Desconexas 15

Quando leio nas redes as mais boçais manifestações de toda forma de preconceito e falta de empatia, eu percebo que a verborragia vil do Bolsonaro foi a água do Gremlin, libertou os monstrinhos que viviam em bichinhos simpáticos. Aliás, talvez a solução seja aproveitar que tem um pessoal ainda fechado com o Bolsonaro e trancar a porta.

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Impossível ouvir “Meu Coração”, a linda canção de João Caetano que abria a segunda fase de Pantanal, e não me lembrar de minha mãe.

Ela não apenas adorava a música, mas a música foi nela se transformando no balé insidioso da lembrança embaçada de saudade.

Ouvindo agora.

Que esteja em paz.

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Fiz algumas opções burras em vida. Umas vieram acompanhadas do rito penitencial das opções burras. Outras, me trouxeram inesperados maravilhosos.

Errar é tão da natureza humana quanto respirar. Um não existe sem o outro, e se um dos dois não existir por tempo continuado, inexistem os dois.

Mas o erro guarda um perigo em sua dança insidiosa: tornar-se hábito ou vício.

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Tudo em aeroporto semelha tortura. A voz estridente das chamadas para os vôos; o painel que confirma o atraso; o ar idiota dos que tentam se mostrar ocupados; o uniforme marcial dos comandantes e a imitação barata do Exército da Salvação das aeromoças; os cretinos que decifram tabelas e gráficos em IPads; os não menos cretinos que abrem seus IPads por assim nos avisar de sua posse; adolescentes boçais que deitam ocupando duas poltronas; nenéns chorando decibéis impensáveis; os que querem deixar claro que são preferenciais por status babaca; convescotes de funcionários da Infraero; portadores histéricos de celulares; idiotas como eu que ficam registrando tudo isso nas redes sociais.

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Melhor argumento numa discussão com alguém raivoso: repetir calma e indefinidamente o mantra “não vou discutir com você porque você está com raiva”.

Isso potencializa a raiva do raivoso, que vai escalando até o ponto em que ele se ocupa mais da raiva do que com o argumento.

Discussão ganha.

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Minhas noites indormidas são tenazes de monstros aterrorizantes revirando o lençol que me abrigaria.

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Da minha varanda eu vejo o acordar e dormir de uma Barra da Tijuca entrelaçada de luzes nascentes e poentes que jamais se revelarão aos emergentes que acordam e dormem obcecados por ganhar a Américas com seus carros imensos e flanar por seus shoppings.

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Jogos às 21:30h me entregam um impasse irremediável: quando o Fluminense perde, eu não durmo; quando ganha, eu não quero dormir.

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Para dormir, já dependi de paz de espírito, Rivotril, silêncio, Lexotan, escuro, álcool e saldo bancário.

Hoje, dependo do Mário Bittencourt e Renato.

E permaneço insone.

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O Fluminense é o cordão umbilical que me mantém preso à infância a cada ameaça por onde se manifestam soturnos os tacões da velhice. O Fluminense me põe em todos os meus dias diante do espelho imaginário, onde me vejo, bandeira e radinho à mão, escudo no peito, beijando minha mãe na despedida semanal em que sob sua bênção batia ponto no Maraca a bordo do 434.

Quando pedi à minha mãe que fizesse uma bandeira do Fluminense, eu queria mesmo estar equipado para me juntar à tropa do “seu” Armando, a Young Flu. Minha mãe costurava como poucos. Minhas roupas de garoto eram feitas por ela. Caprichou na bandeira tricolor. Eu ia muito orgulhoso pro Maraca.

O Maracanã era um evangelho de concreto, sem as cores de sua romerobrittização. Os apóstolos que o reescreviam a cada domingo celebravam uma epifania de prazer transcendente sobre o cinza acolhedor.

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O Maracanã é o único caso catalogado de morte por rejuvenescimento.

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Meu claustro voluntário me isola do que lembro renitente, do Maracanã que neste 2025 completa 75 anos, ceifado pela cobiça que o desfigurou de minha melhor memória. Queria abraçá-lo, tomá-lo velhinho em meu ventre confuso de espasmos de epifania.

Do meu catre vejo as lembranças se refundirem no avesso da varanda, enquanto bebo agonizante o mosto de minhas melhores uvas.

O Maracanã mora comigo, mas sei que agora nada vai arrancá-lo do avesso da minha varanda. Mas há tempo que vai e tempo que chega.

Feliz 75, camarada.

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Eu só falo do que não sei. Do que sei eu duvido.

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O suicídio é uma forma de matar alguém de que queremos fugir e errar o tiro, matando quem somos.

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Bula é aquele papel que vem junto com o remédio e traz escrito tudo o que eu, lendo, nunca vou conseguir deixar de ter.

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Milícia não é só policial à paisana extorquindo cidadãos em comunidades desprotegidas. Milícia é um conceito de poder que consagra uma lei própria, negando a lei de todos, forjando um código odioso de opressão e morte. Negar a lei de todos pela imposição da lei de poucos. Quando se rasga a Constituição para a proteção do autocrata, exerce-se sem escrúpulos o conceito de poder da milícia.

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Vírgulas são obstáculos à fluência do pensamento livre. Em excesso, tornam nossas ideias tão fragmentadas quanto palavras longas aos gagos.

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A mediocridade semelha grilhão de papel. Nos aprisiona simbolicamente, mas nos deixa confiantes em que é fácil nos libertarmos dela.

Justamente aí que se revela a eficácia da armadilha.

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O vento é o maior inimigo da mídia impressa.

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Opinião, o último refúgio da ignorância.

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Até entendo – e aceito conformadamente – que depois de uma certa idade seja muito comum falar sozinho. Mas não é isso que me preocupa; o que me preocupa é raramente concordar comigo.

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Na vida pública, o bom filho a casa entorna.

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Bondade fácil: o melhor esconderijo da maldade.

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Morrer é uma forma de viver para sempre na memória dos que nos amavam. Importante saber disso ao ponto de poder lhes dizer em vida: muito obrigado.


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Comentários

Uma resposta para “Desconexas 15”.

  1. Amo suas Desconexas! São simplesmente um deleite!!😍😍👏👏👏❤️

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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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