Vagueante

Tava no brefo, vagueava tonto por remedo de caminho, por caminho inteiro. Andava por carecer de motivo pro não andar. Andava mundão de Deus e capeta. Reto, serpente, vorteio, sapatinho, arisco e mole. Andava mancheias de sapato, solas e saltos. Sapato frouxo e acochado. Andava calos e frieiras. Pisava terrão pro destino insabido. Vez por vez parava na coxia de boa prosa. E imaculava o silêncio pruns dois ou três muxoxos, e voltava à lida de andar. Bebia pelo traçado o sobio dos passarins e o borbulhar dos pintados. Xeretava o útero das águas que mora no cerrado. A água que esparrama agá doisó pelo caminhão de mundo quié seu país. Só encetava passo qui fosse passo na morada alta e reta, simulacro de degrau do Brasil. A oeste. Não pabulava.

Andou pelo caramanchão do cansaço, mas num esmoreceu. O que lhe empurrava ou puxava era o carrão de boi da certeza. Num se sabe por causa di quê. Só ele sabia. Tava arriscado ser feliz por dar de fronte com o menino que imantava seu carrão de boi escondido na sola de seus sapatos, a tocar seu viajar. Era seco e água. Era cerrado. Por conta do que num foi contado, chega dia que sossegou seu vaguear. E se recolheu na casa de porta e janela que sentava chão em coisa de punhado de metros dum rio de caudal instável. No seu quarto uma greta simulava luz. Ali ficou.

Mês passou.

Estanha sensação da perna cheia de feridas a impedi-lo de andar o andar das gentes todas. A baba o incomodava pelo escorrer intermitente, de jeito a que não fosse previsível, o que lhe dava asco e susto. Andava, mode tentasse o invés, um andar de não ser igual. As chagas surgiram do nada, de duas ou três noites indormidas, ali, assistindo à irrupção de pequenos vesúvios, lagos purulentos no continente de seus membros inferiores. Coisa do bicho. Doutor nenhum deu conta de entender o sucedido, descontido em qualquer literatura de aprender em faculdade. Os gatos, sim, tinha gatos, lambiam-lhe agora a baba e isso o enredava por não ter estímulo de evitá-lo. Os gatos já não caçavam os ratos que povoavam a despensa de fezes, que convidavam bactérias, que tinham fome, que se moviam, que se juntavam às feridas, que babavam por expeli-las. Vez por vez o doutor voltava e lhe jogava água oxigenada nas pernas, e as pernas espumavam. O doutor ia embora, e já não mais nada lhe dizia. Só sacudia lateralmente a cabeça e puxava a porta entreaberta com o pé. Lá fora desvencilhava-se do sapato. O doutor conta de juízo tinha; ele, não.

Visita de doutor por medida de paquete. Riscava morrer por conta de desassistimento. E isso lhe trazia paz estranha, benhistar de modorra. Pela greta agora deformada em plasma por visões de cores e insaberes ouvia o ranger de dentes de crianças. Como o sabia crianças? Não o sabia, só tinha certeza. O doutor, sapatos lhe calçava, e isso o fazia caminhar pela imaginação soprada pelo vento cabreiro da greta. As crianças se faziam crianças vez e mais. Num acordamento inassuntado pediu ao doutor numa vez que o doutor puxava com o pé a porta entreaberta que lhe jogasse por cima das feridas as páginas de um livro com visadas do Brasil do meio. Babou por dias as folhas nas feridas e as jogou por milagre certeiro no risco da greta. As crianças que eram muitas restaram uma. As folhas cambiaram sapatos. E o menino calçou um deles, e outros guardou. E o menino se embrenhou na mata que agora circundava a casa.

Nada mais se ouviu sobre o menino.


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Comentários

Uma resposta a “Vagueante”

  1. Que show de texto! Essa sua facilidade pra brincar com as palavras me encanta muito!!🥹😍👏👏👏❤️

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