República do Compass

De um tempo em que deitei morada em Brasília,

– Beto, pelamordedeus, é sério, cara, eu tenho muito medo. Olha o que você vai fazer com isso, cacete.

Pode parecer esquizofrenia, mas se entende o pavor desse meu amigo ao me segredar alguns dados de circulação restrita a que ele teve acesso por integrar um grupo secreto de Brasília. É gente com tarefa encardida: provar ao Brasil, na medida do tempo que o tempo de fazer as coisas ensina, que Brasília é mais ferida que navalha nesse enredo de ópera bufa que é a política brasileira. E que o brasiliense, mais vítima que algoz. Mais: que por lá se inventou um país que antes molhava o pé de suas vaidades nas águas de um Atlântico dissimulador. Brasília parecia esconder, mas, com o corrido, trouxe as mazelas à tona.

O que será, por Deus, essa seita, ou será mesmo seita, ou o que for? Vou contar, no tudo que me é dado cabimento contar. Anfitrião do poder central há 65 anos, com pele de couro pelo ensinamento, o brasiliense desenvolveu um jeitim só dele pra medir o aparelhamento do estado, seja qual for a tropa política inquilina do poder. Muito mais eficiente que qualquer tratado científico ou acompanhamento sistemático das edições do Diário Oficial. O Placômetro – este o nome do troço – de Brasília baseia-se no registro e sistemização de simples observações de marcas e modelos de automóveis responsáveis pelo inchaço dos estacionamentos da Esplanada. Sem erro. Num satisfeito com aferir visualmente o nível de partidarização da máquina pública, a brasiliada cuidou de ampliar sua metodologia para a aferição de objetivos mais complexos, como a vinculação do modelo do carro ao nível do DAS de seu proprietário. Impressionante o que esses malucos de Brasília intentaram. Em benefício da verdade, devo cometer uma indiscrição. Por impraticável o tudo de gente entregar-se à onerosa tarefa de realizar as observações e sistemizá-las em gráficos complexos, os caras se organizaram em núcleos, os Grupos Estratégicos de Observação da Mamãezada, os, até esta minha indiscrição, sigilosos GEOMs. O número de GEOMs varia em função do número de ministérios, já que a cada GEOM cabe entranhar-se numa determinada pasta, exceção às militares, que neguim é criativo, mas né louco. Recolhidas as observações, os coordenadores dos GEOMs se reúnem secretamente em uma sala escamoteada por uma parede falsa do banheiro de um conhecido bar de entrequadra, no topo de escada quebra-bêbado. Lá eles cuidam de organizar os dados pra feitio de relatório distribuído a alguns cidadãos de Brasília por meio de correios eletrônicos de provedores gratuitos. Num adianta, ninguém de lá confirmará esta história, eles fingirão surpresa, mas muito quinhão já recebeu em código esses dados. Já foram quinze os coordenadores, mas o número varia, na aumentação ou diminuição casada com a sede fisiológica do posseiro eventual. Estive recentemente com um desses agentes. Prometi-lhe dar segredo ao que me contou – e me contou obviamente tomando o cuidado de se certificar não estar sendo de forma alguma vigiado por alguém. 

– Esses caras da inteligência do poder são foda, Beto. Do nada eles montam um dossiê e me estrepam.

Entendi seu temor. A pasta que lhe cabe acompanhar não é a mesma que bisbilhotaria aqui. Questão de segurança. Pra fora do horizonte das informações cujo processamento lhe é tarefa, o meu amigo me municiou de números impressionantes sobre diversas áreas do governo. Vou inconfidenciar apenas os relativos ao Palácio do Planalto, pra se ter idéia do tamanho do bicho. Segundo minha fonte, em tempos idos, havia cerca de 800 funcionários por lá. No correr dos tempos idos, o número triplicou. Os antigos gabinetes se desdobraram em estranha mitose, tornaram-se aos poucos pequenos gabinetes, gabinetinhos, gabinetículos, colméia de abelhas partidárias. O informante, lívido, não empacou na contação científica, desdenhou mesmo dela, por preferir recorrer às técnicas infalíveis do Placômetro. 

– Beto, mermão, o coordenador do GEOM do Planalto andava em média 215 metros no ir e vir de seu carro para seu gabinete, ou gabinetículo, sei lá. De uns anos pra cá, o cara anda 523 metros, Beto, 523 metros, serpenteando entre o mar de carros que se espalham pelo generoso entorno do palácio. É carro pacaraio. 

Emendou no jargão polishopeano: 

– E não é só isso: Beto, todos os caras ocupam DASs do nível 4 para cima. E quem não é DAS, é aba do PNUD, um programa da ONU para financiar projetos de combate à fome e desigualdades sociais. PNUD pra paga de gente. Um absurdo!

Ainda tenso, pediu-me sigilo de confessionário do teor do último item do relatório, “Correlações”, que de soslaio perscrutei, e que me pareceu conter garranchos incompreensíveis. O cara olhava em volta assombrado, ainda que estivéssemos reunidos numa Catedral de Brasília surpreendentemente vazia. Relutei barbaridade em quebrar uma promessa, mas não é honesto sonegar de quem até aqui chegou comigo o que o tal relatório acusava, embora não o tenha guardado a ponto de poder transcrevê-lo. Guardei o tantim de lembrar que o documento se referia a um padrão de consumo automobilístico que se reproduzia sistematicamente entre os entronizados em Brasília. O aliado DAS 4 tem Renegade; o DAS 5, Corolla; já o 6 – e num é miudeza -, Compass. O cruel é que os DASs maiores centrifugam os menores para áreas cada vez mais afastadas do endereço de trabalho, formando círculos concêntricos regressivos, de jeito que os amanuenses de Renegade sejam forçados a andar mais que os de Corolla, e os de Corolla mais que os de Compass. Coisas da hierarquia funcional.

Antes de me despedir do amigo e tratar de voltar pra casa pela intermediação incômoda de um trânsito encardido no retão do Colorado, não resisti e fui dar uma verificada no estacionamento do Planalto. E não é que o cabra tava certo? Um furdunço de Renegade, carradas de Corollas. E uma juntada gorda de Compass. Tinham todos os carros um certo jeitão de porta de geladeira, com adesivos mal deixando brechas para a revelação de suas cores originais. E assim o foi por toda a Esplanada dos Ministérios.

Já no portão de casa, o vibracol denuncia uma ligação que pelo bina vi ser do maluco: 

– Vai piorar, Beto, vai piorar!

Perplexo, ouvi-o sussurrar antes que eu pudesse emitir um simples muxoxo:

– Tem concessionária financiando sem juros em 60 meses, Beto! 60 meses! Vai colapsar o placômetro!


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Comentários

4 respostas para “República do Compass”.

  1. kkkk. Vc tem razão (apesar de ninguém ter razao) . Só que agora temos padrões novos. São os elétricos. Brasília inventou taxa zero para elétricos. Então temos novos degraus hierárquicos. Tornando as ondas de afastamento com mais “steps”. Tem os Dolphins, que geralmente são Uber Black – deixam pessoas perto mas vão embora; tem os Kings, que podem ser Black tb, mas também podem ostentar motoristas; e as SUVs chinesas, que são inúmeras, com marcas que nem sei listar. E, incrível, os Corollas, que agora são Cross, viraram marca de taxista. Ah, e os Compass,? Sumiram. Devem ter ido todos para Goiânia.

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  2. Comentei lá no blog . Meu pai , Seu Amynthas, era funcionário de alto nível no Banco do Brasil Bastou entrar pra política no gabinete do então 1o ministro Tancredo Neves para passar a ser chamado de DR Amynthas …

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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