Para um pai de sete, entender a unicidade de cada um deles é exercício estimulante. Filhos buscam o sol com seus caminhos próprios, e nenhum caminho é a reprodução do caminho dos pais ou dos irmãos e irmãs. Se for assim, é simulacro de caminho, é caminho de passada curta.
Filhos são amigos que estendem as mãos todos os dias, ainda que com elas recolhidas. E os recebemos estendendo a mão de volta, nunca recolhidas.
E cada um que seja cada um.
Livre o suficiente para ser próximo de nós.
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A música que me deu mais sentido em ser pai foi “Meninos”, do Juraildes da Cruz, um desses bardos brasileiros que se perdem na poeira do mainstream e que agora foi apresentado ao Brasil pelo Paulo Vieira, na deliciosa “Pablo & Luisão. A gravação do Xangai me transbordou de emoção. Nunca é bastante lutar pra ter filhos sempre ao lado. Até hoje choro um Atlântico de não me conter quando ouço.
Tive a emoção de ouvir o Xangai cantar tendo à minha mesa a linda filha dele. É a mais linda celebração da paternidade.
“Quero acordar com os passarinhos, cantar uma canção com o sabiá”.
Viver a intensidade única de ter nas mãos uma vida vinda de você. Clamando por você. Nada mais pesa nem desconforta.
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O maior patrimônio de ser pai é ser diferente dos filhos. É vê-los fugidios, inarbodáveis, incompreensíveis, anti-retratos de nossas expectativas. Se os filhos não forem você, parabéns. São filhos, não são você. Espelhos são os piores filhos, imagens óticas, mímicas de nós mesmos. Me realizo muito ao ver meus filhos me desmentirem em minhas certezas.
Ainda assim insisto, por vezo, vez por vez orientá-los, antes que me quede tranquilo ao farol de suas virtudes.
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Meu querido filho emprestado, Bernardo Montenegro, repete sempre uma frase que o comoveu, após ser pai. Frase que ele não sabe onde leu, mas guardou como farol: “Filho é como ter um coração fora do corpo”.
Bernardo, irmão-filho: filhos são corações fora do corpo e almas que pretendemos desesperadamente guardar como nossas, mas fora de nosso controle. Nossos corações se expressam pelo sentimento; nossas almas pelo desconhecido.
É guerra de conflitos diários que nos leva por mares calmos e crespos. Mas nos mantêm vivos e acesos para agarrar a felicidade quando ela menos espera. Felicidade parece fugaz, e é, mas muito menos para quem a merece. E merecer ser pai resume obra delicada.
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Quem quiser entender o real sentido de ter filhos, de dividir com eles o impossível, o imaginável e o inimaginável, o que a mão não toca, o que o dinheiro não compra, o que a rudeza não entende, o que o racional não decifra; quem quiser brincar de viver com os filhos, rolar no chão, colher fruta no pé, contar estrelas e inventar histórias, tomar banho de rio e contar pedrinhas, cantar cantigas e remedar barulho de bicho e gente, fingir que tem coisa descoisada no pé da porta, se esconder embaixo do lençol e terçar travesseiro; de trolar com chulé, que tem gente morando no alto da colina, pertinho do céu; que se pode voar sem sair do chão; que é preciso ser criança pra entender o mundo pelos olhos deles; quem quiser tudo isso, guarde inquieta em si a criança renovada diariamente pelo amor aos filhos.
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Ouvi há pouco a delícia de “Drão”, do Gil. Drão não é uma daquelas aliterações impessoais do Gil. Drão é de carne e osso: a Sandra, Sandrão, que virou Sandrinha com o Netinho em “Sandra”(Maria Aparecida porque apareceu na vida…), outra delícia do Gil.
Em Drão, “nossos filhos são todos sãos”. Meus filhos são sãos, maravilhosamente sãos, provocantemente sãos, deliciosamente grãos do sumo do melhor de mim, o melting pot de minhas parcas qualidades.
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Filhos são o contraponto afetivo de minha tendência orgânica a achar as coisas da vida uma chatice. Poucas pessoas me fazem aceitar a felicidade como algo tangível. Filhos fazem. Amigos também.
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Sou capaz de sentir a mesma saudade de filhos que estão ao meu lado e dos que estão distantes.
Saudade não se mede por esbarro.
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Em sete datas do ano renasço pelo passança de idade de um dos meus filhos.
Pailander.
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Hoje, uma mensagem carinhosa de um filho me realimentou com a força de um amor que é muito maior que qualquer distância. Me trouxe um frescor de dez primaveras, um calor de madrugada de verão de outono, tépido e acalentador.

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