Desconexas 26

A mais dura decisão de quem opta pela vida pública: deixar a família fora dela. E amigos. Ser péssimo cunhado, pai insensível, primo ingrato, amigo infiel, no universo da vida pública, ao contrário da vida vivida, são qualidades essenciais

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Quem já trabalhou com eventos, nas áreas pública ou privada, sabe: os primeiros a pedir cortesia são os que têm dinheiro de sobra para comprar o ingresso. A elite brasileira vive do simbolismo de ser próxima de toda forma de poder, de estar acima e à frente dos comuns. Como bem lembra o amigo, escritor e publicitário Toninho Lima, reavivando frase de seu sogro: “Quando era duro, nunca me deram moleza. Agora que não preciso, tudo é de graça”

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Paulo Guedes, pode ser definido de várias formas. A minha predileção é por aquele cara que fez o BNDES gastar 48 milhões numa auditoria para descobrir que a única coisa em que o BNDES gastou errado foram esses 48 milhões.

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É comovente o exemplo de solidariedade entre os servidores da Assembleia Legislativa do Rio. Basta ver um colega em dificuldade e todos correm para ajudar com depósitos em sua conta.

É o mais parecido com o conceito de sociedades utópicas desde a ressurreição de Marx pelo Kim Kataguiri.

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Acabei de ouvir Sossego, com o Tim Maia. Me lembrei do frescor do primeiro disco do Ed Motta, com a incrível Conexão Japeri. Disco adoravelmente suburbano, falando sobre as agruras do “Manoel foi pro céu” e do adolescente que não nasceu pro trabalho. Que disco! Um tremendo baixista, o Bombom, e uma base matadora. Banho gelado no calor escaldante de Bangu.

Depois o Ed Motta resolveu entender de vinho, colecionar vinil, se leblonizar. Ficou chato. Às vezes crava uma.

O que fica para sempre: a delícia do Manoel que foi pro céu e da pluriconfessional “Eu não nasci pra trabalho, eu não nasci pra sofrer”.

A cultura pujante da periferia, quando apropriada pelo mainstream, soa cinicamente autêntica, já que espúria.

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Leonel Brizola faria 104 anos em 22 de janeiro de 2026. Alma indobrável, líder que honrou a função pública, Brizola pelejou como um bravo contra as diferenças sociais brasileiras. Soube entender o Brasil pela diversidade étnica/cultural que daria base à construção de uma rica e justa nação. Cercou-se de nossos melhores intelectuais e pensadores da questão nacional, sem nunca descolar-se dos humildes, de onde veio.

Faz muita falta.

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A boa literatura ainda é o melhor remédio contra a soberba. Dói muito, mas é pedagógico saber que somos acachapantemente pequenos diante dos grandes.

Consola saber que não estamos sozinhos nisso.

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Gilberto Freyre defendia teoria exótica sobre a importância do analfabetismo como repositório de uma cultura ricamente simbólica. Parece reacionário. Pode ser.

Não morei em Apipucos nem sequer escrevi um livro definitivo como Casa Grande e Senzala. Mas, como diria Djavan, tenho minhas pretensões gilbertofreyreanas: o monoglotismo lusófono salva o brasileiro da tentação de ser consultor motivacional em estatais globalizadas e empresas globais “estatizadas” por seus interesses.

No Brasil, o monoglota é uma espécie de Daniel O’Collin sem Guiness, mas com uma Salinas de inundar paladares. O brasileiro que ainda insiste em falar Português como código único de relacionamento se faz rochedo confiável para os náufragos de uma festa que cada vez mais nos sentimos penetras. O mundo que babamos por ele só nos considera, muita vez, por nossas reservas extrativistas e por nossas crianças expostas à sua barbárie sexual.

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Músicas tristes paradoxalmente me alegram, me trazem coesão espiritual, me afagam pela certeza de que a felicidade se alimenta antropofagicamente da tristeza. São unas.

Ouço muito.

Agora mesmo estou trabalhando e ouvindo a banda norueguesa Madrugada em seu primeiro álbum, “Industrial Silence”. As músicas de “Industrial Silence” fingem se arrastar melancolicamente, compartindo cansaço e esperança, um pouco como a vida.

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A tristeza é uma sombra mórbida que nos fustiga com mais intensidade quanto mais luzente for o sol que procuramos.

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E de repente, no meio das cinco mil músicas do meu tocador, irrompe acachapante, delirantemente viajável, estarrecedora, me empurrando contra a parede da sala, a tristeza rascante de Little Wing.

A guitarra que passeia por fiordes alucinantes recende a lembranças que gostaríamos ter vivido mas que não cabem em nossa vida medíocre. Há acre e doçura, rispidez e leveza, mas há essencialmente um sofrimento que nos explica.

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Shomsky foi certeiro quando especulou, em 2020, sobre o coronavírus e os novos desafios da humanidade: “É grave, vai custar muitas vidas, mas passará. Pior é que nos tornamos escravos de bufões sociopatas – Trump o maior deles, pelo poder aterrador dos EUA – e da tirania das grandes corporações”.

Tanto valeu que o Trump voltou. O mundo ficou mesmo um pântano com as redes sociais dando voz e poder aos idiotas. Triste ver todo o capital do pensamento social construído ao longo de séculos de luta por uma sociedade mais humana ser submetido ao julgamento estúpido do terraplanismo intelectual.

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Vivo por conta de dia todo a tensão de um vizinho puxar conversa, o terror de alguém na rua me pedir uma informação, a apreensão de o sinal amarelo vermelhar enquanto o metabolizo, a insegurança de bainhas que se derramam ou se encolhem sobre sapatos que escolho por tato, a sentença da casa certa dos cintos e das pulseiras dos relógios, o alerta do marcador de gasolina, a ameaça do pneu descalibrado, a hipótese aterradora de alguém tocar a campainha, o desespero de uma carta registrada, a condenação peremptória de uma correspondência do governo, ou um gosto de você de quem corro o risco de poder gostar.

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De todas as autoridades públicas, o juiz é a que melhor pode proteger o cidadão do abuso do aparato acusatório, da obsessão punitivista do estado e do controle da Justiça pelos poderosos. Quando um juiz é parcial, ele corrompe a Justiça e se torna agente do poder que deveria conter, equilibrar.

Duplamente criminoso.

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Pode tudo, mas gordo não pode.

Mas não é só uma questão de poder ou não poder, ou mesmo de cuidados preventivos com a saúde. É o estigma do preguiçoso, do irresponsável, do sujo, do asqueroso, da baixa auto-estima. Todo mundo pode ser feliz, é um direito, menos os gordos.

O mundo idealizado de sílfides e abdômens negativos se fez mundo que desconsidera a obesidade como uma doença social com repercussões mortais na vida de quem a vive. E a fuga da rejeição é mais obesidade. 

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Para poder muito, um juiz não pode muita coisa. E quando, sendo juiz, ele faz muita coisa que não pode, ele põe em cheque todos aqueles que podem muito e se preservam não fazendo o que não podem.

A contrapartida do poder discricionário é a submissão incondicional à sua liturgia.

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Sou acrófobo. Carrego a dor de não poder ver o mundo do alto de um andaime imaginário de 100 metros. Na Bombonera, só me fiz tranquilo pela imposição de uma paixão que cega os instintos. O Fluminense me curou da sensação vertiginosa de ver gulliverianamente os alvos de minha paranoia.

O Fluminense trouxe os céus do “Caminito” para o rés do chão. E o chão nunca foi tão próximo do céu.

Só o Fluminense cura os enfermos.

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Quando você dá ao policial o direito de matar bandido, ele começa matando bandido. Mas quem é o bandido antes de julgado pelo devido processo legal?

Tá certo, vamos lá: alguns são claramente bandidos. Mas outros podem apenas parecer bandidos, e aí entra o perigoso poder discricionário do policial de escolher quem é o bandido. Pode ser o cara que saiu com a mulher dele, o inquilino que não lhe pagou o aluguel, o namorado da filha que consensualmente chegou lá, o vizinho que discutiu com ele por uma vaga no condomínio, o pai do menino que bateu em seu filho na escola, o incauto que abalroou a traseira do seu carro num sinal parado, o infeliz que não lhe pagou o empréstimo a juros de agiota, alguém que testemunhou um suborno seu, etc. E o perigo ainda é maior no etc.

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A política no Brasil é antes de tudo gramática.

A direita acusava a esquerda de no poder militar. A esquerda acusa a direita de militar no poder.

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Nem todo especulador do mercado de câmbio precisa ter bala na agulha pra mexer com as cotações. Eu, que de vez em quando compro uma merreca, tenho muito mais capacidade de interferir no mercado que a maioria desses peixões. Por quê? Simples: basta eu pensar em comprar uma moeda estrangeira que a cotação dá um salto.

Eu perco dinheiro, mas me dá uma baita sensação de poder.

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Morrer é uma forma de viver para sempre na memória dos que nos amavam.

Duro saber que já não podemos lhes agradecer por isso.

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O Bolsonaro fez acordo com Deus e o diabo pensando em enganar o diabo e governar só com Deus. O diabo apresentou a conta. 

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Em “Assassino Confesso”, no Netflix, um assassino pontual – não menos assassino por isso – é manipulado pelos Texas Rangers a confessar 200 assassinatos que não cometeu.

As evidências da impossibilidade chocam, mas valeu a palavra dos policiais.

Com a confissão manipulada, dezenas de famílias das vítimas foram induzidas a crer que os assassinatos tinham sido elucidados. Saber quem matou um ente querido não seca a ferida, mas alivia um pouco a dor. Os reais assassinos ganharam 32 anos de liberdade pela fraude policial.

A série é um libelo em defesa da Lei de Abuso de Autoridade, que muita gente histericamente critica. A Polícia, o MP e o Judiciário são instituições criadas pela sociedade para defendê-la e lhe servir, mas ganham um poder que acaba oprimindo a cidadania. São monstros que demandam controle rigoroso.

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Maior fenômeno de marketing da era moderna, as academias de ginástica capturaram em média 87% da pauta dos assuntos humanos. 

Já o ócio e o silêncio que nos protegem da estridência monotemática, hoje se restringem à opção de poucos espécimes.


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Comentários

4 respostas a “Desconexas 26”

  1. Acordei e vi que as deliciosas Desconexas já estavam no seu Blog!!

    Amo!! Parabéns, Beto!👏👏👏❤️

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Ricardo Manchester
    Ricardo Manchester

    Beto bom dia ,tá na hora de expandir as pessoas precisam muito ler o que descreve sobre vida atualidades família filosofia tudo junto bem coeso ..Sou grato por participar lendo ..

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo carinho, Ricardo.

      Curtir

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