O Natal era uma das datas de minha mãe. Mães são calendários, fortalecem nossos vínculos com datas, cobrem datas de alusões simbólicas, fazem delas cânones familiares. Se nas ordinárias a vida já orbitava em seu redor naquele velho apartamento da Rui Barbosa, no Natal, era protocolo de estado. Católica ciosa de sua fé, dona Juraci, mês antes, se incumbia feliz de arauto familiar da data fundacional do cristianismo. Impreterivelmente em 25 de novembro, a casa se iluminava de sua recorrente árvore espaldada por vaso velho forrado de papel dourado, delicadamente amassado para dar ideia de saído de terra em que nunca jazeu. O vaso velho, abandonado em um canto do banheiro de serviço por um então inesgotável ano, tinha o único condão de servir datadamente à expressão do fervor católico de minha mãe. Coberto de dourado e afeto, o vaso, pelas mãos de minha mãe, mãos que me acarinhavam desde meus primeiros trocar de pernas, por manhãs balsâmicas ou tempestades espalhafatosas, o vaso se redimia do longo abandono por sustentar a árvore de alegrias renovadas. A ceia, farta, fiel às personagens protocolares das festas: peru, tender, maionese, arroz, farofa. Vez por vez, pernil. A sobremesa, idílica, sempre entre tortas e bolos, além da inexcluível rabanada. As mãos de minha mãe, lenitivo devotado em talho e bênção por vida carpida ou desfrutada, se prestavam a todo tipo de alquimia culinária que a imaginação pudesse garrar. Com resultados espetaculares. À noite, a ceia servida um pouco antes da zero hora de 25 se fazia precedida pela oração que nos lembrava da graça de uma mesa cheia, conquanto tantos dessa graça não compartilhassem. Os presentes não se distribuíam na véspera. As crianças que se recolhessem aflitas, com suas expectativas fermentadas pela espera. Mal o dia se imiscuísse nos escombros da noite, o sol com seus lábios tépidos e úmidos da madrugada afagando as janelas, corríamos sofregamente para ver o que bom velhinho tinha deixado na árvore que dona Juraci construiu sob os auspícios de um vaso velho harmonizado por sua bondade. Todos temos nossos vasos velhos. Todos corremos na madrugada de nossas inquietações pela notícia auspiciosa de um alento depositada sobre um vaso velho coberto de ornamentos que se prestam muitas vezes a distrações. Vez tinha que o que se pedia não vingava, mas jamais ao ponto de ralharmos com o destino. Se não o que esperávamos, o não esperado se acompanhava de história que minha mãe contava em enredo de doçura, em acalanto. A calma que nos ungia antes que a decepção arranhasse com suas unhas afiadas o expectar puro de uma criança.
O Natal era dona Juraci, nada mais vividamente cristão, nada mais entranhado de cânones cristãos que ela reunia em mansidão de espírito.
Por muito tempo coadjuvei com os meus filhos e filha da primeira geração o Natal de dona Juraci. Sem ela por quinhão robusto de vida, tentei timidamente lembrá-la, por espelhamento e contrição, aos meus filhos e filhas da segunda geração.
Ainda que não mais ornado pela árvore resplandecente de dona Juraci, que, por prestidigitação de seu capricho, brotava de um vaso velho, não há Natal que seja meu que não seja dela.
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Não são apenas os espíritos que se elevam nestes dias de Natal. Nossos corações se abrem à pulsão da caridade e à expiação de culpas renitentes.
Vou cuidar de uma.
Faz anos. A moça que nos ajudava com os meninos e meninas em Friburgo adorava a Marisa Monte. Gente boa, com os sestros naturais de idade florescendo, virou crente fundamentalista por conta da influência catequizadora de uma diarista efêmera.
Certo dia, não resisti à tentação torpe. Disse a ela que na gravação da música Alta Noite a Marisa Monte se assustou ao ser surpreendida com aquela voz gutural em dobra – que todos sabemos ser do Arnaldo Antunes. Fui mais longe: inventei que a cantora consultou um guia espiritual. O guia lhe advertiu: aquela voz era manifestação do diabo.
A doce Anginha, a partir de minha revelação, toda vez que eu punha pra tocar Alta Noite, me suplicava: “Desliga, seu Beto, desliga, pelo amor de Deus!”.
Me perdoe, Pai.
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Do meu apartamento, vejo uma ou outra varanda, tímidas, salpicadas por luzes acusando Natal. Nas ruas, antes freneticamente coloridas da lembrança das festas, nada, ou um tantinho aqui e ali. No condomínio, não fosse esquálida árvore no hall do elevador, a data teria passado inotada. Nos shoppings, nem carece mais evocar a metáfora religiosa do nascimento de Jesus para estimular as pessoas a sacar voluptuosamente os cartões de crédito. Basta abrir as lojas. Nos espíritos, arrefeceu de quase morte o sentimento de caridade, compaixão e perdão, tão vívidos na tradição cristã do Natal. Na noite da ceia, ao som de trilha melancólica, destilam-se afeto, mas também ódio, divisão. À meia-noite, fugazes estampidos lembram constrangidamente a hora.
Culpa é do Chocotone. Não se rompe uma tradição de uma data que só se mantém justamente pela força da tradição.
Depois da blasfêmia do Chocotone, os natais jamais foram os mesmos.
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Cada cretino que para na Lagoa para fotografar a árvore de Natal agrega cem metros de trânsito no sentido Barra-Leblon.
Sinto que a árvore da Lagoa e o iminente desabamento do elevado do Joá são obras dessa gente da Zona Sul. Gente que quer empurrar a Barra pra Grota Funda e se livrar das picapes gigantescas e shortinhos separados dos saltos altos por pernas e coxas com diâmetros de três dígitos.
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Natal traz sempre uma boa oportunidade de rever certas pessoas de que não gostamos e até simpatizar com elas pelo tempo de efeito do álcool.
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O Natal adormece a felicidade como mina chilena ao cobre. A felicidade está lá, mas carece perfurar a crosta. É onde entra o Natal, tatuzão litúrgico a abrir túneis de felicidade. O Natal encerra o maior paradoxo estético da arte de todos os tempos: abrir a celebração com o verso “Noite feliz” chamando um lamento arrastado de fazer cair em prantos um Hagar diante de uma criança com coriza.
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O cancioneiro popular expressa essa contradição alegria-tristeza do Natal com insuspeita competência. No Natal de Assis Valente, a hipocrisia do Papai Noel onipresente e dadivoso é dilacerada pelos versos “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, e “Já faz tempo que eu pedi mas o meu Papai Noel não vem; com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem”. No contraponto da realidade rascante da canção de Valente, temos a cândida e idealizada “O Bom Velhinho”, de Octávio Babo Filho: “Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém; seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”. Já a torrente “Noite feliz”, adaptação de uma canção austríaca, de Franz Gruber, encerra, como já disse, a contradição nela própria. Já a Simone, na versão do Lennon, por me lembrar o concerto histérico do consumo em shoppings e supermercados, só me deprime.
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Já não tenho pai e mãe. Temporão de safra de três, perdi antes de hora um amado irmão mais velho. Restou-me irmã querida. E amigos que semelham irmãos. Mas já não tendo árvores por onde cravar as unhas de minhas angústias, debruço-me quase ao rés para regar os sete arbustos que plantei. Quatro próximos, três distantes. O perfume provocante da relva compensa em parte a perda dos troncos seguros que indicaram o norte da minha vida por um amor tão sincero quanto a simplicidade que os explica.
Aos que me deixaram quase só, sobrevivendo pelos ensinamentos que deles herdei, o amor dos que me seguram pela mão firme da esperança.
Isso é Natal. Consola saber que agora faltará um ano para que essas lembranças deixem o vestíbulo de minhas inquietudes.
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Nestes dias de reencontro com um espírito cristão que nos revisita com data certa, minha caixa de entradas está lotada de “ofertas de Natal”. O Natal se mercantilizou, não de hoje. Hordas saem às ruas feito tarados em matinê. Em ritual patético.
Que o Natal cuide do que sabe fazer, de nos lembrar de seu intrínseco sentido, que desperte em nós a volúpia da caridade, de acolhimento do outro. Que nos faça lembrar que nenhum humano comprometido com a vida para além da vaidade e dos valores mundanos poderá ser plenamente feliz se há irmãos que sofrem a dor da opressão.
No mais, feliz Natal aos que me fuçam neste cantim de mundo.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão