A letra de “I Can See Clearly Now”, do Jimmy Cliff, um chamado alegórico à felicidade. Cliff nos convida a compartilhar com ele uma sensação que, pela levada magnetizante da música, percebemos libertá-lo de algo que o afligia. Somos instados a caminhar plenos em direção a um horizonte irrelevante. A música vai se fazendo dona do corpo. Toma nosso corpo. Também assim com Bob Marley em “No, Woman, No Cry”.
Não por acaso o reggae nasceu em um país onde os pretos foram duramente seviciados pela escravidão e toda outra forma de opressão. Um país em que a liberdade ganhou um significado semântico particular.
Que Jimmy Cliff, um dos gigantes do reggae, passe em paz. Mais uma perda a se lamentar neste ano de perdas.
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Agenda do crime organizado: cooptar agentes públicos, descobrir rotas de tráfico seguras, criar empresas de fachada, encontrar fintechs confiáveis para lavar dinheiro, demarcar territórios, aprovar o projeto de anistia.
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BC independente é uma obra de ficção. Vai sempre depender de um interesse. Ou do governo eleito pelo povo ou do mercado financeiro.
Nos EUA, o Trump já demitiu uma diretora que lhe desagradava. Aqui, as relações entre o BC e Master afloram.
Independência pura é Sapucaí liberal.
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Fui apresentado a um ferro de soldar pelo irreverente padre Migdon em seu clássico curso de eletrônica básica. Foi no Colégio São Vicente. O objetivo era montar um rádio. Um dos maiores sustos que tomei em vida foi quando aquela traquitana forjada por resistências soldadas grosseiramente a transmissores cilíndricos emitiu um som.
Impossível esquecer do padre Migdon preventivamente nos alertar que o manuseio do ferro de soldar demandava cuidado.
Ele estava certo.
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Antonio Cicero já nos lembrava: “O Hotel Marina, quando acende, não é por você, nem pelo nosso amor”.
Ninguém é suficientemente importante para interromper a rotina tempestiva das coisas coisadas da vida.
O Brasil segue seu caminho.
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Garro de imaginar a defesa de Bolsonaro, sabendo ser inevitável o início do cumprimento da pena na Papuda, entrando com petição ao STF: “Requeiro, respeitosamente, a essa egrégia Corte, que o ex-presidente não fique encarcerado em ambientes em que seja submetido à tortura física ou psicológica, como, por exemplo, uma biblioteca”.
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Lembrando o atropelamento de Daisy em Benjamim Button:
Se a família do Milton não tivesse se mudado temporariamente para Santa Tereza, em BH; se a mãe do Lô, com 10 anos, não tivesse lhe pedido para comprar pão e leite; se ele descesse pelo elevador para comprar o pão e leite; se o sargentão reaça não tivesse dito ao Lô que o Exército não queria cabeludo comunista; se a mãe do Lô não tivesse permitido que ele com 17 anos fosse morar com o Milton no Rio para gravar um disco; se…
Não haveria Clube da Esquina.
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Carece de feriado uma das mais importantes datas da humanidade: o Dia do Pão.
Por favor, que os chatões evitem na data recomendar o consumo moderado dessa fonte inesgotável de prazer.
Lembro-me de quando fiz uma dieta proteica radical, privando-me do pão por alguns meses. Cheguei a um nível de afloramento de minha sensibilidade culminado pelo ato de chorar na calçada, por horas, na porta de uma padaria no Leblon. Os transeuntes, preocupados, me abordavam seguidamente, receitando-me os mais variados remédios. A eles, depois de lhes oferecer minha gratidão, respondia com um pungente apelo:
– Me deem um pão! Me deixem comer um pão!
Tempos depois, voltando ao maldito regime, fiquei sem comer pão por meses. No meu aniversário, tempos de Binder, o querido Bernardo Montenegro me surpreendeu com um presente inusitado: uma cesta com 237 pães. Sacana!
Chorei de novo copiosamente por horas.
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Quando no Porto, vou todos os dias ao Bolhão. Desfigurado pela pasteurização típica dos time outs, com sua nova arquitetura asséptica e desumanizada, o Bolhão ainda guarda alguns de seus melhores segredos.
Gosto de ser surpreendido pelas nuances do que parece monotonamente igual. De encontrar no igual o que lhe foge de ser reprodutivo.
É assim que vejo o Bolhão: diferente todos os dias por sua intenção fracassada de parecer igual.
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O Congresso chegou a um tal nível de degradação moral que tem me levado à situação estranha de concordar com frequência com o João Amoedo.
O despudor abjeto da extrema direita fez do ultraliberal João Amoêdo um carbonário.
Um Robespierre banqueiro.
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Não custa lembrar: 210 mil pessoas encontram-se em regime de prisão provisória no Brasil, 1/3 da população carcerária. A imensa maioria, obviamente, pretos e pobres.
Mais grave nos EUA, país com a maior população carcerária do mundo. 80% das pessoas do sistema ainda não foram condenadas. Destas, 33% são negras, que representam 12% da população. Muitas, pelo escárnio do plea bargain, serão forçadas a confessar crimes que não cometeram.

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