Desconexas 27

A ironia sem inteligência tem a utilidade de buzina em avião.

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Tudo bem que rico se torne juiz. Mas é estranho juiz se tornar rico. Rico mesmo, naquele nível em que os 43 mil  mensais + penduricalhos e privilégios estejam longe do padrão de vida que o satisfaça.

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Quartos de adolescentes reforçam todos os dias a falácia de que construímos uma civilização.

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Impossível deixar de se comover com a luta contra o câncer, inglória e muitas vezes solitária. O câncer é invasor covarde, criminoso oportunista. Por mais que cerquemos os doentes de carinho e solidariedade, ele precisa lutar a sua luta, que não o abandona e o submete, deixando-lhe muita vez como única alternativa o humor instável do acaso.

Vivi em minha família o processo monstruoso de enfrentar um inimigo contra o qual, em estágio avançado, sequer podemos em defesa mover as mãos. Só empenhar sentimento, o que não é pouco.

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O Brasileiro fez do mundo seu Paraguai particular.

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De nada valerá retirar milhões de brasileiros da linha de pobreza material se os inserirmos na linha da pobreza de espírito.

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É clichê: o Brasil está condenado a crescer. Mas há que escolher que prioridade se atar ao crescimento. Se para poucos ou para muitos. Justo que seja para muitos. Mas não custa lembrar que os benefícios da mobilidade social que vêm na esteira do crescimento perigam produzir, por impulso reprimido, o efeito colateral perverso do fanatismo consumista. Shoppings, templos; viagens, peregrinação. Direito inatacável dos novos incluídos, antes centrifugados da festa. O risco são as hordas dos recém-classemedianos despriorizarem vala negra, ensino público de qualidade, hospitais que funcionem, transporte público barato, estradas que não matem, e outros direitos que podem de fato aproximá-los da elite. Comprar e comprar, viajar e viajar, celebrar como deuses os que lhes entregam isso, perigosa cilada.

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Vírgulas são obstáculos à fluência do pensamento livre. Em excesso, tornam nossas idéias tão fragmentadas quanto palavras longas aos gagos.

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Sem a compreensão devida das coisas, felicidade é espuma.

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Domingo à tarde. Do avesso da minha varanda gárgulas neblinadas me impedem de abraçar o sol e, oximoros debochados, mantêm-se aplacantes e aterradoras. Há sentimentos embaraçados pela exaustão. Queria apenas o conforto da decisão banal estilhaçada pelo emplasto que invade a varanda. Não há sol. Só há sol no avesso da varanda que me aprisiona. O que me detém não lembra armadura ou grilhões, impõe-se pelo pavor órfão. Meu claustro me isola do que lembro renitente; do velho Maracanã, hoje ceifado pela cobiça que o desfigurou de minha melhor memória. Queria abraçá-lo, tomá-lo velhinho em meu ventre confuso de espasmos de epifania.

Do meu catre vejo as gárgulas se refundirem no avesso da varanda, enquanto bebo agonizante o mosto de minhas melhores uvas.

O Maracanã mora comigo, mas sei que agora nada vai arrancá-lo do avesso da minha varanda. Mas há tempo que vai e tempo que chega.

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Ao pisar o chão da sala Van Gogh, no Museu D’Orsay, impossível negar a existência de um Deus.

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Pelé eterno.

Em 2019, a Hublot criou uma campanha com Pelé e Mbappé – recém-campeão do mundo – para o lançamento mundial de um novo relógio. O anúncio se assentou nas mais importantes páginas internacionais de economia. Espantoso. Desde 1958, 61 anos antes, nenhuma personalidade mundial, no esporte ou em qualquer área, manteve, no nível do Atleta do Século, seu prestígio intocável, sua reputação unânime. Talvez chegue perto a Rainha Elizabeth, que Pelé abraçou no início dos anos 60, sob o olhar de admiração da monarca mais carismática dos tempos modernos. De lá para cá, o Atleta do Século conferiu prestígio às mais importantes figuras do planeta. De Robert Kennedy a Mandela, passando por Fidel, Carter, Nixon, Mohamed Ali, príncipes, reis, sultões, mandatários, dignitários, presidentes, gênios. Impressiona uma campanha mundial da Hublot em 2019 tivesse como referência, ao lado de um ídolo cheirando à tinta, um craque que iniciou sua carreira 61 anos antes, sem Champions, sem redes sociais, sem superestruturas de federações e clubes, sem os orçamentos bilionários do esporte planetário. Só ele, Pelé encantou o mundo pelo espanto de ter realizado em campo o que seria impossível a qualquer humano, e fincar esse espanto em boa parte pela memória oral, sem pirotecnia tecnológica.

O Rei vive.

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Das mulheres desejadas de minha adolescência, ponteava solene Lady Francisco, minha vizinha na Avenida Rui Barbosa dos anos 60. Fiz muitas homenagens a ela. Ainda me lembro do furor taquidárdico adolescente ao encontrá-la no elevador. O suor cínico da confissão impossível. O desejo ali presente a me reduzir a coadjuvante ínfimo de sua presença transbordante. Saía do elevador e corria pro canto mais próximo para contar a mim mesmo o que vivi, quem sabe por a versão contada valer mais que a vivida.

Que mulher!

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Com a ampliação da atuação repressiva do ICE, os americanófilos brasileiros que vivem o sonho estadunidense terão em breve uma má notícia: descobrirem-se sub-raça.

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Já que nos países nevados existem as Olimpíadas de Inverno, bem que o inquieto Eduardo Paes poderia lançar no Rio as Olimpíadas de Verão.

As competições se dariam por várias modalidades, tendo como critério único o menor tempo que os atletas percorressem distâncias entre dois ambientes com ar-condicionado.

Seriam demolidos todos os recordes mundiais.

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Tenho a sorte de ser pai de vários filhos únicos.

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A vida pode nos trazer por minuto ou meio um ponto de inflexão. Podemos sair melhores agora do que num instante passado no desaviso. A diferença começa por estar atento a isso. Tem vez que um oceano atravessado não tem o peso vivencial de um metrô perdido, que nos faça olhar com calma a estação. Por muito o que se vive, o achego de quem se ama pode nos mudar mais que um carro do ano comprado no impulso de atalhar felicidade. Felicidade só vê atalho pelo caminho mais óbvio.

Vez um dia, eu e família ouvimos o sopro sábio de amigos que nos provocaram com conhecer o Araguaia. Chegamos por lá em conta de não sabença, e saímos de lá definitivamente transformados. O escuro consentido das madrugadas frias temperado por uma fogueira de fazer chegar pessoas, o violão calado pelo silêncio estrondoso do chamado telúrico, o grito surdo dos Aruanãs.

Nunca mais fui o mesmo, e o mesmo não é melhor do que o eu que saiu de lá.

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Dia desses, Cabo Frio. Peguei um táxi comum pra corrida mais parruda. Motorista que só trabalha no tiro, mas negocia. Sai muitas vezes mais barato que Uber. Falava muito o dito. Fiquei calado, refém de sua verborragia.

Passando pela rodoviária, o boquirroto decretou:

– Nunca pegue táxi aqui, só tem vagabundo.

– É mesmo?

– Sim, minha mulher é taxista aí.

Voltei ao silêncio. 

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O especial Milton e o Clube da Esquina, uma daquelas pausas em que nos reencontramos com o sentido da vida.

Absolutamente tocante, uma evocação à beleza. Assisti faz muita conta de tempo e ainda não consegui depurar a emoção que senti e sinto. Tudo na série documental soa lindeza. As montanhas de Minas, a casa generosamente voltada para o abraço delas, o papo gostoso com os amigos que ao lado do Milton fizeram um dos mais lindos álbuns da história da música popular no mundo, as canções eternas, cantadas algumas delas com convidados pra lá de especiais. Impossível não se emocionar.

Tudo flui redondo e prazeroso como se fosse simples fazer o que fizeram. Soa como Beatles, Truffaut, Villa-Lobos, moda de viola, pão de queijo, tapioca e desejo.

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A intolerância mora ao lado. Sobe e desce o elevador conosco, nos dá bom dia e nos deseja um bom trabalho. Muitas vezes saímos de seu ventre, casamos com ela, parimos seus transmissores. Trabalha conosco, nos serve simpaticamente o almoço e guarda nossos carros. Joga conosco as peladas semanais e divide com a gente o chopp depois delas. Hospeda-se encravada nos que humilham os que deles dependem, nos que tomam os outros pela expressão de defeitos que não conseguem enxergar em si, nos que se nauseiam de cheiros que lhes são estranhos e fecham os olhos para a cena que os afronta em seus castelos.

A intolerância nos assedia com o mais dissimulado canto de sereia. Muitas vezes está em nós como caspa encruada ou cravo latente.

Duro se libertar dela.

Ofício pra se tomar na conta de vencê-lo todo dia.

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Por princípio, acho todo exultante um cretino. Se for intelectual, pior, um cretino irresponsável.
 Mas deve mesmo ser a idade que insiste em me defender de seus efeitos pela via da intolerância aos pascácios. E os há em carradas nestes tempos.

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Saudade do que não perdemos não dói, antes conforta.

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Cheguei num estágio de vida em que só faço uma coisa por dia. Dependendo da complexidade, uma coisa por semana. 

– E aí, Beto, vamos almoçar amanhã?

– Não posso tenho que ir ao Hortifruti

– E depois de amanhã?

– Tenho dentista 

– Talvez semana que vem?

– Impossível. Vou ter de levar o carro para revisão

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Eram os anos 1970. Beirando 80. Fui com meu pai conhecer sua terra natal. Andaraí, na Chapada Diamantina. Viagem grudada em minha melhor memória, dias e noites de aproximação afetiva com o velho. Aproveitei para conhecer os municípios vizinhos. Em Mucugê, lá por volta das 11h, dei com uma vendinha típica do interior brasileiro daquela época. Casa assobradada, duas portas, balcão de madeira parruda com meia porta no canto, que é pro dono passar. Por trás do balcão, prateleiras cobrindo as três paredes, com poucas coisas juntadas por função de uso. Vi na parede direita, solene, uma lata de presuntada Oderich, aquele irresistível emplasto venenoso que consumíamos sem culpa. A lata era aberta por uma pequena chave que nela vinha colada na parte superior. A chave garrava num pedaço de ferro que, sob o giro da chave, rasgava a lata vagarosamente. Dirigi-me ao senhorzinho que estava sentado num tamborete próximo à parede oposta à da presuntada:

– Senhor, por favor, me vê uma lata de presuntada 

Ele mascava placidamente fumo quando decretou:

– Cabô

Podia ter argumentado que não, que de onde estava, dava para ver a lata na prateleira. Mas entendi a senha. Aquele homem não levantaria daquele tamborete nem que o jegue que passava em frente à vendinha assobiasse. O clássico “tem, mas acabou”. Arredei de lá pensando no tempo das coisas, sobre o que de fato importa mesmo, em como tanto de coisa pode ser resolvido com pachorra, ainda que se perca dinheiro com isso. Um sábio.

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Para controlar a tv pela Alexa, um Olimpo tecnológico para mim, sem trocadilho, um ser jurássico, batizei de Juraci, minha mãe querida e fonte insecável de saudade, a tv da sala.

Volta e meia comando um “Alexa, ligar Juraci”, e me sinto um pouco Deus, trazendo-a à vida, ainda que por um desejo etéreo, pela via de uma simples vocalização.

Para desligar, uso mesmo o controle remoto. Já basta a dor de quando a vida a desligou de mim.

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O carnaval tem um papel estético-antropológico fundamental: ele sepulta por quatro dias o xeipe anoréxico que agride nossas vidas em doses cavalares de jejum e insanidade.

É a redenção da carne.

Mas na quarta-feira de cinzas não tem jeito: saem de cena os carnavalescos e reentram gloriosamente os nutricionistas e seus avatares de fazer da vida uma aventura triste.

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Embora estudos científicos classifiquem a neuralgia de trigêmeos, cefaleia, cólica renal, infarto, queimaduras graves e herpes zóster como as piores dores que um humano pode sentir, nada supera a dor de amar uma pessoa errada.


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Comentários

Uma resposta a “Desconexas 27”

  1. Que maravilha!!👏👏👏👏👏👏

    Curtido por 1 pessoa

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