Insóbrios da América

Insóbrios, ícones da cultura dos EUA fincaram raiz de cerrado no planeta.

Defendem os botânicos e os espíritos diletantes que as árvores do cerrado nascem de cabeça pra baixo. Raiz por conta de dobro do que os olhos assuntam, a procurar água onde água por meio ano rareia. O que se vê é de miúdo junto do que não se vê. Assim se deu com a melhor literatura dos EUA, a da geração perdida, em que pontificaram figuras do calibre de Gertrude Stein, Hemingway, Edmund Wilson, John dos Passos, Scott Fitzgerald. Gente que pisou no jardim da insobriedade mantendo raízes ainda maiores que a copa de seu estupendo talento. Na música, Miles Davis, Charlie Parker, Jimi Hendrix, James Brown, Kurt Cobain, Marvin Gaye, Cole Porter, Gershwin, Coltrane, Ottis Redding, Lou Reed, Sinatra, e tantos por conta de escapar de contagem de dedos das mãos. No cinema, inúmeros atores e cineastas fizeram o creme da indústria na borda do excesso. O mesmo nas artes cênicas. Suas universidades, embaladas por orçamentos impensáveis ao mundo normal das gentes, se, num canto, produziram dezenas de nerds que trouxeram valiosas contribuições à Ciência, empilhando prêmios Nobel e liderando globalmente o setor de tecnologia da informação, no outro canto, se prestam ao rito de passagem das fraternidades regadas a drogas pesadas. Um irônico contraponto à Restauração Evangélica. Restauração que empanturrou as igrejas de crentes que viam na fé a contracena possível da opressão, e empurrou, por inaceitação, um tantão de gente de verniz frágil e singular pro radicalismo reverso, um mundão sem volta. A caretice endêmica cutucou com vara curta a onça da insobriedade. Deu ruim.

Há insobriedades e insobriedades.

Não pelejo por savanas de especulação antropológica. Me falta coturno pro que se quer provar por caminho de aparato acadêmico. Sou hóspede renitente do laicato. Falo sobre o que vejo, ouço e leio em mim intercedem. Pode soar exótico, mas leigos como os cartéis hablantes intuíram faz tempo: de tanto igual ao petróleo, parte dos cânones do imperialismo supremacista, excludente, desemboca na fuga da realidade pelo caminho da insobriedade. Não a insobriedade inspiradora, mas a insobriedade degradante. O cinema dos EUA deitou influência planetária, abrindo caminho para os carrões da Ford e GM, para os softwares da Apple e Microsoft, para a tecnologia digital latu sensu, para as indústrias químicas, para as teses dos peagadês de Harvard, MIT e Stanford. Entretanto, o que se viu com o tempo foi a construção de uma nação dominante pelos desdobramentos de suas vulnerabilidades. Vulnerabilidade denunciada cruamente por seu próprio cinema. Para cada Vietnã de reafirmação de seu poder, muitas toneladas de pó prensado e containers de fentanil. A arte nasce da resposta, não importa a pergunta. Muito da pujante arte dos ianques nasceu da opressão racial ou da resposta à agenda evangélica de costumes. Os outros, a quem faltem engenho e arte, também não lhes coube se livrar do excesso pelo desalento instilado por um país que os abandona, frágil em proteções sociais. Ainda que seus cinco milhões mais ricos bastem para torná-la a maior potência econômica do mundo. Insuficiente, no entanto, para deixar de estampar o maior índice de consumo de drogas do planeta. Não são poucos desses desalentados que imergem nas drogas como muleta para a metabolização de uma certa boçalidade civilizatória, puxada por um racismo hidrófobo, uma xenofobia repugnante, aporofobia e crimes de ódio e fúria. Chico e Francisco.

Contam milhões seus degredados sociais, gente que zanza feito zumbi pelas ruas ou que lota os presídios com a maior população carcerária do planeta, formada principalmente por pretos e latinos. Isso num país construído pela confluência das diferenças culturais dos imigrantes que hoje persegue. Impossível assistir, sem correr para o vomitório mais próximo, a Immigration Nation, no Netflix. O documentário registra de modo rascante a absurda falta de empatia – em alguns casos, sadismo e prazer, com piadas xenófobas e racistas – dos policiais do departamento de imigração dos EUA, o repulsivo ICE, ao perseguir famílias de imigrantes, invadindo suas casas para prendê-los em condições precárias. Mas não basta. Depois de afastá-los da família, são deportados discricionariamente. Muitos desses imigrantes estão nos EUA há mais de 20 anos, com filhos lá nascidos, famílias constituídas, trabalhando e vivendo honestamente. Nas fronteiras, pior, com crianças separadas dos pais e enfiadas em jaulas desumanas. Barbárie.

A contradição do “País dos livres” se expressa desafiadora pelo conservadorismo inoxidável dos mandarins de uma economia portentosa em cumplicidade impotente com os chapados de Wall Street, ou, perfidamente, com os que são despejados nas ruas de suas principais cidades. Uma fábrica de bolsões de radicalismo defensivo. Trilhões de dólares de dominação subjugados pela cota de prazer instantâneo de parte de seus operadores ou vítimas. Sua forte classe média em tudo vê ameaça, reforçando preconceitos. Um temor que se torna combustível de grupos supremacistas, religiosos ou raciais. Contingentes assustadores de degredados do estado morrem pelas ruas encharcados de drogas sintéticas; outros, por tiroteios nas igrejas, shoppings e escolas, território em que se ensaia a cultura de humilhar os mais fracos, fatalmente desembocando em tragédia; outros mais, sequer julgados, enjaulados nos presídios privados, em sua maioria pretos e latinos. A tradição da primeira emenda forjou uma nação em que os preconceitos se adubaram pelo direito de oprimir. O país, agora novamente sob Trump, acirrou os ódios confirmando a tese de que basta arranhar a pele de certos conservadores para que o fascista que se escamoteia neles irrompa com força. Hoje, os de lá corroem diariamente uma democracia que o mundo por tanto tempo tomou de exemplo, embora com leis segregatórias até o último terço do século 20. Ao censurar e perseguir quem hoje estressa o direito de livre expressão consagrado no álibi recorrente da primeira emenda, combatendo um governo que defende a liberdade ilimitada de expressão, esse governo já a está limitando. A temporada de caça liderada pelo Trump está apenas começando.

A humanidade deve aos EUA parte do sumo de sua produção nos campos da arte e ciência. Assentado em um território rico em matérias-primas essenciais, o país esculpiu uma economia pujante, resultado de uma vigorosa agricultura e de uma indústria portentosa, sedenta de combustíveis fósseis. Sua consolidação como maior potência mundial no pós-guerra os estimulou a assumir messianicamente o papel de guardião do capitalismo e da democracia no mundo, papel facilitado pela contraposição do comunismo autocrático da URSS em tempos de guerra fria. Não por acaso, invadiram dezenas de países soberanos, retomando uma tradição que se impôs historicamente desde a invasão do México, com fins de anexação de territórios, em 1846. Até hoje os EUA são o único país que recorreu a uma bomba atômica no curso de uma guerra. Tudo por lá se dá de forma superlativa. Nos tempos pré-internet, o material de campanha das eleições americanas mexiam com o mercado mundial de celulose, e qualquer tímido movimento de sua economia produzia efeitos sobre todos os países. Nesse itinerário, não se constrangeram em dizimar florestas e alguns de seus povos originários, enquanto provocavam cada vez mais danos ambientais desastrosos. Sua hipertrofia se fez bônus e castigo. A classe média, rica e capaz de sustentar a força dessa economia, foi se fechando defensivamente, o que a levou a validar leis segregadoras, ao mesmo tempo em que exigia menos investimento do estado em proteção social aos mais necessitados. Foi castigo, porque, num mundo global, a moeda forte e os altos salários dos EUA tornaram os preços de seus produtos cada vez menos competitivos, passando a gerar mais empregos fora do que em seu território. Como reação, a sobriedade de um certo academicismo verborrágico conservador deitou raízes. Mais que isso, se impôs verdade por onde vicejam os que não o aceitam ou que não tenham acesso a seus benefícios. Embora a sustentem. E assim vai o porta-aviões nuclear de alcance impensável servindo de pouso para as “viagens” dos que transformam um naco substancial do império em um depósito de indigentes químicos. Insobriedades e insobriedades.

Edmund Wilson, um dos próceres da dialética dos insóbrios, em sua imperdível biografia, admitiu que ao perder o pai, viveu a sensação de que nada mais o separava da morte. A morte e a orfandade andam juntas hoje no ambiente perturbador de uma mente que traduz a pior América em sua luta inglória contra a aceitação pérfida de dogmas recosturados por razões exauridas. Ao se tomar dono de um mundo sob nova ordem, Trump aprofunda a divisão entre os americanos e se inflige o castigo de suas mais berrantes fragilidades.


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Comentários

2 respostas para “Insóbrios da América”.

  1. Texto atual, pungente e necessário!! Uma pérola!!👏👏👏👏🤩🤩🤩

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Rodrigo Capdeville
    Rodrigo Capdeville

    bela tradução desses nossos tempos feios.

    Curtido por 1 pessoa

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