Amarante, o Streamgólatra

Fazia tempo corrido de perder conta que eu não via o Amarante. O reencontro, aleatório, se deu num supermercado de Curicica Olímpica, onde, em prazer extático, passo parte de meus dias. Reconheci o Amarante de pronto, mas ele demorou um pouquinho:

– Amarante! Quanto tempo, rapá!

– Você é…é…o Beto?

– Sim, eu mesmo

– Cara, você está bem demais. Temos a mesma idade, não é?

– Sim, a mesma idade. Estou bem nada, a vida cobra. Você é que está ótimo, Amarante, nem parece que tanto tempo passou, amigo

Amarante me surpreendeu com intrigante pergunta:

– Tem notícia dos meus filhos?

– Não entendi, Amarante.

– Beto, filhos dão mais notícias aos amigos que aos pais, é da vida.

– Olha, impressionante. Você tem razão. Não faz duas semanas que o seu mais velho me mandou um vídeo pelo WhatsApp.

– Ele tem seu WhatsApp?

– Sim, ele é amigo de uma sobrinha da minha mulher. Coabitamos um daqueles grupos de discussões vadias típicas do Zap.

– Não falei pra você? Tinha razão ou não quando perguntei pra você por meus filhos? Esse aí tem três meses que se escafedeu.

Devolvi de bate-pronto:

– E você, tem tido notícias dos meus? – gargalhamos gostosamente.

Me fez bem ver que o Amarante, embora carregasse as marcas da idade, ainda guardava uma certa brejeirice nos gestos e no jeito de falar. A conversa ganhou corpo e foi fluindo em feitio de riacho de corrutela.

– Beto, envelhecer tem um preço que a gente nunca faz ideia quando jovem. Costumo dizer que envelhecer é abraçar a dor como companheira. Tudo dói, tudo é trabalhoso, nada do que fazíamos antes com desembaraço se mantém assim. 

– Você tem razão. Hoje sou hospedeiro generoso de todo jeito e qualidade de dor. Somos, eu e a dor, uma só pessoa. Brabo, amigo.

– Veja só, por exemplo, o que eu chamo de Desafio da Guia.

– Guia? Meio-fio, você quer dizer.

– Isso. Morei muito tempo em São Paulo e perdi o hábito de chamar a guia pelo nome que é de respeito e licença poética o nome dela: meio-fio.

– Pena. Acho meio-fio um nome mesmo poético.

– Pois é. Veja. Quando foi que mais jovens pensamos no desafio de transpor a guia – quer dizer, meio-fio? Era natural. A gente atravessava a rua e quando via já estava na outra calçada. Hoje, se o meio-fio for um pouquinho mais alto, a coluna acusa. E é fácil entender.

– Como assim?

– Com o tempo vamos ficando temerosos pelas consequências de uma queda. Defensivamente, vamos caminhando com os pés cada vez mais próximos do chão, o suficiente para a gravidade lhes empurrar de volta.

– Verdade! É exatamente por isso que venho dando topadas toda hora. Uma atrás da outra.

– Pra não falar de engasgar com água. É muita humilhação engasgar com água, seu Beto! Carne, só muito macia. Sanduíche, tem que cortar na faca cada pedaço, pra não correr risco de ver os dentes da frente saltarem em bungee jumping.

– É isso, exatamente assim, amigo.

A conversa transversou prum outro rumo:

– O que tem feito, Beto? Outro dia me encontrei com o Filé e ele me disse que você anda escrevendo umas coisas.

– Rabiscando. Tenho um blog quase clandestino, uma espécie de Rosa Cruz dos blogs.

– Você é blogueiro, Beto? – sorriu sardonicamente o Amarante.

– É o que dizem – sorri de volta.

– Quanto a mim, Beto, tenho tocado a vida como posso, pagando, como já disse, o preço de estar em cima do chão e debaixo do céu. Fui contraindo hábitos e tocs, respostas mentais ao desafio das perdas naturais que os velhos como nós experimentamos.

– Tenho me enredado com muitos tocs também. Volta e meia acordo à noite para ver se a porta da geladeira está corretamente fechada ou se tem bico de gás ligado. Tomo muito cuidado com os objetos. Objetos têm vida própria. Se os negligenciamos, eles nos assediam de volta. Tudo tem seu lugar, e cuido de manter esse tudo em cada um.

– Com o tempo que a gente vai ganhando no dia a dia, a gente vai acumulando novos hábitos; novas manias, na verdade. Sou viciado em supermercado e farmácia, mas sempre mantive a compulsão num nível administrável. Mas agora, com esse tal de streaming, tive que procurar socorro médico.

– Como assim?

– Beto, assim que soube que esse negócio de streaming abria portas que nossa geração jamais especulou, fui chegando aos poucos. Assinei um grandão. Depois muitos outros foram vindo e, já descontrolado, passei a assiná-los todos, sem exceção. Passo a maior parte da minha vida diante da televisão, e se não há televisão onde estou, corro pro celular de tela grande que comprei. Não consigo desgarrar. Muitos amigos me perguntam por que assino canais de streamings que passo seis meses sem acessar. Pondero, penso em cancelar, mas não consigo. Tenho uma certa síndrome de disponibilidade, quero que o streaming esteja ali, coladinho no rodapé da minha tv, pronto para ser acionado a qualquer hora. Pensei em cancelar um canal com menos opções, mas quando abria o Instagram, era exatamente nesse canal que estava o filme indicado entusiasticamente por um daqueles trezentos influencers que só se ocupam disso.

– Pô, Amarante, que brabeza. Mas você falou em socorro médico. Surtiu efeito? 

– Ainda não, Beto. Só no diagnóstico: sou streamingólatra

– O quê?!

– Streamingólatra, dependente químico de streaming.

– Pelo amor de Deus! Existe isso?

– Está aqui na sua frente. Outro dia me encontrei com o Bambino na Feira da Glória. Você deve se lembrar que o Bambino pisou fundo nos anos da psicodelia. Foi a Woodstock, experimentou todas as variedades de cogumelo alucinógeno, viveu com a filha de um xamã de Potosi, mergulhou forte no ayahuasca e consumiu LSD por décadas. Viajou por toda a vida, uma espécie de Júlio Verne da piração. Pois bem, o Bambino me disse que nenhuma dessas viagens é mais delirante que acompanhar seis séries ao mesmo tempo, misturando enredos e personagens, num arrebatamento lisérgico inimaginável.

– Costumo fazer isso, vejo umas três séries ao mesmo tempo, embolo trama e personagens, me sinto sobrevoando a razão com um certo grau de prazer alucinógeno. O Bambino tem razão. É grave, amigo?

– Sim, muito. Na primeira reunião dos Streamingólatras Anônimos, uma senhora, enfermeira aposentada, reconheceu em seu testemunho que em sua fase mais pesada de dependência chegou a ver, simultaneamente, em looping, Breaking Bad, Ozark, Chernobyl, Mare of the Easttown, The Americans, Dark, DNA do Crime e The Sopranos.

– Meu Deus, isso é uma loucura!

Amarante, já com o olhar rodrigueanamente rútilo, me corrigiu:

– Não é bem loucura, Beto, é adicção. Um outro senhor, que se apresentou como escriturário, confessou que sua vida paralisava enquanto não assistisse a um filme ou série com aviso de que sairia do streaming em pouco tempo. Tomava, sem produzir efeito, três tarjas pretas por dia. Um coronel reformado contou que foi resgatado por um segurança do seu condomínio quando, completamente nu, de madrugada, conversava com um gambá sobre sua ansiedade por ter de esperar uma semana para assistir a um episódio inédito de Succession. 

– Pelo amor do papa!

Conversa ia boa, mas carecendo de terminar, por conveniência e cuidado preventivo.

– Amarante, foi muito bom reencontrar o amigo. Bom e pedagógico. Como sempre, aprendi muito. Tenho cá meus hábitos e os estranho muitas vezes. Sorte pra você nessa aventura de dar cabo ao streamingolismo. É isso?

– Sim, Beto, é isso. Grande abraço, irmão. Sigamos. Quem sabe a gente esbarra numa Venâncio da vida?

Fui pra casa intrigado com aquela conversa do Amarante. Quis provar a mim mesmo que tinha sob controle o meu hábito de consumir streamings. Cancelei dois. Mas vi no Instagram que entrou num deles uma série que nem sei se assistiria, mas que me deu aflição por não poder assistir. Não dormi duas noites. Acabei reassinando a praga. Passou um mês e não vi a tal série. Mas sei que ela tá ali, a dois cliques de mim. 

Será?


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Comentários

4 respostas para “Amarante, o Streamgólatra”.

  1. Sou streamgolatra. Obrigado por me informar sobre essa terrível doença . Kkk mas o melhor pra mim foi o rosa cruz dos blogs 😁

    Ótimo, como sempre

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de magnificentdonut2b76345d9a
    magnificentdonut2b76345d9a

    Ótimo Beto. Como a vida se transforma! Mas vou confessar, só entre nos, não tenho TV! Não é mentira.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Inacreditável! Parabéns!

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