A gente vai gentando por juntado de coisa. Pra mais que apenas informação genética, o intrincado biológico que nos forma na progressão geométrica de células até a estridência do parto. Aliás, mesmo que ainda no abrigo seguro do ventre materno, não estamos imunes a traumas que nos perseguirão por toda a vida pós-uterina. Somos resultado de um combo indecifrável de gens e influências, vítimas ou beneficiários das circunstâncias de que tratou Ortega y Gasset. Há as mais facilmente reconhecíveis, pois se dão no território da família. E há as que muitas vezes nos escapam, por parecerem superficiais a olhos desatentos. Somos, por conta de muito, o resultado da interação das influências de várias mães que não são nossas.
Foi Dona Juraci, sertaneja de Bom Jesus do Rio de Contas, lembrando Gil, quem tratou de me entregar régua e compasso. Mãe amorosa e educadora. Hoje entendo sua luta em domar uma criança hiperativa, aprontadora. Em sua expressão usual, com o “bicho carpinteiro no corpo”. Minha referência pétrea de empatia e simplicidade, espargia seu afeto por onde sua presença se desse. Muitos de meus amigos de infância puderam experimentar sua generosidade. Era terna, porém rigorosa, o que muitas vezes me levou a experimentar a ameaça de suas Havaianas de correias e solados em tons pasteis, prenúncio de raro corretivo. Me levava para onde fosse, ainda que tivesse com quem me deixar. Fazia com ela a feira, o Gaio Marti da Senador Vergueiro, a ida às casas das amigas do prédio, e, para sua exultação, a visita anual à Barbosa Freitas, quando repunha as coisas da casa. Casa de que amava cuidar. Fez da casa seu reinado. Uma das maiores demonstrações de seu amor era a permissão para que eu levasse em tropa uma dezena de amigos adolescentes a São Pedro da Aldeia. Nos feriados e férias. Um tumulto com que ela lidava de forma amorosamente exemplar. Getulista entusiasmada, se punha sempre ao lado das causas dos mais necessitados. Guardava bom motivo pra isso. Perdeu o pai muito cedo. Ao lado de Tio Jurandir e Vó Delaide, enfrentou a aspereza de criar os outros cinco irmãos. Tempos muito duros, em que experimentou a dificuldade sem a ela se quedar. Quando, já casada com meu pai, veio para o Rio um ano depois da vinda do velho, jamais deixou de, ao lado de cuidar de todos nós, trabalhar para complementar a renda de uma família de classe média padrão daqueles tempos. Costurava para as amigas, minhas roupas vinham de sua briosa Singer. Colaborou por muito tempo, com suas receitas de alquimia rara, para a Nestlé e Refinações de Milho Brasil. Gênio da cozinha. Depois de muita insistência do amigo Millôr, de quem sou afilhado, meu pai financiou pelo IAPC um apartamento na Rui Barbosa. Nada dos palacetes de lá, um simples apartamento no Edifício Esperança, o menos ruibarbosável de todos os prédios da imponente avenida. No Esperança, minha mãe fez algumas amizades sólidas: Dona Terezinha – a gaúcha de presença e voz estridentes que foi duplamente vizinha da gente ao comprar um sítio em São Pedro da Aldeia; Dona Mary, um exemplo de candura e bondade, mãe da Diane, que acabou se casando com meu irmão Heitor, trazendo por efeito Dona Mary para o ambiente de nossa família, compartilhando com minha mãe netos queridos; e Dona Wilma, sobre quem ainda falarei no correr deste texto. Ainda no continente familiar, três tias queridas se fizeram particularmente presentes em minha vida: Tereza, Joselita e Maria. A temporada carioca anual de Tia Tereza inundava de alegria meu coração de criança. De jeito igual, as visitas com minha mãe a uma loja de departamentos onde trabalhava Tia Maria, antes de se casar com Tio Bibiu. De Tia Joselita guardo em especial escaninho de meu coração os dias em que me cerquei de seu afeto na memorável Ilha do Governador. A elas, em meus primeiros anos, se somou minha irmã Heloísa, mãe auxiliar de minha infância.
Outras mães, por serem mães de amigos que fiz e mantenho, por quem tenho amor fraterno e por quem guardo reconhecimento por tornar vivível a minha vida, se juntaram à Dona Juraci na empreitada de me fazer quem sou. Mães que me dedicaram carinho e compreensão por mais que bastante, que me moldaram com seus exemplos, fundamentais para que eu ainda guarde algumas qualidades embaralhadas com os erros que cometi.
Dona Wilma
Três andares e dois meses e meio me separavam do Zé Luiz, caçula de Dona Wilma. Zé é meu compadre, amigo de berço, amizade que cultuamos até hoje, e que se fortaleceu ainda mais com a presença forte e amorosa de sua Marilza. Esculpimos, pelo caminho de vidas entrelaçadas, uma relação férrea, imune às escaramuças do destino e aos desatinos dos canalhas. Ir ao nono andar era uma das alegrias de minha infância e adolescência. Lá reinava solene Dona Wilma. O apartamento em dobro abrigava espaços generosos. Na ala leste, o quarto do Zé, nosso canto de mundo, onde ouvíamos os primeiros discos dos Beatles e do Tim Maia, duas de nossas querências. Tocávamos violão e guitarra, conversávamos sobre futebol – eu e ele, torcedores apaixonados do Fluminense e Botafogo, respectivamente. Especulávamos sobre um futuro inescrutável. O resto da casa era inteiro de Dona Wilma. O amplo salão, em que numa de suas extensões jogávamos botão no chão de mármore; uma sala de jantar, lugar preferencial da matriarca; um vestíbulo a que se dava acesso por uma fechadura no elevador; um saguão; e uma sala de tevê. Havia ainda uma sala oposta, em que dancei pela primeira vez com Gina, antes de começar a namorá-la nessa mesma festa de Reveillon. Gina foi o grande amor de minha adolescência e de boa parte de minha vida. Quando casados, companheira amorosa e firme, tivemos três filhos que nunca deixei de amar, a quem estendo em rito penitencial um penhor de contrição e desejo de perdão por tê-los em algum momento magoado. Da Mariana o Zé é padrinho. Naquele tempo, impossível pisar o nono andar e deixar de encontrar Dona Wilma cercada de amigos. Ela adorava os amigos e a companhia dos amigos. Dona de uma sinceridade cortante, que capturava o respeito e admiração de todos e todas, guardava invariavelmente um gesto de carinho aos amigos do Zé. Seu Xodó era o Laurinho, mas sempre me senti tocado por seu afeto, por seu amor. Com o tempo, minha mãe e Dona Wilma ficaram amigas, o que me agradava e contribuía para que tudo fluísse naturalmente. Quando era noite no nono andar, nos reuníamos na sala de tevê. Sentado no chão, com a proverbial companhia de um saco de laranjas de que retirava uma a uma a que seria meticulosamente descascada e consumida por ele e pelos do entorno, Seu Talarico, o pai do Zé, mantinha à mão o controle remoto. O controle era com fio, e o estrondo de mudar o canal pelo avançar um a um do seletor conferia ao rito um nível de expectativa que nos excitava. Às quartas, ou quintas, tinha o Globo de Ouro. Uma noite especial para Dona Wilma. Fã entusiasmada do Wanderley Cardoso, a ordem de silêncio era rigorosamente cumprida quando o jovem ídolo aparecia para cantar um de seus sucessos: Doce de Coco, Bom Rapaz ou, a preferida dela, Abraça-me Forte. Daquela sala, muitas vezes éramos maravilhosamente surpreendidos pela convocação de Seu Talarico: “Vamos todos pra Sorrento!”. Melhor pizza do Rio à época, a Sorrento era o Portal do Paraíso para a criança que fora dessa circunstância dificilmente poderia transpô-lo. Inútil empenhar-se em definir a felicidade que sentia. Dona Wilma foi um exemplo de resiliência e firmeza de caráter. Resistiu aos sucessivos assédios dos órgãos de repressão da ditadura militar a seu por ela muito amado marido. Seu Talarico era um dos mais importantes líderes do PTB, com influência sobre muitos sindicatos historicamente combativos. Próximo ao Jango e Brizola, lutou como poucos pela volta da democracia, pagando um duro preço por isso. Não foram poucas vezes em que a soturna Veraneio do DOPS parava na rampa do Esperança antes de levá-lo para as masmorras do regime. Nas eleições de 1982, voltei ao nono andar para me engajar com força na campanha de Seu Talarico a deputado estadual. Tempos de voto vinculado e da volta do velho Engenheiro, apesar da Proconsult. A vida do nono andar passou a viver um novo normal. Eu e o Zé continuamos nos relacionando com frequência, o que me levava a vez por vez rever Dona Wilma, sempre uma alegria. Ela nos deixou antes do que esperávamos, antes do que merecia. Foi reencontrar uma neta querida, alguém a quem se dedicou em vida com a força inelutável de sua personalidade e capacidade de amar. Ao chegar, certamente foi abraçada por quem a esperava como algo natural. Minhas lembranças de infância se confundem com as lembranças de Dona Wilma.
Dona Leila
Lembro de minha euforia quando o Edegar e o Carlos Augusto, no recreio do São Vicente, me confirmaram que o Riva me convidaria para passar as férias de julho de 1968 em Boca do Mato. Amava minhas férias em São Pedro, a companhia de meus amigos de rua, a liberdade que tínhamos naquele canto ainda indescoberto da linda Região do lagos. Lagoa plácida e limpa, praias desertas e uma cidade ainda pequena o suficiente para que nela coubesse todos os sonhos de vida simples que cabem numa cidade do interior, com seus ritos lentos e uma bem-vinda sensação de desopressão. Mas o que os amigos do colégio me contavam sobre Boca do Mato me inflamaram de curiosidade e desejo. Veio o convite, minha vida mudaria. Não foi pouco. A viagem foi excitante como são as viagens de meninos em férias. O casarão da família Corrêa Meyer se assentava sobre um raro platô na topografia inquieta de Cachoeiras de Macacu. Ao descermos a ladeira, já dava pra ouvir o rumor constante do correr das águas do rio Macacu em contraponto ao hipnotizante silêncio da paisagem. Um salão imenso reunia um conjunto clássico de móveis de sítio. A partir dele, se estendia um imenso corredor que abrigava uns bons seis ou sete quartos. No platô abaixo, que poderia ser visto do salão, um campinho de futebol e uma grande piscina. Tudo perfeito, exatamente como imaginava. Em Boca do Mato passei alguns dos mais tocantes dias da minha vida. Tudo conspirava para isso. A cumplicidade de amigos queridos, a rotina excitante das peladas Fluminense x Botafogo, seguidas de mais peladas e piscina. O almoço em grupo, frenético, farto e saboroso, o fim de tarde com muita falação. A noite que começava no galpãozinho ao lado, já em companhia das meninas, e que terminava com todo tipo de aprontação no quarto com cinco beliches. Quando passávamos por lá um tempo sem as meninas, ou ainda no tempo em que eram crianças, a noite começava no Bar do Ivo, com totó, sinuquinha e porres recorrentes. Na madrugada, os meninos invadíamos a despensa em busca de saciar a larica alcoólica, e não era estranho comermos tomate com leite condensado, ou o que viesse. No casarão, Dona Leila desfilava com a proverbial piteira, supervisionando tudo, garantindo ordem mínima num ambiente caótico de mais dez adolescentes em férias. Tudo funcionava. Café da manhã, almoço e jantar. Sempre na hora adequada e sempre deliciosos. Tratava todos com carinho maternal, mas sem deixar de marcar sua autoridade, fundamental para a disciplina que o contexto exigia. O casal Leila e Rivadávia costumava levar amigos para passar os fins de semana. Gente da melhor cepa. Adolescentes não são exatamente chegados à companhia de adultos, mas os adultos de Boca do Mato faziam com que nós tivéssemos prazer especial em conviver com eles. Divertidos, excelentes contadores de histórias, consumiam o VAT 69 protocolar do estoque do Seu Riva enquanto jogavam baralho ou entravam no clima de festa da casa. Eram boas companhias nas rodas de viola, nos estimulavam e nos sacaneavam no tom certo. Dona Leila pontificava naquele ambiente festivo. A mesa de buraco que avançava madrugada adentro era sua felicidade. O perfil alongado pela piteira formava nela uma silhueta única, marcava-a e a definia. Quando a bagunça escalava, era Dona Leila que cuidava de conter a euforia estridente da molecada. Uma chamada, duas chamadas, um esporro bem dado. Jamais descolado de uma entonação carinhosa. Houve vez em que estupidamente aceitei o desafio de ganhar umas fichas de totó no Bar do Ivo caso virasse de um só gole um copão de traçado de cachaça com Cinzano. Cheguei em casa carregado. Dona Leila me fez ficar debaixo do chuveiro, com a roupa que estava, pelo tempo necessário para que eu me recuperasse minimamente. Toda vez que tentei levantar, ouvia sua repreensão: “Volte pro chuveiro até melhorar”. Recebi a repreensão como um afeto pedagógico, dela jamais esqueci. O convívio de Boca do Mato se estendeu ao apartamento dos Corrêa Meyer na Senador Vergueiro, sempre uma festa. Dona Leila foi uma dessas mães que não a minha, alguém com quem aprendi a encontrar ordem no caos, a entender o senso de liberdade supervisionada necessário à formação de adolescentes. Deixei de frequentar com mais assiduidade Boca do Mato e o apartamento do Flamengo pouco depois dos meus 17 anos. Mas não houve uma vez em que voltei ao ambiente seguro de seu território que não me reencontrasse com seu afeto. Mas ela me deu mais: me deu o Riva, um amigo de uma vida, parceiro de boa parte do caminho, com quem hoje tenho o prazer de continuar convivendo. Com a companhia da querida Márcia, com quem compôs um casal que emociona os amigos pelo amor e respeito mútuos, se tornou pai dedicado, amoroso, orgulho de seus filhos e netos. Nossas famílias por muito se entrelaçaram, e, juntos com as famílias de outros amigos, compõem hoje uma única família.
Dona Desirée
Não foram poucas vezes que eu e o Carlos Augusto saímos do São Vicente para, depois de atravessarmos a aleia generosa que serve de bainha a prédios de estilo eclético e art nouveau da General Glicério, chegarmos à Belisário Távora. Não era necessário percorrer a General Glicério inteira para se chegar à Belisário Távora, mas quase sempre a percorríamos, perscrutando lojinhas de guloseimas que se cescondiam ao rés do chão. O apartamento dos Saade Montenegro era suficientemente confortável, típico da classe média dos anos 60. Havia silêncio em seu entorno, silêncio que se tornou cúmplice do tom ameno com que Dona Desirée comandava as funções de mãe educadora e de parceira altiva de Seu Paulo. Quando chegávamos, Carlos Augusto, pelo telefone público do colégio que aprendemos a usar sem ficha, já a havia alertado de que eu iria almoçar com ele. Tudo se punha metodicamente pronto. Calmo e pronto. Pratos e talheres à mesa, comida deliciosa, conversa mansa, carinhosa. Quando se dava a graça de encontrar na mesa as delícias árabes que ela fazia tão bem ou as famosas empadinhas de queijo que lhe serviram de marca, era festa espiritual. Dona Desirée criava os dois filhos e as duas filhas com a serenidade de quem via na tarefa algo natural. Todos se tornaram, por desdobramento de minha cada vez mais estreita amizade com o Carlos Augusto, uma extensão de minha família. Penso que todos os amigos também se sentiam assim. No pouco tempo que lhe sobrava quando os filhos e as filhas estavam no colégio, Dona Desirée eventualmente dava aulas particulares de Francês. E tudo corria com jeito de remanso, com a segurança da matriarca dando chão para que Seu Paulo criasse as bases para, depois, com seus filhos e filhas, dar forma final ao mais importante instituto de pesquisa da América Latina. Eu e Carlos Augusto nos mantivemos próximos desde os 10 anos com que nos conhecemos. Na infância e adolescência: São Pedro, São Vicente, Boca do Mato, Maracanã, Se Perder Acaba, Rui Barbosa, General Glicério, Itatiaia. Depois, namoramos duas amigas-irmãs e nos casamos com elas quase que simultaneamente. Fomos vizinhos de porta quando voltei de uma rápida temporada em Brasília. Vi de perto seus filhos nascerem, acompanhei também de perto seus filhos crescerem. Todos muito queridos por mim. Um deles, o Bernardo, um filho que tomei emprestado do meu irmão querido. Jamais perdemos contato. Católica dedicada, Dona Desirée foi a melhor expressão da reunião das qualidades de São Francisco: ternura e vigor. Caridosa, legou aos filhos sólidos conceitos de caráter e empatia. Foi irrenunciavelmente generosa com tudo e todos, ainda que jamais se furtasse de expressar sua sempre firme opinião. Principalmente, se envolvesse sua família. Aprendi muito com seu exemplo. Aprendendo da melhor forma, guardando por ela um carinho que, mais que reconhecimento, era antes de admiração. Se Seu Paulo foi um empreendedor criativo, respeitado por todos pela obra que construiu, sem Dona Desirée, nada seria possível. Ela entregou ao fundador do hoje dicionarizado Ibope seu maior patrimônio: dois filhos e duas filhas que semearam os melhores sentimentos de quem se cerca deles e delas. E a mim, especialmente, um irmão que se mostrou solidário e amoroso em todas as circunstâncias de minha vida, um capital inestimável de amor fraternal, pessoa única, com uma capacidade seminal de agregar e liderar, disponível sem trégua a ser amigo de seus amigos. Um esteio. Hoje, sua felicidade ao lado da querida Pia resulta de uma vida em que se esmerou na arte de cultivar afetos e admiração. Impraticável não se render à aura da autoridade serena de Dona Desirée, que pude revisitar quando havia passado dos 60 anos. O Bernardo, neto dedicado e amoroso, me contou que Dona Desirée gostaria que eu o acompanhasse no rito do almoço semanal. Fui cuidadoso e idiota: “Bernardo, tenho muita saudade de sua avó, revê-la será ótimo, como sempre. Mas, por favor, estou fazendo uma dieta proteica, com consumo zero de proteína, tenho medo de ela se magoar por eu não aceitar as empadinhas de queijo que, sei, estarão à mesa, apetitosas e irresistíveis. Você fala com ela?”. O pré-almoço transcorreu em clima de deliciosas lembranças, remoendo gostosamente o estoque de histórias tão nossas. Veio o almoço. As empadinhas estavam lá. O Bernardo ensaiou o discurso da minha dieta proteica. Ela me olhou nos olhos e falou calmamente: “Herberto, coma as empadinhas”. Comi oito.
Dona Maria Amélia
Fui no máximo duas vezes ao apartamento da Glória onde morava o Edegard. Embora difusa, guardo uma boa lembrança desses momentos. Tarefa fácil guardar boas lembranças de gente tão especial. Conheci o Edegard no reincidente Colégio São Vicente de Paulo. Jogava um bolão, apesar de seus óculos pesados. Todos gostavam dele, era natural gostar dele. Sabia ouvir, o que era raro entre nós. Jamais deixou de se solidarizar com qualquer amigo que de sua solidariedade precisasse. Éramos e somos tricolores apaixonados, o que nos aproximou. Outras coisas conspiraram para que a amizade entre nós prosperasse frondosamente. Seu pai era amigo de um tio querido, e sua mãe, Maria Amélia, por essas tranças do destino, morou com minha mãe na Bahia, como os baianos se referiam a Salvador. O interessante é que descobrimos isso depois de nossa amizade consolidada. Sempre fomos da mesma turma, do mesmo time no colégio – no Aterro e em Boca do Mato. Passamos no vestibular para a mesma universidade, a UFRJ. Tocávamos violão, éramos e somos beatlemaníacos e guardamos muitas afinidades no nosso repertório de assuntos, o que se dá até hoje. Pouco tempo depois de nos conhecermos, Edegard se mudou para a Honório de Barros, ficando a uma caminhada de minha casa. Ia lá com frequência. Mais até que com a que ele ia à minha casa. Edega foi algumas vezes a São Pedro, o que para mim semelhava festa. Minha mãe gostava de todos os meus amigos de colégio, ficou feliz por saber que ele era filho de Dona Maria Amélia. Sempre que ia ao apartamento da Honório, seja para tocar violão, ouvir discos novos ou estudar, recebia o carinho de Dona Maria Amélia, discreta e amorosa. Às 16h, impreterivelmente, ela nos servia um delicioso suco de maracujá com rosquinhas de coco, e ensaiava uma pequena troca de conversa comigo. No ano do vestibular, fui por lá presença diária, e pude sentir a alegria com que ela nos via estudando para o temido desafio. Seu Edegard, pai do Edega, homem austero, atendia o telefone com uma longa entonação do “o”tônico, por todos nós imitada: “Alooooou”. Era presença constante nos jogos do colégio ou do Se Perder Acaba. Mas em casa era o carinho da Dona Maria Amélia que me trazia um agradável senso familiar. O amor pelos filhos Edegard e Cristina comovia a quem do campo desse amor se aproximasse. Era um exemplo. E recebeu de volta esse amor pela dedicação integral do Edegard a ela em sua idade avançada. De que fui testemunha pelo privilégio de tê-lo até hoje como amigo de todos os dias. Amizade que se tornou ainda mais forte pela chegada da querida amiga e comadre Ana. Lembrar de Dona Maria Amélia é colher na memória, num mesmo turbilhão de sentimentos, todos os momentos de afeto que vivi sob sua presença. Momentos que cuidadosamente observei e guardei.
Outras mães
Do Laurinho, amigo desde seus primeiros dias de Rui Barbosa, irmão que, por seu carinho, me cativa dia sim, dia sim, conheci a avó. Nas poucas vezes em que o visitei no apartamento do Edifício Miguel Couto. Lembro bem dela, de seu amor pelo neto, a quem se dedicou integralmente pelo tempo em que o criou na ausência prematura da mãe. Teve muito sucesso. O Laurinho bom de bola desde as peladas no asfalto da Rui Barbosa se tornou um homem reto, pai amoroso e um amigo querido e respeitado por todos. Uma alegria tê-lo em minha vida, e já por tempo de muito, ao lado da amiga querida Edna.
Prescindível o convívio com mães de amigos para reconhecer nelas a presença na formação dos que tornaram minha vida mais leve, diria mesmo, possível. Conheci muito pouco Dona Ana Maria, mãe do Durcésio. Talvez umas três vezes na fazenda do Vale do Paraíba e umas duas no sítio de Friburgo. Lembro de uma certa eletricidade dela, muito viva, pulsante. Nos 60 anos do Durcésio, uisquinho numa das mãos e cigarrinho na outra, trocamos uma prosa deliciosa. Fiquei tocado pela lembrança dela de um fato muito distante, mas que provava, para minha alegria, que eu era uma presença na vida do amigo querido. Durcésio falava e fala muito dela, e fala com indissimulável orgulho e amor. Para mim já seria o bastante ela nos entregar o Durcésio. Só quem o tem na conta de amigo frequente sabe o que isso representa.
Apesar de passar muitos fins de semana maravilhosos no apartamento de seus avós, no Leme, tenho pouca memória da Dona Elizabeth, mãe do Pedro. Lembro-me difusamente de uma ou outra ida ao sítio em Jacarepaguá. O Pedro é daqueles amigos que nos orgulham na medida de suas conquistas acadêmicas pessoais e de sua têmpera invergável. Um homem íntegro, reto, uma companhia deliciosa, com um raro senso de humor e uma gargalhada de ecoar por cânions de cinema. Passamos parte de nossa vida juntos. Bom demais compartilhar com ele a tricoloridade e o sentimento do mundo.
Dona Creuza, mãe do querido Antonio, não tive a oportunidade de conhecê-la. Mas posso medir suas virtudes pelo filho que foi de mim companheiro de boa parte de meus dias. Ainda é, para minha alegria. Tricolor, sensato, fortaleza de caráter, Antonio junta ao pragmatismo de ver desemocionadamente o que muitas vezes romantizo uma capacidade imanente de ser sensível. Gosta da boa arte, o que o torna interlocutor de finos assuntos. Ele e Eva se tornaram presenças queridas em minha vida. À Dona Creuza, meu reconhecimento pelo sucesso da tarefa de nos entregar o nosso Antonio de todos os dias.
Estive perto de conhecer a mãe do Bonilha numas férias em Mato Grosso que acabaram frustradas. Gostaria de conhecê-la, de aprender com ela, de nela reconhecer o que o Bonilha representa para os que o cercam e partilham com ele o que a vida mostra em seu melhor.
O agregador Edu Almeida chegou há menos tempo em minha vida, mas sua generosidade indica que herdou de sua mãe e das mães que não foram suas o quinhão de bondade e lealdade que ele espalha entre os amigos.
De Dona Daisy, mãe do querido compadre e parceiro Rezende, amigo de meio século, amizade acarinhada pela presença afetuosa da cumádi Hilta, guardo a impressão da rocha de bom senso. Eu a ouvi com mais atenção do que ela provavelmente imaginou. Franca, foi direta comigo quando mais de uma vez precisava ouvir. Mas sempre terna e expansiva. Guardo dela saudade.
Minhas mães que não foram minhas, fontes referenciais da água e terra do que sou, escultura viva e inquieta de suas influências.

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