Pode parecer sadismo ou incivilidade, mas quando me estresso ao ponto transbordável com os cidadãos autonomeados especiais, aqueles que trafegam pelo acostamento, fazem fila tripla em retornos e portas de colégios, furam fila, excluem o outro em benefício de seus interesses pessoais, e por aí vão em sua tosquice, corro para rever “O Poderoso Chefão”. Embora obra prima, nem sempre preciso lhe assistir inteiro para dar conta de minha catarse. Priorizo as cenas em que aquele produtor de cinema pernóstico acorda com a cabeça do cavalo em sua cama; aquela do policial corrupto tomando duas balas no pescoço numa tratoria; e, por fim, a da surra que o macho estúpido e abusador do genro do Don Corleone toma do Sonny.
E durmo aliviado.
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Impossível estar na fila de um posto do INSS e não pensar na morte.
A morte, no entanto, não me assusta; o que me assusta é não ter Fluminense seja lá pra onde a morte me levar.
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A cambada senta em lugar de idoso no transporte coletivo, estaciona em vaga de deficiente, joga lixo na rua, fura fila, compra guarda, fala alto em lugares públicos, buzina freneticamente, fecha o trânsito nos cruzamentos, trafega pelo acostamento, fura sinal, e a gente ainda ingenuamente espera que ela escolha bem seus deputados.
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Viajar pela CVC e quetais é feito comer em restaurante a quilo: você gasta menos, entra em fila, divide a mesa com quem não conhece, e no fim nem se lembra do que comeu.
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Quando o verão vai se achegando em Cabo Frio, sempre me revisita a obsessão de entender a estranha força que empurra alguém a pegar nove horas de engarrafamento, três horas de fila no supermercado, encher um isopor de cerveja e sanduíche, carregar por 300 metros esse isopor nas costas, para, com medo de água gelada, ir à praia somente para se refestelar na areia e depois demorar meia hora pra tirar a areia do saco e do rabo.
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Nas abjetas carreatas da pandemia, a tripa de carrão bacana, enfileirada por método, enfiado de gente com jeitão de vida pródiga e enfatiotado de uniforme amarelo urrando gritos clichês dos liberais modernos, aquela tripa dos anos bolsonaristas nos ensinava mais sobre o Brasil do que a realidade trágica dos que na outra ponta se amontoam em caos em suas colmeias de marimbondo miúdo. Clamavam pelo fim do isolamento de dentro do ambiente asséptico de suas interações sociais, de igual jeito clamariam pouco tempo depois por intervenção militar. Desejavam, in pectore, empurrar os futuros portadores de emprego perdido para o comboio superlotado dos transportes coletivos, para que pudessem voltar a seus SUVs que os aborrece manter parados.
Não se via pobre em carreata em defesa de seus empregos que seriam perdidos ou aviltados logo ali na frente, quando os pobres sobreviventes à pandemia ainda teriam pequena chance de tocar seus dias. Algo anímico os afastava da mímica abjeta das manifestações dos anti-isolamento: a vida. A vida resume o único patrimônio das gentes apartadas de seus direitos básicos. Não lutam para voltar a consumir, lutam para voltar íntegros às suas vidas em que apenas se manter vivo e feliz a seu jeito soa estranhamente absurdo pra nós. A vida os prende à vida. Privados de tudo, se apegam à vida com a força que ainda lhes resta no tocar um penoso cotidiano. É a vida que eles prezam, a vida em essência, inexplicável. Morre-se de tudo nas periferias: fome, tuberculose, dengue, tiroteio, cardiopatias, falta de assistência básica em saúde, etc. Mas é raro suicídio, uma espécie de poder simbólico que lhes fogem das mãos por ser a vida ser o bem que realmente mantêm sob relativo controle. Bem menos raro o suicídio entre os que perdem apenas sua capacidade de consumo e ostentação sórdida. Os despossuídos amam os filhos de um jeito que nos comove, amam os seus em volta. Jamais entregariam um idoso de sua casa mais humilde em troca de um emprego que amanhã podem lhe tomar de sopetão. Assustam por um amor que muitos deixaram escorrer por suas frestas de fome de poder e consumo.
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O espírito de porco é o real elo perdido da humanidade. O pobre de espírito nem elo é.
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Para dormir, já dependi de paz de espírito, Rivotril, silêncio, Lexotan, escuro, álcool e saldo bancário.
Hoje, dependo do acaso.
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Meu velho pai, grande figura, sempre lembrado carinhosamente por mim em meus cada vez mais frequentes tours de memória, antes de sair pra qualquer compromisso, bebia uma dose de uísque. Dizia ele que era “pra pegar pressão”, uma espécie de Viagra do espírito.
Aquela dose, para quem conhecia melhor o velho Herberto, era, na verdade, uma proteção profilática para o convívio social, rito que se aproxima da tortura à medida que vamos contando anos em grosa.
Eu, cada vez mais refém feliz da reclusão, tenho sempre o impulso de homenagear meu pai bebendo uma dose “pra pegar pressão” sempre que saio de casa.
Não resolve, mas mostra respeito.

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