Uma Viagem a Buenos Aires em 2012 – Parte 2

Domingos Faustino Sarmiento assinou o texto que fundou as bases para a compreensão do que é a Argentina: “Facundo ou civilização e barbárie”. O livro delicioso, avalizado pelo calibre de Jorge Luis Borges, narra a ciclotimia que marcou a história do país dos hermanos, notadamente a de Buenos Aires. Facundo Quiroga, o personagem, é a expressão do caudilhismo, encarnado na metade do século 19 pelo maior inimigo político de Sarmiento, Juan Manuel de Rosas. Exilado no Chile, Sarmiento passa a estudar os sistemas educacionais europeu e americano, e empreende no país andino uma revolução educacional. De volta à sua Argentina, o criador de Facundo se elege anos depois presidente da República. Sua obsessão: fazer do sistema educacional argentino um modelo de excelência. Isso explica o que percebemos perplexos ao circular pelas ruas de Buenos Aires. Livrarias e bibliotecas em profusão. Museus, teatros em número de nos fazer corar de vergonha. O portenho refinou sua formação pelo caminho óbvio de um projeto educacional que sustentou humanisticamente o extraordinário crescimento econômico propiciado pelo vice-reinado espanhol da América. O título do livro é auto- explicativo: civilização e barbárie. Nossa América se mostrou, ainda que precariamente, incapaz de construir uma civilização sem se assentar na barbárie. Vivemos em fluxos e refluxos. Pra cada pé no mundo, um pontapé na bunda. E nas consciências.

A Argentina pós-Sarmiento só confirmou a sina de Facundo. Liberdade e repressão se alternaram em rotina sistemática e cruel. Já no século 20, com a Década Infame, no rescaldo perverso da quebra da bolsa americana, os políticos argentinos se enredaram num mosto grudento de corrupção e entreguismo, abrindo passagem para a chegada dos militares nacionalistas que se prestaram ao papel de útero do peronismo. E o peronismo, Evita à frente, inebriou os sindicatos enquanto flertava com o fascismo e nazismo, oferecendo abrigo a muitos dos comandantes que acenderam a chama dos fornos do genocídio hitleriano. Peron foi exilado, mas voltou nos braços do povo, trazendo a tiracolo uma esfuziante Izabelita. Com a morte de Peron, Izabelita traz à cena o repulsivo José Lopez Rega, El Brujo. A dançarina e sua eminência parda gestaram a sanguinária ditadura nos anos 70. E a ditadura levou milhares de jovens idealistas e ingênuos para a tragédia das Malvinas.

O peronismo volta sob as costeletas hiperbólicas de um Menem em furor liberal, sucedendo um liberal ao estilo Sarney, Raul Alfonsin. Montado em Cavallo, Menem inventou a convertibilidade e fez os argentinos acreditarem em fadas de consumo. Quebrou o país e o sonho da hegemonia continental da Argentina.

Dois anos antes, cheguei em Buenos Aires na semana das comemorações do bicentenário da Revolução de Maio, o levante que marca simbolicamente a fundação da República Argentina, antecedendo em pouco a independência. A cidade estava inundada de bandeiras nacionais, o que levou um brasileiro desavisado a meu lado a imaginar um surto cívico pré-Copa do Mundo. Perdoei-o, ele não sabia o que fazia. A festa foi linda, com uma semana de celebração emocionada na Plaza de Mayo, a cinco minutos de caminhada sem pressa do hotel em que me aquietei. Na véspera do 25 de maio, a reinauguração do Colón me levou à 9 de Julho, e testemunhei enlevado a linda encenação em 3D que se projetava contra a fachada do Colón, o mais importante teatro das Américas. Callas, Caruso, Pavarotti, cantavam por trucagem, enquanto um lindo corpo de baile se misturava ao povo em frente. Os convidados, em contraste aos portenhos que se amontoavam com seus casacos baratos, trajavam ofensiva elegância. Desfilaram pela 9 de Julho os grupos tradicionais das diversas regiões da Argentina. Na passagem do grupo que representava o candombe, a manifestação dos negros argentinos exterminados pelo gemocídio étnico, um constrangimento. Na falta de negros, chamavam atenção uns hermanos branquinhos que se pintaram de marrom para dar veracidade patética a um reconhecimento constrangido de uma página repulsiva de sua história.

De volta a 2012, optei por circular pela Buenos Aires que nos espanta por sua imponência. O delta do Tigre, Palermo, Belgrano, suas indizíveis livrarias, seus restaurantes preservados da fúria dos guias da CVC, o charme europeu de uma então elegante Recoleta. O charuto que fumei em frente ao cemitério que guarda Evita e Sarmiento, regado a uma grapa de sabor extático, me reportou aos testemunhos impressionantes dos que afirmam ter sido o túmulo da Mãe dos Pobres aviltado por generais em êxtase de tesão reprimido. Fui, ninguém é de ferro, às compras, e exibi discreto minha superioridade cambial. Sem frenesi. Em respeito ao que essa civilização com atos de ópera bufa ergueu sob nossa mais renitente estupefação.


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