Ulisses Guimarães: “Está achando ruim este Congresso? Espere o próximo: será pior”.
Olhando para o atual Congresso brasileiro, com gente desclassificada a botar pelo ladrão, literalmente, me vem uma velha história do tempo em que, antes mesmo do Tiririca, o povo de São Paulo elegeu o Clodovil para deputado federal.
Um pouco antes, numa daquelas matérias manjadíssimas de ouvir a opinião de celebridades logo após a eclosão de um fato de grande impacto, um veículo que não me lembro perguntou a uns importantes da hora qual seria o cérebro que gostariam de receber transplantado. Parecia despautério, mas não era. A pergunta cabia pela divulgação à época de experiências realizadas por um grupo de cientistas que conferiam notas de realidade à hipótese de ficção científica de transplante de cérebros. Nem sei a quantas andam essas especulações, talvez estejam onde estavam, como sói acontecer aos frenesis midiáticos de egos cientistas afoitos. Xapralá. Na tal matéria, duas ou três socialaites e uns mundaninhos travestidos de intelectuais ou artistas, ou personalidades quaisquer, vomitaram os clichês de sempre: Einstein, Newton, Joyce, Shakespeare, e por aí foi. Ouvido na matéria, Boni, o prestidigitador global, quebrou a lógica banal dos entrevistados saindo-se com esta: “Caso um dia pudesse receber transplantado um cérebro, gostaria que fosse o do Clodovil. Nunca foi usado, é novinho em folha”.
Boa piada à parte, a matéria se fez atualíssima. Não pela possibilidade de transplante de cérebro, mas pelo exemplo do Clodovil. Em 2006, megavotado em São Paulo, estranha terra desfibriladora de políticos proscritos, o então mais famoso estilista destas plagas cunhou já em sua primeira aparição pós-urnas a curiosa reflexão: “Nem sei o que vou fazer lá, só sei que vou chegar chiquérrimo”. O oceano de votos do Clodovil no agora esfumado ano de 2006 poderia ser explicado por qualquer um desses cientistas políticos que pululam às grosas na tv brasileira como a reprodução de uma tendência ao deboche que se instala na sociedade quando tocada pela descrença na política. Eu, que não sou cientista político, não vejo por aí. Por que não caberia o Clodovil no Congresso? Quando olho para o Congresso de hoje, liderado por um mosto borrado da pior expressão da nossa gente, chega a dar saudade do Clodovil. Noves fora o vezo homofóbico de uns e outros, muitos enrustidos, o Clô, para os íntimos, chegou em Brasília com possibilidades reais de contribuir para a compreensão dessa salada de perplexidades que é a política brasileira. Chegava com aquele jeito um tanto afetado, mas também o têm, cada um na sua medida, muitos dos próceres da república. A afetação do Clodovil, no través da afetação dos próceres, só a ele trazia consequências. Um pé-na-bunda de uma ou outra tv aqui e ali, um bochicho nas colunas de góssipis, um mito mal explicado como aquela entrevista houve-não-houve com o Lobão. E fica por aí. Não me lembra qualquer ato do Clodovil que tenha me doído no bolso além das regras do jogo, ou mesmo provocado uma indignação sequer comparável às indignações que os atuais parlamentares incitam. Ri por muitas vezes de sua verborragia incorrigível, a dar conselhos às carradas, auto-proclamando-se guru de almas ingênuas, apelando vez em quando para o bizarro ou deboche, enquanto caíam níqueis em sua conta corrente. É assim que faziam e fazem a Oprah, a Ana Maria Braga, o Ratinho, o Silvio Santos, o Malafaia, a Hebe, os mandatários populistas, etc. Tá certo: volta e meia repudiava no Clodovil aquele jogo de cena estudado, uma indignação ensaiada, uma solidariedade de pastiche, sua reprodução dos preconceitos da elite brasileira com o Lula, papagueando abomináveis clichês de classe, como se elegância e status social gêmeas intrauterinas fossem. Bobagem oceânica. Quando morreu, Lula foi mais elegante que ele, ao lamentar sua morte pela lembrança de sua expressiva votação em São Paulo. Mas não passava disso. Comprasse-o quem o quisesse. E ele andou por aí dizendo o que pensa quando na adversidade e dizendo o que pensa quando na boa. Coisa que políticos não têm costume. Pouco antes de deixar contrariado o chão do planeta, reza a lenda que ele descobriu um esquema de corrupção em seu gabinete, o que lhe teria abreviado a morte. Andou antes enrolado com um processo de crime ambiental, arquivado pelo STF. Ainda no exercício do mandato, classificou a política brasileira como ”comprada, mentirosa e suja”.
Trivial argumentar que um Congresso que hospeda proxeneta de emenda, sócios do Master, pastores monetizados, lobistas de planos de saúde e bancos, gladiadores do agro predatório, não tem envergadura para debochar de quem quer que seja. Não vou por aí, embora tenha desejado recomendar cautela ao Clodovil ao escolher com quem dividiria o apartamento funcional, por certo o mais lindamente decorado de todo o planalto. Nem me alinhei entre os que não percebiam o que ele poderia fazer em Brasília. Antevia para o Clodovil um papel fundamental na reconstrução ética do modo de se fazer política por estas bandas tropicais: presidente nato de todas, sem exceção, todas as CPIs. Depois de ouvir, ainda que inquieto, a sempre longa exposição do relator, nosso Clô, já o tinha íntimo, apertaria cada depoente com aquele ar simultaneamente sério e debochado que ele expressava tão bem: “Olha para a lente da verdade e confessa”.
Poderia não ser eficaz, mas seria chiquérrimo.

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