Num país de perdas, importa entender o significado da perda para os que foram centrifugados para a periferia pelas diferenças sociais obscenas de um modelo plutocrata. E não se trata de medir a perda pelo padrão de consumo, trata-se de acesso a serviços essenciais básicos, à dignidade, itens de humanidade.
Antes dos programas sociais de transferência de renda, o excluído brasileiro vivia o sonho que lhe era entregue por uma elite distante: visitar os seus que deixou empurrado pela pobreza; ter uma casa ajeitada, com tv, geladeira e uns tantins de coisa nova; um transporte que não o humilhasse; reunir amigos e parentes para assar a carne possível sob a estridência de histórias contadas pelo salto transcendente de cervejas geladas. Ainda que pisassem em esgoto a céu aberto na soleira de suas casas, encontravam seu jeito de ser feliz sobrevivendo. A perda não deixou de ser um sentimento familiar aos periféricos, embora o futuro a eles hoje se apresente mais generoso. Há muitos periféricos nas universidades, nas estruturas de estado, ou disputando um mercado de trabalho a que antes não tinham acesso. Muitos se tornaram profissionais liberais e pequenos empresários. Vêm de um estrato em que boa parte das apreensões da elite eram resolvidas na marra pela dura realidade dos desconectados de terapeutas e advogados. Aborto, divórcio, preconceitos de raça, gênero e de estrato social, itens da agenda de costumes, eram temas vulgares do cotidiano dos que se viram forçados a lutar ingloriamente por se manter respirando e felizes. Não se chocavam, antes da expansão evangélica, pelos incômodos mundanos da agenda da elite. Isso em parte mudou, reconheça-se, pela entrada em cena da teologia da prosperidade.
A história da luta dos periféricos fez do nosso cancioneiro popular, seu principal repositório, um cancioneiro da perda. De amores que se foram pela fluidez da fidelidade ou pela imposição da realidade excruciante. Da perda pela ausência doméstica por expedientes de dezesseis horas entre batente e transporte; da perda pela degradação física por exposição ao trabalho excruciante; da perda pelo desesperador espectro da fome. Da perda, sobretudo, pelo abandono. Daí tantas canções que suplicam por alguém que se foi no emaranhado de impotência e espanto. Daí tanto “Cadê você?”, tão bem expressos e apaixonadamente retidos pelo povo nas vozes de Nelson Ned, Odair, Amado, Paulo Sérgio e outros. Somos um país historicamente marcado pelo abandono dos mais humildes, que se enredam na recorrente busca do “outro” que possa livrá-los do estigma. Somos um país com periféricos a gritar “Cadê você?”.
Os que vivem o cotidiano da perda representam metade dos brasileiros. Difícil imaginar que, em seu íntimo mais insondável, se deixem levar unicamente pela agenda de costumes inoculadas nas pregações moralistas dos pastores da prosperidade. Ainda que dissimulem. Seus dias se dão pela expectativa de se manterem felizes a seu jeito, o que obviamente inclui os avanços que seus filhos passaram a desfrutar e os desejos mínimos que aos poucos realizam. Não é difícil perceber que os brasileiros mais pobres estão comendo melhor, viajando mais, comprando mais bens de consumo, ascendendo socialmente. Diante deles, na urna, estará posta a opção de um governo que os inclui sistemicamente nas políticas públicas, e outro, que atacará direitos conquistados e apenas os tolerará constrangidamente. Foi esse povo que decidiu as eleições de 2022, ainda que bombardeado pela farra imoral de bilhões investidos em benefícios sociais efêmeros, distribuídos em larga escala por um governo destranbelhado. Embora os números das pesquisas não gritem, apenas reproduzam a polarização calcificada pelo impulso da intenção e pelos desdobramentos de crises que são coladas ao governo, alvo mais fácil, espero que os periféricos, na reclusão da cabine eleitoral, reiterem a escolha de 2022. Ao deitar seus olhos sobre o futuro, os brasileiros da base do edifício social reconhecerão qual caminho lhes assegurará esperança para continuar a marcha da liberdade por um deserto de abandono. Sabem por pulsão nocional que por esse caminho se faz justo esperar, pela saída da pobreza opressora, uma resposta para o recorrente “Cadê você?”.
Provavelmente, antes mesmo que os indecisos, eles decidirão as eleições.
Mais uma vez.

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