A leitura rasa do politicamente correto produziu em resposta a chatice do politicamente incorreto. A lacração pariu seu oposto, a lacração reversa. Esculhambar valores da tolerância faz sucessinho com os “não alinhados”, ainda mais caretas que os valores de que debocham.
Vive-se sob o império da falsa polêmica, exceções raras, pautada pela desintelectualização do debate.
Há maldade vulgar onde deveria grassar a ideia.
—–x—–
Sinalizador de tempos obscuros o mecanismo mental do brasileiro que vibrou tempos atrás com a vitória do patético Boris Johnson nas eleições do Reino Unido. Muito bem que os trabalhistas se representassem por uma liderança que esticou a corda na defesa de sua narrativa e empurrou o cidadão médio britânico para a segurança de um estado e uma economia protegidos da ameaça migratória.
A Inglaterra, depois de lucrar por séculos com a opressão da exploração colonial, se reinventou, por ato de contrição, como um país includente, multi-étnico e aberto ao mundo.
Parece que a globalização desconsiderou a força das culturas atávicas nacionais, que na crise puxam defensivamente os povos para a segurança de sua casa-nação e os faz reagir ao “intruso” que até ontem era irmão.
Não sei se para me chocar menos eu deva me esforçar em reaprender os bons conceitos de solidariedade e empatia que me forjaram até aqui.
Não se trata apenas de o mundo estar cedendo à estupidez por um ato de voluntarismo. Ao se instalarem no território da estupidez, pessoas conscientemente agregam quórum à vulgarização da estupidez, tornando-a aceitável.
—–x—–
O mais instigante de O Método Kominsky, do Netflix, não é o texto primoroso e a incrível sintonia entre dois velhos atores. A série nos provoca por nos fazer lembrar de um paradoxo imperativo ao envelhecermos: idealizamos ser Sandy quando nos tornamos cada vez mais Norman.
Na velhice, o jovem que insiste em morar renitentemente em nós cede, pela imposição social e ação degenerativa do tempo, cada vez mais passagem ao velho incontornável.
Envelhecer é trafegar pela roseana terceira margem do Rio, aquela que se esconde entre Sandy e Norman. Envelhecer é aprender a entender a beleza dramática da solidão, nos tornarmos amigos radicais de nós mesmos.
—–x—–
Sou velho. Vivi o regime militar, senti na política estudantil, no colégio e na faculdade, a mão pesada da censura, a sombra expansiva do medo, o hálito ácido dos boçais. Vi generais desancando, com seu repertório intelectual limitado, símbolos e ícones da esquerda ou mesmo do pensamento liberal. Havia opressão, falta de empatia, brutalidade. Mas deboche, não; deboche não havia.
Jamais pensei em enfrentar, por sobrevivência, a esqualidez intelectual, a tosquice bizarra de um monstro e sua tropa de porta-vozes do escárnio, o uso recorrente da ironia rasteira e do sarcasmo raso.
Não se trata de questão ideológica, ou mesmo de excludência por representar o que se odeia, e por aí se buscar pertencimento. É respeito. Só.
O acerto histórico bateu duro e de forma justa nos atores dessa ópera bufa, protagonistas do primado da irrelevância intelectual e mau gosto.
Mau gosto e troça rasteira se somaram à maldade, disso que sempre que se tratou.
—–x—–
Boa parte dos atributos do cidadão de bem masculino do fascismo está inextricavelmente ligada aos piores atributos do macho misógino, forjados no metal do homem insensível, encharcado de preconceito com sentimentos por ele considerados menores: empatia, tolerância, medo, dúvida, hesitação, carência.
Mais caricatura grotesca que masculinidade.
A mulher fascista é o contraponto validador desses valores.
Não tem como dar certo.
—–x—–
A primeira vez que li sobre o ativismo ambiental ganhar expressão política e partidária foi com o profético “O Verde Violentou o Muro”, do Ignácio Loyola Brandão. O livro registra o rito de passagem da Alemanha, pré e pós-muro, particularmente Berlim, na visão do escritor, que morou por duas vezes na cidade. A ascensão dos verdes surge como o primeiro sinal libertário da Alemanha unificada, inaugurando a agenda de tolerância e afeto, progressista, tão refratária aos regimes fechados, e inevitável sob o ponto de vista da compreensão holística da dimensão humana.
Quando a pauta das liberdades decorrentes da empatia se encontrar sob ameaça de qualquer regime, mau sinal, há um projeto autoritário em marcha.
—–x—–
Bolsonaro hoje é vítima da falta de empatia que lhe é natural. Não é justo cobrar solidariedade de quem foi agredido, no ambiente de uma tragédia, por sua indiferença, ironia e desrespeito com os mortos; de quem sofreu pela irresponsabilidade de um chefe de governo que estimulou a negação científica e pôs em seu alforje o peso de centenas de milhares de vidas perdidas.
Posso até não agir assim, mas quem age está pleno de razão.
—–x—–
O que querem os reacionários dos que não se sujeitam a seus padrões torpes de comportamento? Que peçamos desculpas a nossos filhos por tê-los educado de forma a que hoje tenham empatia, afeto e reconhecimento? Que cultivemos a culpa por termos acertado?
—–x—–
Quando leio nas redes as mais estúpidas manifestações de toda forma de preconceito e falta de empatia, percebo que o bolsonarismo agiu feito a água do Gremlin: libertou, pela normalização da burrice, os monstrinhos que vivem na personalidade dócil e frágil dos boçais.
—–x—–
Certas teses, à esquerda e à direita, se consagram por um fenômeno de recorrência conveniente. São adotadas porque muitos com quem se tem empatia a defendem, o que é mais fácil que estudá-las.
Primeiro, escolhe-se o lado; depois, adota-se a tese.
—–x—–
A pandemia poderia ter redefinido o conceito de altruísmo, tornando-o, por ecologia, consequência de uma atitude de proteção individual. O que poderia parecer egoísmo por tentar salvar-se a si próprio se reverteria em solidariedade, por ser uma parte do esforço para salvar o outro, distante ou próximo.
O meu isolamento protegia você, que com o seu me protegia.
Podíamos aprender com isso, embora a memória humana seja fluida como a gordura do corona quando submetida à espuma de um sabão vagabundo.
—–x—–
Comovente a solidariedade das gentes nas tragédias ambientais.
Merda de mundo em que gestos simples de humanidade nos tocam como algo estranho, e não por apenas gestos abarcados de bondade e razão do que somos. Ninguém é moralmente feliz se muitos sofrem.
—–x—–
Pessoas comuns são repositórios da bondade. Fácil entender: bondade só é bondade se realizada por pequenos gestos, descomprometidos de qualquer repercussão sobre a natureza desse gesto. Se dão sem alarde, movidos pela solidariedade natural. Todos os dias, pessoas maravilhosas intentam à socapa atos exemplares. E se recolhem discretas ao universo de sua bondade.
E dormem felizes, embora menos ricas que o Luciano Huck.

Deixar mensagem para Beto Sales Cancelar resposta