor humano. Mas isso não basta: profissional exemplar, Edegard soma a esta qualidade a arte de ser pai. É simplesmente espantosa sua capacidade de se dedicar a seus dois meninos, prioridade inegociável, ao lado de sua Ana, uma mulher à altura do currículo humano do Edega. Com a chegada do nosso Miguel, pude realizar um velho desejo meu: ter o Edegard como compadre. E com a companhia luxuosa da comadre Ana. Não é pra qualquer bico, não.

Agora, depois de um punhado de anos acordando todos os dias úteis às torturantes cinco horas da manhã, para, após um parcimonioso Polenguinho, encarar com garbo a tarefa de se deslocar do Humaitá, no Rio, ao grotão de Adrianópolis, Edegard está se aposentando. Acompanhei cada dia que, cumprido o rito, virava a página da contagem dos dias que faltavam para este dia. Edegard merece não o descanso dos que engessaram suas vidas, pois está no melhor de sua capacidade intelectual e sensibilidade, mas o descanso da rotina espartana. Agora o nosso Edega vai cuidar de se dedicar ao que mais gosta: presentear os amigos com sua imensa vocação de ser humano inteiro. Edegard é um patrimônio planetário.

Hoje, quando conto os dias pela folhinha de esperanças embaçadas, tento vez por meia imaginar o que o Edgard faria no lugar dos atores da ópera bufa que reduz nossa cena diária a um punhado de esquetes escrotos. E garro de fantasiar, ainda que por tantim, um mundo de viés. Um mundo Edegard.

Boa sorte, amigo.


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Comentários

4 respostas a “A Aposentadoria do Edegard”

  1. Que homenagem linda e merecida!! Parabéns, meu querido amigo!!🥳🥳❤️

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  2. grande figura. Pai de amigo dos meus filhos. E frequente no sitio dos Contentes, onde nos encontramos volta e meia .

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  3. Avatar de arcadetechnicallyeceafbcc4a
    arcadetechnicallyeceafbcc4a

    Que lindíssima essa amizade de vcs! Irmãos de uma vida! “ O amor não como uma fatalidade mas como uma escolha!”
    Imagino a emoção do Edegard quando leu isso! Tinha que vir acompanhada de um Rivotril! Beijos querido

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado, cumádi.

      Uma velha e querida amizade.

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