Sou dos que caminham 6 km todas as manhãs e que à tarde acham 200 metros um Atlântico. Como o que cozinho, o que me leva a estar tão próximo da salada quanto da linguiça; do brócolis quanto do bacon. Cultuo relação hedonista com a fome, gosto de senti-la, óbvio que na medida certa.
O planeta precisa distribuir melhor o consumo de comida, e os humanos e humanas privilegiados trocarem a gratificação ritualística da comida excedente pela contenção, pelo presente de viver. Para isso, suas vidas precisam se libertar do conceito de felicidade do senso comum. Lido por toda a vida com as garras mórbidas da depressão, e o caminho que me ajudou a domá-la foi buscar a beleza das coisas simples ou mesmo simplórias. Cultivo o ócio como altar, busco no ócio o entendimento que a compulsão pela hiperatividade da sociedade do desempenho impede. Adoro não ter o que fazer, cultuo o descompromisso. O silêncio, minha epifania.
Confesso total incapacidade de dividir meus dias em metas que me frustrarão.
Mas caminho, sempre caminho.
Gosto do meu cardiologista, mas prefiro vê-lo pouco.
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Do muito o que me choca em vida – do chiclete de melancia ao suicídio de Jonestown; da insistência dos homens em se apossar das mulheres ao genocídio de Ruanda – poucas coisas hoje me chocam mais que a desenvoltura dos cretinos.
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Subitamente, toca Serra do Luar, do Walter Franco, e a vida vai ganhando sentido em cada frase e acorde do mantra. Cheguei agora, no vento.
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O escândalo Master vem assumindo dimensões tão gigantescas que não seria exagero dizer que havia um Sistema Financeiro Nacional e um Sistema Financeiro Vorcaro.
Talvez haja uma diferença: o Sistema Financeiro Vorcaro ser bem mais tentacular e articulado.
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A solidão pode ser agravada pela má companhia.
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Houve dia que fui com o Altamir, amigo sabedor de cachaça, a um sitiozinho em Queluz, onde o Rio vira São Paulo, visitar um pequeno alambique. O sinhozinho-dono, 86 anos, com um vigor de lobista do agronegócio.
Clichê inescapável:
– Qual o seu segredo?
– Cachaça, mas só até 10h, quando almoço.
Um sábio.
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A gente vê esses novos jornalistas esportivos, todos entre o hipster e o moderninho, munidos de sapatênis e de obsessão por mostrar o quanto sabem das coisas da vida. Qualquer coisa. Pode ser uma hermenêutica da influência bizantina na cultura do Leste Europeu ou a formação das nações africanas no período pós-colonial. Sabem tudo, opinam sobre tudo, falam vários idiomas e viajam pelo mundo com a volúpia de um Marco Polo. São politicamente corretos, usam meias estranhas, camisas de grifes caríssimas metodicamente desarrumadas, lançam mão de toda mímica possível para se mostrarem descolados. Exibem-se atraídos pela cultura popular, enquanto papagueiam anglicismos pernósticos e defendem teses sofisticadas ao falar de suas especialidades.
Insuportáveis, na maior parte.
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Eu sempre achei o Tite chato. Aquele olhar lívido, as palavras rocambolescas, roupas de coveiro da Boss. Mas depois descobri que ele não é apenas chato. O Tite é maluco.
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O machismo decorre de o homem no íntimo saber que as mulheres são mais equipadas para lidar serenamente com o que nos apavora.
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Bolsonaro serviu de bote salva-vidas para a burrice brasileira. Vivo ou morto, ele dará à burrice a chance de se expressar no mar revolto da compreensão dos fatos.
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O Brasil é um condomínio de 500 anos em que as assembleias de dão apenas com os moradores de coberturas.
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O Prêmio Nobel da Paz sendo entregue pela Corina Matchado ao Trump é feito o Oscar de Melhor Ator sendo entregue pelo Cigano Igor ao Mário Frias.
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Sextas não são compassivas. Perigosamente desfrutáveis, caminho óbvio demais para a aferição de desencontros ou das sequelas da solidão.
Sextas saltam histéricas do calendário e empurram as hordas para o dever de ser feliz.
Não desgosto de quem gosta das sextas, mas me agradam mais as terças, pela segurança que me traz saber que o sopro bolorento do domingo se esvaiu segunda adentro, e ainda tenho a quarta, a quinta, antes das sextas.
Mas sexta é uma boa noite para ouvir Graceland e Leonard Cohen ao Vivo em Londres. Tenho chongas a ver com que cada um faz. Depois de certa idade, sextas são noites tão efêmeras quanto suas consequências.
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Do 5º andar, no dia de São Cosme e São Damião, dona Estela jogava os saquinhos de doce pra criançada do prédio, não sem antes cuidar de protegê-los para as desventuras do salto. Torcia para que no meu saquinho viesse um Pic-Nic, um wafer coberto com chocolate, o diamante da safra.
Reclusa, não queria turba de criança formigando a porta da casa. Apenas ia à janela e jogava os saquinhos metodicamente arrumados. O dia de Cosme e Damião era a única exceção que fazia à sua solidão contrita, e a seu jeito, por través, expressava o sumo do espírito da data.
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A solidão é um pântano em que na saída pisamos sobre vitórias-régias.
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O escândalo do Banco Master, com sua rede de proteção em todos os poderes, me faz lembrar de uma velha pérola do folclore político brasileiro.
Candidato a presidente em 1950, contra Getúlio, pela vetusta e vestal UDN, o Brigadeiro Eduardo Gomes adotou radical discurso anticorrupção. Em seu primeiro comício, o Marechal do Ar, do alto do palanque, pulmão inflado, bradou:
– Se eleito for, vou botar todos os ladrões na cadeia!
Um político presente sussurrou a um colega:
– Já começou a perseguição
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A masturbação é o ancestral mais remoto da Inteligência Artificial.
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A leitura rasa do politicamente correto produziu em resposta a chatice do politicamente incorreto. A lacração pariu seu oposto, a lacração reversa. Esculhambar valores da tolerância faz sucessinho com os “não alinhados”, ainda mais caretas que os valores de que debocham.
Vive-se sob o império da falsa polêmica, exceções raras, pautada pela desintelectualização do debate.
Há maldade vulgar onde deveria grassar a ideia.
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Há certas músicas que me fazem sentir saudade de ouvi-las, mas não as ouço com medo de que a saudade seja melhor que a música.
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Poesia numa hora dessas?
Brasil, samba requentado
Na vitrola, velho disco
De olho marejado
Por conta de mágoa e cisco
Se pau deu em Chico
Tem que dar em Francisco
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Decepcionante para a grande maioria das pessoas quando a verdade contraria o senso comum. Mas a verdade existe para isso, para desconstruir o mito, o melhor alimento do voluntarismo.
A verdade é o soro da História para o veneno das falsas impressões, para o canto da sereia da certeza.
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Se há uma hora em que nos sentimos merecedores dos melhores desígnios de Deus, é quando estamos numa sala envidraçada, com o ar ligado, e vendo o maçarico impotente bafejar seu fogo lá fora.
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Só pedi a Deus que me poupasse de duas coisas na minha velhice: não usar bermudas com meia soquete e dançar axé.
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Um bom sinal de que estamos envelhecendo é quando as músicas tristes nos agradam sinceramente e as músicas alegres nos agradam constrangidamente.
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Natural que a internet tenha inflexionado o modelo da indústria da música. Natural também que o acesso universal à produção musical tenha produzido um mau gosto em escala. Não falo, obviamente, de fenômenos culturais de bom quilate, que é o caso de boa parte da produção alternativa e da periferia. A verdade é que há um pastelão gosmento que inclui pagode, trash eletrônico, qualquer lixo “credenciado” pela alcunha “universitário”, pop bolorento e choroso. Tudo isso movido à efemeridade típica destes novos(?) tempos.
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Nada melhor para apurar o hábito de leitura que reler os livros certos.

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