Sapatadas, Franca e Novo Hamburgo

Estes dias me lembram dias em que especulei um novo código penal eivado de brasilidade para os crimes de homens públicos. Cheguei ao cabo por conta de procurar canto onde morar em Brasília, lá por 2007. Uma coisa puxou outra e outra ia sendo puxada pela uma.

A duzentas léguas de distância do cartório onde lavramos escritura definitiva, pondo a cereja da quitação no bolo de nossa âncora classemediana, que é a casa própria, caímos – eu e os meus – no serpentário do mercado de aluguéis. E não caímos em lugar de demanda pouca, não. Demos, trazendo no cocho as apreensões naturais dos que se mudam de seus lugares, com os focinhos num dos mais selvagens mercados imobiliários sob as Guianas: Brasília.

Com o carvão soprado pela brisa fresca do auxílio-moradia tão ao feitio dos parlamentares, magistrados e promotores que tomaram a cena deste quinhão de cerrado; pelos dólares e euros derramados às carradas pelo corpo diplomático; pela bufunfa ilegal escamoteada pelos lobistas em sua lida de só pagar com nota em cima de nota; o aluguel em Brasília transita confortavelmente por cifras que ruborizam qualquer brasileiro com juízo pra temperar tapioca. É mercado cevado a pão-de-ló de dinheiro em derrama. Qualquer buraquim de três dezenas de metragem voa mole em desatrevimento pra casa de sete pilas. Família alentada, com conta de seis almas, encontrar repouso em qualquer rincão do quadrilátero de Cruls é tarefa pra mais de Hércules. Por via desse tranco, eu e os meus vivemos a cada doze meses a tensão da véspera do telefonema fatal: o senhorio polidamente dando conta de que o aluguel defasou, que tem gente na fila pra morar no onde eu e os meus nos assentamos.

Foi o que se deu num mês daqueles anos. E toca de sair a esvaziar tanque pelas distâncias amazônicas de Brasília, a empreender tarefa ingrata: encontrar abrigo em que caibam simultaneamente nossa família e nosso orçamento. Tem uma amiga que voltimeia me lembra que nosso problema não é dinheiro de menos, é família demais. Sou antigo. Mas, forjado no hábito, arrumei morada de jeito, com o que o jeito custa.

Uns desocupados que cuidam de medir pela fanfarronice pseudocientífica o que o simbólico mede pela trena da sensibilidade afirmam que mudar de onde se mora é a terceira intensidade de estresse. Só cede vez pra passamento de parente aconchegado e, por depois, desemprego, que é jeito de matar deixando viver. Mudança é casco grosso, é trela de muitão. Mexer no que se tem tendo pro usar e no que se tem tendo pro ter é tarefa de repensamento. Papel não é coisa, é bicho, se reproduz por matemática de roedor. Cada coisa descoisada, quando remexida, renasce com a volúpia de um temporal relembrante. Mas é filosofia de outro prumo, pro mais de um juntar de palavra despretensioso como o que vou urdindo aqui neste cantim. Vou tratar por hora do que me fez pensativo pelo tremelar do que uso pro separar o pé do chão.

Vou assuntar sapato.

Sapato é bicho peçonhento. A gente vai juntando e não se dá conta de que tá cumulando lixo denunciatório. Tênis aerados que nos transformam por promessas incumpríveis em robsons caetanos; dóquis saiders que remedam paspatur de bermudas libertárias; mocassins estilosos, que nos empurram ladeira social acima em nossa lida de parecer o que não somos; havaianas macaqueadas; botas impermeáveis permeáveis a vaidades da hora; e o capeta a quatro. Fui fuxicando o sapateiro que só perscruto a cada mudança e descobrindo a dimensão da inutilidade de tanta guarda. Poderia recorrer à massa de clichês que fermenta a propensão politicamente correta, e me culpar por juntar tantão de coisa num mundo em que juntar coisa é ofensa a tantos que sequer coisa pro ter não têm, quando em mais juntar. Cuidei de outro rumo. Me veio de chofre a imagem do iraquiano doidão que pespegou sapato em par nos cornos do Bush.

Por primeiro, garrei de dar conta de em quem jogaria os sapatos que não mais me servem nem pela remissão dos motivos que me fizeram tê-los. Em sendo o Brasil o palco da sapatada, há que se economizar no arroubo do gesto, guardando pé esquerdo e direito prum lado e pro outro, que é por justiça. Se vou sapatar um desinfeliz, é de grado estocar pra outro. E assim pro que vier. Se brasileiro vai se dedicar à obra de atiração de sapato,  tem que mirar no cravo e poupar pra ferradura.

Por de sapatada tratar, não é que me veio à cachola uma fórmula de apenar o crime dos barões e baronesas da vida pública no Brasil pela hierarquia da sapatada? É coisa simples, com grande impacto em todo o nosso sistema penal e carcerário. Em vez da infrutífera reclusão aos costumes, estocando gente em penitenciárias que cevam e reproduzem o crime, poderíamos resumir as sanções aos criminosos da galáxia política em um único ato: o arremesso de sapatos em praça pública. Na imitação bíblica do sórdido apedrejamento das prostitutas, brutal injustiça, por discriminação e por desumano. 

Se é pra punir, tem que bater sem olhar função. Em Chico e Francisco. Pro fazer distinção, dividi o meu código especulativo em quatro categorias. Aos provedores de rachadinhas e de sinecuras públicas a cunhados e genros, a Pena Havaiana Track Go(as mais pesadas), em que ficariam restritas às proverbiais sandálias os bólidos cerimoniais. Num segundo grau, a Pena Olímpica, pra parlamentar safado que vota pra defender interesse corporativo em detrimento de coisa que o povo espera. Nestes, se atirariam tênis com taxas de amortecimento controladas pelo Tribunal do Calçado: menores amortecimentos quanto mais safado fosse o cabra. Pro recalcitrante na tarefa de querer privilégio no exercício do mandato, insistir na rachadinha e enrolado com emenda suspeita, a Pena Timberland. Pena em que se usariam dóquis e tópis saiders de solado variante. Por fim, pros crimes hediondos, como atentar contra a democracia, a Pena Czarina, com permissão de lançamento de escarpins de salto 15 e plataforma.

Não tratei de focinhar eficácia na adoção de tal Código Penal, mas pressenti vantagem no sua assunção: vai esvaziar presídio e gerar emprego em Franca e Novo Hamburgo.

Não é sansa de pouco, não.


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Comentários

Uma resposta para “Sapatadas, Franca e Novo Hamburgo”.

  1. Hahahaha… que texto delicioso!! Sensacional, Beto!! Amei!!😍😍

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