Virou padrão da palermice brasileira esculhambar o Brasil.
O brasileiro apóstata corre ao aeroporto para voltar com o rancor cheirando à tinta, devoto de uma religião cuja bíblia é o passaporte.
Dependentes químicos da inferioridade blasé.
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Só passei a me respeitar quando deixei de me levar a sério.
Não é brincadeira.
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O cinemão dos EUA, raras e boas exceções, se presta a paraíso do politicamente correto, dos arquétipos culturais, ao império do senso comum, à Arca de Noé dos paresinhos perfeitos, à Xangrilá dos músculos. Muitas vezes, por impulso, viceja na periferia dos neurônios. Em qualquer filmeco ou filmão fica fácil saber quem é o bandido, o canalha: ou é gordo, ou fuma, ou bebe; ou preferencialmente os três. Há um propósito nessa esteriotipização: eles não gostam de mim. Sei que é pessoal.
Meu acerto de contas depende do cinema do Havaí, mas parece que não tenho muita chance.
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No Brasil, escândalo político é feito disputa de pênalti: na vez de um, o outro espera.
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Por muito tempo quis envelhecer como o Leonard Cohen. Já que não podia por falta de engenho e arte, ia bebendo meu Blood-Mary aos domingos, delirando que estávamos – eu e ele – envelhecendo iguais.
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Sempre considero minha ignorância. Faço bem em me achar ignorante até que um relance me deixe em dúvida.
Imunizei-me sempre pelo soro da dúvida quando o veneno da certeza ameaçava me tomar as artérias.
É o que eu faço, mas não recomendo. Quem recomenda, prova do veneno.
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O desejamos é alguém que adivinhe – por intuição ou cumplicidade, ou os dois – o que nos faz feliz e se esforce por isso. Em contrapartida, reservamos o nosso melhor. E o nosso melhor vai puxando o melhor do outro, feito um monjolo de águas claras e edificantes.
Entender o outro e aceitá-lo é o melhor que podemos fazer por alguém, ainda que esse alguém demore a entender o que é óbvio, e, por óbvio, distante e próximo, simultaneamente.
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Queria muito ter o jeitão elegante do Chico, mas sou organicamente Odair José. Não que um exclua o outro, mas me sinto alijado do protocolo zonasulzista, o que me torna mais receptivo a entender o que eu não vivo.
Como a primeira vez que li Proust e Joyce.
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Torcer pelo Fluminense me educou a superar o desafio existencial do timinho. Não nasci lindo ou herdeiro de um patrimônio que sublimasse a a qualidade anterior.
Filho de um escritor traduzido em 30 países do mundo, mas sertanejo até a alma, aprendi a conviver com o respeito pelo capital da essência. Manteve-se sóbrio segundo os padrões histéricos da riqueza de hoje.
Já o Fluminense me fez passar por um tranco existencial que trouxe luz ao destino improvável, ao terreno da hipótese matemática sem cqd.
Ser Fluminense, mais que lição de vida, é aprendizado.
Serei sempre grato pela dádiva.
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A gente descobre que envelheceu, que não há mais a menor centelha de neurônio útil, quando a série a que queríamos muito assistir é a mesma que nos impressionou faz pouco mais de dois meses.
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Quando moleque, me aperfeiçoei numa arte simultaneamente tosca e sofisticada: o arroto. Arrumei com isso encrenca em casa e admiração nas ruas.
Ao fim das peladas, com sede saárica, bebi centenas de refrigerantes de graça só para fazer a felicidade de quem pagava para me ver e ouvir desfiar um repertório gutural impensável. E assim ia bebendo minha Coca média no Seu Vítor, minha Coca família no Ivo, de Boca do Mato, e muitos outros refris cercado de amigos em êxtase. Por aí ia. Como bem lembrou o amigo de rua Toninho Lima, uma de minhas especialidades era a primeira estrofe do Hino Nacional. Era craque também em escalar o Fluminense e, o creme do creme, a para os humanos normais indizível “inconstitucionalissimamente”.
Tá certo, eu sei, arroto não é socialmente aceitável – eu mesmo desautorizo meus filhos a seguirem a tradição -, mas no dialeto das ruas é símbolo de poder. E eu o exercia com certo orgulho.
Minha mãe, se soubesse, me repreenderia com o vigor a a ternura de sempre; talvez meu pai sorrisse sardonicamente.
Foi-se o tempo, mas ainda hoje volta e meia sou interpelado nas ruas como que instado a repetir como um T-Rex aqueles sons cavernosos da infância.
Parei com isso. Não insistam.
Mas em casa…
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Já que falei de arroto, dando curso à celebração escatológica, gostaria pungentemente de falar de peido, esse sopro de vida injustiçado como se fosse degradante e exclusivo dos Morlocks, de H.G.Wells. Num mundo holístico, num planeta preocupado com se manter íntegro para a sequência de gerações, não haverá justiça, se não houver compreensão com o peido. Ninguém pode ser vulgarmente crucificado ao sabor de preconceitos, se peidou com honestidade, sem intenção de ferir ninguém.
Quantos casais se reprimem pelo constrangimento de dividir a individualidade do peido num ambiente contrito e refrigerado dum quarto em que deliraram frenesi de grandes prazeres. Há na história casos de diplomatas que se suicidaram por peidar em ambientes protocolares. Religiosos também. Há casos de divórcio sustentados pelo efeito fulminante de ovos e repolho no ritual de deixar fluir os gases que não nos deixem pensar infartados.
O peido é um bem universal, e sua solidão de etiqueta nem sempre encontra amparo num suspiro que pensamos discreto.
Mas há que se ter cuidado, pois nem sempre ele vem desacompanhado.

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