Amanhece
Pela fresta do anteparo vaza poesia
E o quarto se arrebata de fragmentos do dia
Fractais, anzóis de incerta epifania
Se mais não recender elegia
Levanta, se desaquieta, que a jiripoca pia
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Pessoas há que cultivam a infantilidade como estilo. Têm personalidade frouxa, se realimentam dos afagos que cobram dos que os cercam. Viciados em reconhecimento, oxigenam-se por elogios. Pela deformação, mantêm um certo mau humor intentado, um compromisso com o destratar os outros para depois estender ritualmente sua pseudogenerosidade e receber de volta mais atenção e afago.
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A boa poesia não é aquela que nos faz conter ou desaguar o choro.
A boa poesia nos conduz ao arrebatamento, nos reduz e nos eleva, nos faz crer que palavras se revelam tijolos de desconstrução de conveniências.
Boa poesia pode sublimar a dor ou doer feito cólica renal, desde que ao mesmo tempo seja seu analgésico.
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Os irlandeses lutaram 200 anos por sua independência. Antes expulsaram vikings, mouros, celtas e o escambau. Seu chão é feito de literatura, poesia e sangue.
Mas sua música é tranquila, quase um contraponto necessário à fúria das conquistas.
Já o Brasil passou longe de sangues derramados em litragem graúda, mas bom quinhão de nossa música berra com a estridência de um mongol faminto.
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Li ainda muito jovem “Aura” e “A morte de Artemio Cruz”, duas obras-primas do imenso Carlos Fuentes, panamenho de nascimento – seus pais eram diplomatas – mas mexicano até a entranha mais cavada da alma. Conheci-o pessoalmente em 1987, quando jantamos no Rio, guardados pela sempre boa companhia do saudoso acadêmico e ensaísta Eduardo Portella. Não falei durante o jantar, só o observava, impregnando-me de cada palavra torcionada por seu castelhano até então para mim fugidio. Homem culto, escritor peculiar, observador contundente da aventura humana, às vezes poesia, quase sempre patética.
Quando Carlos Fuentes se foi, além da memória daquela noite, ficou em minha estante e na literatura universal sua “Aura” de minha juventude. Em todos os sentidos.
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Sou mais Bandeira e Cabral que Drummond; mais porrada sangrando pelos poros que construção metódica. Na poesia, meus bons, o Sudeste é o sopé de um monte andino de orografia nordestina.
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Meu velho pai, grande figura, sempre lembrado carinhosamente por mim em meus cada vez mais frequentes tours de memória, antes de sair para qualquer compromisso, bebia uma dose de uísque. Dizia que era “pra pegar pressão”, uma espécie de Viagra do espírito.
Aquela dose, para quem conhecia melhor o velho Herberto, era, na verdade, uma proteção profilática para o convívio social, um rito que se aproxima da tortura à medida que vamos contando anos em grosa.
Cada vez mais refém feliz da reclusão, cultivo a pulsão de homenagear meu pai bebendo uma dose “pra pegar pressão” sempre que saio de casa, o que é raro.
Não resolve, mas mostra respeito.
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A carrocinha da Kibon.
Ao lado do jornaleiro, ícone da infância do Rio antigo. O da minha rua se chamava Severino. A chegada diária da carrocinha, festa renovada. Chica-Bon, Tom-Bon, Kalu, Já-Já, Ki-Coisa, Ki-Bamba, Eskibon. Tinha fartura nos tijolos de sorvete, epifania infrequente.
Havia ainda o triciclo do padeiro. O padeiro do meu prédio e adjacências era o Nogueira. Montava sua cesta a partir do triciclo e entregava os pães fresquinhos nos apartamentos. A porta tinha um vão com um recipiente em caixa com abertura dos dois lados. Na medida para receber o pão e o leite em garrafa de vidro que chegava no caminhão da CCPL.
Tempo de um Rio de ruas.
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Ando entretido com o encontrar a alquimia certa pra fazer massa de empada sem glúten. Quando erra, a massa se esfarinha e vira uma espécie de areia monazítica. Tá bom, pode ser babaquice minha essa história de insistir na consistência certa, mas é minha a babaquice, e a desnudo nestes dias de confissões politicamente corretas de celebridades.
Verdade é que pesquiso formas de compensar pela via do naturalismo os exageros que faço por fugir da sobriedade, estado em que me lembro de contas a pagar e de meus excessos adiposos.
Sou empadista militante, jamais me imporia uma dieta sem-empada que não me forçasse à disciplina laboratorial de fazê-las sem as farinhas vulgares e carboidráticas.
Depois de muito dosar azeites e farináceos em pipetas de bedel, cheguei ao paraíso artificial.
Farinhas de amêndoas e linhaça dourada, imiscuídas na medida certa de óleo de coco, manteiga orgânica e água fria.
Deus me livre, mas estranhamente ficou bom.
Pra rebater, um gole de Tannat, que ninguém é de ferro.
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Heather Masse, ainda adolescente, tratou de cantar a tristeza da América pelas veias mais pungentes do folk e jazz. Sua música exala melancolia, o que me alegra. Se impôs coetânea ao se aproximar da tradição. Canções colam em nossa memória mesmo quando não nos lembramos delas. Merece ser ouvida sem ansiedade, sem volúpia de querer gostar, só se deixando gostar. E pronto.
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Um homem que à tarde toma um café preto com pão de queijo lambuzado de manteiga da roça está em um nível de paz interior de fazer um monge do Templo de Mármore parecer escabreado.
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Certas teses, à esquerda e à direita, se consagram por um fenômeno de recorrência conveniente. São por nós defendidas após em sequência muitos com quem temos empatia a defenderem, o que é mais fácil que estudá-las.
Primeiro, escolhe-se o lado; depois, adota-se a tese.
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Tinha longínquos 20 anos quando assisti pela primeira vez a um show do Jorge Mautner. Foi no lendário Teatro Opinião, uma pequena arena de clima denso por onde desfilaram alguns dos momentos mais sublimes de uma à época instigante MPB. Tinha curiosidade por conhecer de perto o Mautner, autor de um romance estranho, “Kaos”, que tinha lido e gostado. Mautner tocava uma rabeca de som rascante.
A acompanhá-lo no violão um jovem da minha idade, magrinho, tímido, anunciado pelo poeta maldito como co-autor da música que em seguida iam tocar. A música era Maracatu Atômico, o violonista era Nelson Jacobina, o estarrecido pelo forte impacto causado pelo “bico do beija-flor beija a flor” era o cara que escreve estas linhas.
Lembrei-me do Jacobina, que sua alma aquietada esteja.
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Beber depois de uma certa idade é roleta russa. Nunca se sabe o que chegará primeiro: o efeito gostosamente delirante do álcool ou a indisposição restritora.
Uma Las Vegas existencial.
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O brasileiro de há muito se especializou em densidade volumétrica dos alimentos. Não há relação com qualquer disseminação de conhecimento científico, vem da arte de precisar encher um prato, num restaurante a peso, sem lhe agregar custo que encolha o efeito do vale-refeição.
A alface destronando a sobrecoxa.
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O Brasil ainda peleja para dar certo. Não há nada de mal em reconhecer isso. Quantas vezes na vida não somos forçados a um ato de contrição como quando perdemos dinheiro com aquele achado de vender comida vegana numa praia de Arraial da Ajuda?
O Brasil carece de um recomeço simbólico. Talvez uma encenação com caravelas tecnológicas portuguesas chegando num resort em Itacaré sendo recebidas por índios com IPhone.
A primeira missa – quem sabe? – um culto ecumênico organizado pelo bispo Malafaia e o padre Fábio Mello, com direito a versão sertaneja de “Quero que vá tudo(o que eu não concordo) pro inferno”. A carta, um e-mail epifânico, discorrendo sobre nação territorial empanzinada de gado e soja, e com petróleo estufado no fundo impensável do mar.
Sei lá.
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Mais de 70.
Me sinto numa piscina de fundo infinito num terraço de Dubai olhando com tédio para as coberturas do Jardim Oceânico.
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A pior forma de sofrer um amor subestimado é a perda de um dos pais. Não é da nossa natureza subestimar o amor por filhos, somos marcadores genéticos, projetamo-nos geracionalmente. Perder um filho é devastador, mas jamais subestimamos em vida o peso dessa perda. Quando se perde um dos velhos, não vem só a culpa de não lhe sermos explícitos quando o temos, vem a dor incurável de não mais alcançá-lo por um gesto de entorno, de termos jogado no acostamento do destino a oportunidade de dizer-lhe o quanto seu amor nos era vital.
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Ao assistir ao vídeo da Rafinha no Festival de Roterdã moderando uma mesa de debates com o Kléber Mendonça e a Carla Simon, lembrei-me de seu primeiro dia de aula na PUC.
Rafa se lançou de asa-delta da pedra que tomamos nossa, e víamos daqui de cima um mundo de escarpas rugosas agora se aparando pelas conquistas dela. O que para nós parecia ameaça a uma fragilidade há muito vertebrada foi para ela o salto necessário. As térmicas que hoje conduzem seu voo hão de garantir pouso tranquilo, quando o pouso for destino.
Passou divinamente rápido.
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Há velhos e há os velhos de condomínios.
Os ônibus dos condomínios da Barra são uma espécie de concílio deles. Nesses ônibus, ainda que velho, me sinto um alienígena.
Os velhos de condomínios, muitos deles mais jovens do que eu, atendem a um protocolo rigoroso. Simulam intimidade com o motorista, andam de bermudas e tênis, não raramente com camisas tipo regata, meias-soquete repuxadas pra mais de palmo e meio, e, se por obra do destino, embarcam no mesmo elevador que a gente, a solução é entregar a Deus.
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Meu voto no Lula não é necessariamente um voto no PT. Voto no Lula. Seus defeitos se compensam largamente pelas qualidades que reúne. O Lula se mantém como o mais equipado político brasileiro para balancear a indispensável distribuição de renda com o crescimento econômico, sem abrir mão da sustentabilidade ambiental. Com segurança institucional. Nenhum rico ficou menos rico em seus mandatos. Por outro lado, milhões de brasileiros deixaram a miséria e muitos ascenderam à classe média. Lula veio dessa mesma pobreza que combate. Jamais deixou dúvidas sobre suas convicções democráticas, sequer ventilou a hipótese de um terceiro mandato seguido quando surfava em popularidade de estrela. Quando perdeu, aceitou o resultado e aprendeu com ele. Sua presença, penhor da estabilidade. Com ele as instituições de estado operam com independência. Hoje, sua biografia, carisma e liderança se impõem contraponto necessário a um Congresso controlado por grileiros de máquinas partidárias da direita e extrema-direita. Submetido ao escrutínio brutal da Lava Jato, nenhum centavo de origem suspeita foi encontrado em suas contas. Articula-se como poucos com chefes de governo e estado, transitando por todos os matizes ideológicos e latitudes. Impõe respeito nos fóruns internacionais. Acumula hoje vários títulos de Doutor Honoris Causa pela obra da equidade. Fez do tarifaço do Trump a marolinha de 2008. Sua dimensão, se comparada à do idiota filho do troglodita, lembra um Everest numa savana. Quanto ao PT, há controvérsias. Instalado na cobertura do edifício da esquerda, o PT patrulha sistematicamente todas as correntes de esquerda alternativas à sua, deixando muita vez clara sua intenção de assumir o monopólio do pensamento progressista. Tem em seus quadros figuras notáveis e compromissos programáticos por que tenho simpatia. Mas ao assumir porte de transatlântico, passou a abrigar na viagem gente de que me ressabio, uma turma dependente química de contracheque abrasonado e eivada por suspeições.
O PT, enfim, é um partido. Duro aceitar, já acreditei, não mais acredito em partidos. Para governador, senadores e deputados, como sempre, votarei em candidatos do campo progressista, independente do partido que os hospede.

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