A vida e o gênio de Niemeyer foram a lâmina de um punhal encostado desafiador no pomo-de-adão da caretice, da moralidade cretina, da sensação boçal do poder, da prepotência e do exagero das palavras e formas.
Para quem viveu 105 anos e definia a vida como um sopro, fica a lição de seu talento transoceânico, de sua sensibilidade única, da transitoriedade de nossas conquistas e agonias.
Somos todos menores que ele, e isso é um elogio.
A nós.
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Em fase de negação de carboidrato, sento numa cafeteria para um expresso e na mesa ao lado uma senhorinha pede folheado de camarão. Não satisfeita, emenda com um capuccino com alpes suíços de chantilly e uma mousse de Ovomaltine com Nutella.
Fui ao banheiro, onde discretamente chorei, e voltei humilhado ainda mais pela expressão de prazer impune da senhorinha.
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Seu Teotônio, vizinho de cerca em São Pedro. Sertanejo de cepa invergável. Bruto, mas educado. Ia sempre a pé pra Aldeia. Quando de pouca vez pegava carona, antes de entrar no carro, tirava e repunha o chapéu em sinal de respeito. Vez comigo, repetiu o gesto.
– Fique à vontade, Seu Teotônio
– Betinho, à vontade não fico nem em casa.
Um homem sábio.
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Queria guardar do Natal apenas a referência metafórica do sentimento cristão da solidariedade de alguém que morreu por nós, mas muitas vezes me pego sentindo o Natal como a noite em que eu como maionese e panetone entre o Brasileirão e a Libertadores.
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O Natal adormece a felicidade como uma mina chilena ao cobre. É do Natal o maior paradoxo estético da arte de todos os tempos: começar com “Noite feliz” um lamento de fazer cair em prantos um Hagar diante de uma criança com coriza.
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Quanto mais o tempo passa, mais ouvir Alceu Valença é bom. Conheci essa figura imensa numa daquelas noites de Friburgo, apresentado por um compadre seu que era meu amigo. Ficamos até o sol romper a serra contando casos, rindo pacarai. Noite inesquecível. Poderia passar boa parte do pouco que me resta de vida ouvindo a guitarra de Zé Rafael em “Alucinação”, tendo por chão a levada diáfana da melodia do trovador pernambucano.
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O Guilherme Arantes tem umas coisas interessantes. “Planeta água”, que poderia ser um jingle de campanha do Al Gore, achava encharcada demais. Mas reouvi agora a versão com o Zé Ramalho, que conferiu à música a dramaticidade de tsunamis e enchentes, e ficou muito bom.
Me lembrou do frescor de hortelã do “Pegar carona nessa cauda de cometa, nosso lindo balão azul”. O legal é que o grande Zé Ramalho viveu sempre, como no hino da Turma do Balão Mágico, no mundo da lua. E é lá que eu sempre reencontro o Ramalhão, no saudável mundo da lua, de onde não quero sair nem por medida provisória.
Caiu gostoso num domingo vadio.
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Um velho amigo, com distância da minha idade cada vez mais insalubre, me ensinou um dia: “Bebidas claras de manhã, bebidas escuras à noite”. Bom ensinamento. Para o sol, vodca e vinho branco(eca!); para a lua, uísque e vinho tinto. Quando experimentei rebeldia, bebendo vinho tinto e uísque de manhã e vodca à noite, me enredei em desassossego.
Ele tinha razão.
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Deixei de ir à praia há tempos. Por preguiça, tédio, sanidade mental. Praias, com seu repertório de excentricidades, se transformaram em estorvo insuportável, a visão mais próxima do spa do tinhoso, se a ele fosse dado escolher o que gostaria de ter como spa. Mas sobre cão na praia tenho cá minhas ideias: cão não joga na areia latinha de refri e cerveja, nem garrafa d’água; cão não põe pra tocar nas caixinhas blutúfi sertanejo, funk e pagode; cão não leva a bola da altinha nem isopor; cão não joga frescobol; cão não fuma; cão não faz malabarismo nos sinais que antecedem flanelinhas achacadores, que não são cães; cão não se livra de seu jornal depois de lido entregando-os ao vento e ao desconforto dos outros; cão não opina sobre Reforma da Previdência exigindo que você exponha a sua; cão não usa protetor solar que lambuza nossas pernas ao contato com os obstáculos humanos que precisamos transpor para dar um mergulho.
Quanto aos donos, tenho restrições.
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Música tem que ser boa, esta a condição.
As tristes me alegram, me invadem de uma melancolia prazerosa, de uma sublimação produtiva do que me angustia, me conduzem por compassos lentos para o meu mundo, um mundo não solar. As alegres me incluem desconfortavelmente no sentimento do todo, me lembram promessas de ser feliz que não hipotequei, me cobram uma alegria deslocada de mim.
Prefiro a noite, a névoa, o silêncio da luz.
E vou por aí, assim, ficando feliz ouvindo as músicas que a tanta gente entrista por lhes tirar bertoluccianamente do sol que os protege.
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Quandinvez a chuva arreda de chover onde se chove por conta de compromisso e se enfurna desquieta pelo céu de sol e luz do Rio. Indassim, o Rio tira de letra e se embonita de cinza garrado no mar lambendo montanha. A cidade se introspecta e se revela feliz e grandiosa pelo avesso de sua essência. Linda.
Carioca.
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Sobre a passagem de Jimmy Cliff.
Se um dia eu me surpreendesse escavando girassóis acarinhados por beija-flores, e seguisse enlevado por sons de passarinhos que não conheço, salpicado por réstias de sol de fotos de nascente, abraçando fractais que vazassem de descuidos de árvores impensáveis, guiado por coordenadas de instinto bruto, caminhando sobre peles de arminho, vez em quando deixando o corpo se afastar da alma por prudência de não perder o sonho que me pesa mais que delírio, eu ouviria “I can see clear now”.
E voltaria pra cozinha destenso pra ver se a carne passou do ponto.
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O gênio do Caetano mora na simplicidade. Quando se tornou refém da vanguarda, fez coisas ótimas, mas vanguardamente datadas. O que não tem data é um cheiro no pescoço, um pôr do sol, uma saudade doída, um não esquecer do que se gosta, um acorde cheio de violão e piar de passarinho. O Caetano fez da simplicidade harmônica a cama de seus mais lindos poemas: “Oração ao tempo”, Ciúme”, London, London”, “Cajuína”, “Irene”, ”Reconvexo”, “Muito Romântico”, “Desde que o samba é Samba” e tanto mais de perder conta. Quando gritou, eu gostei. Mas passou. A calma fica.
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Morava, como ainda moro, na Barra. Teve dia em que pela primeira vez peguei a balsa do condomínio e fui com a Rafinha e o Neto, dois dos meus filhos, assistir ao pôr do sol na praia da Barra. Linda a tarde se despedindo sob o paspatur de um sol de laranja acachapante, envolvida em seu cadenciado rito pela presença de dois amores. Me senti muito perto do Rio.
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Com a cumplicidade de um alentejano, assistia ao sol se arrastar pra dentro do horizonte de Búzios, não sem antes espernear por amarelos impensáveis, antessala da noite aplacadora.

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