Uma réstia de luz oprimida pela cortina grossa e vasta me mantém vivo no entardecer ralentado do meu quarto. Vivo no meu quarto. Minha vida, meu quarto. Meu quarto, não importa por onde desatinar ou arrefecer. Por trás da cortina, há luzes iridescentes, pórticos de arco-íris. Não mais o arco-íris que trazia no colo tenro de meus devires. Não caminho mais por chão de gramas aparadas ou pela geometria difusa dos viadutos, ou mesmo pela prepotência das pontes. Caminho por savanas rugosas que se escondem pela austeridade da cortina opressora. A luz da réstia me basta. Grávido de contrição, não desejo mais esplendores. A luz intervinda da réstia me acarinha com a suavidade de folhas desgarradas de seus outonos, e é bom. Não mais mastigo sentimentos travosos, tudo se dá numa paisagem impensada, quase mansa, embora rude, embora ensinadora. Deixei a pressa dos erros, trocando-a pela insegurança tênue da cadência. Me alimento de vagares e conversas que saltam de memórias invertebradas. Sou muitos, embora esses muitos orbitem certezas fugazes que se juntam no vértice abarcador para onde me encaminho. A pés de ida. Tudo é menos escandaloso, menos o desejo de me desobstruir de frustrações defumadas no pó de serra da compunção. Só há uma vida para viver. Mas há como nela descaber, a ela pertencer não restrito a suas imposições de clichês planisféricos. A imaginação vai dispersando o vivido, e o vivido vai se perdendo num emaranhado de hortênsias furtivas. Um jardim de evocações. Éter e chumbo. Empatia e barbárie. Primaveras entranhadas de flores e estupidez.

Do avesso do meu quarto, gárgulas enevoadas que não vejo me obstam a acolher o sol. São as gárgulas emblemas de paradoxo debochado, aplacantes e aterradoras. Sobrevivem sentimentos embaraçados pela exaustão. Reclamo apenas o conforto das decisões banais, a doce covardia de desencarar desafios fungíveis. Saudades se encorpam de motivos que não manipulo por impotência acachapante, e a esperança se aproxima de uma melancolia tépida, confortadora. Não mais a pedra bruta de onde a vida retirou tudo o que não era vida. Fui pelo caminho, entre o conquistado e o medo de dia não mais caber conquistar. Deixei de ser vivencial ao estupidamente me fazer exemplo. Celebração e susto deram-se as mãos e me envolveram com seus anéis mais ou menos carcomidos. Tudo o que considerei ou negligenciei moldou minha carne, o que estive e sou. 

71: das sete vidas da fábula que pensei viver em contraponto delirante a uma e somente uma vida que me coube e cabe viver.

Às minhas filhas e aos meus filhos, à Tereza, ao Fluminense, aos meus amigos de tempo de incontação, saibam: vou ficando por aqui, ainda que muitas vezes me recolha por sestro ao quarto-morada, de onde poderei, por um feitiço do tempo, rever, enquanto houver, a réstia que me acalma e impulsiona.


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Comentários

3 respostas para “71”.

  1. Simplesmente sensacional!! Vc escreve o que sente e isso é muito fantástico!! Que texto maravilhoso!! 👏👏👏❤️

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  2. Estimado BetoVá ficando por aqui não…

    Que texto maravilhoso. Li ontem com um misto de surpresa, identificação, admiração e até inveja, da qualidade dessa pena que você faz deitar sobre o papel (para usar uma analogia do nosso mundo passado), sentimentos e percepções tão sublimes. O Fluminense é de nossas paixões e intersecções, mas hoje, o que mais nos une, é a admiração por uma pessoa tão bacana como você.Saúde, Paz e Felicidades. Centi´anni, como diz o povo do qual parecemos ter emprestado a flâmula…O abraço, de casa a casa, quarto a quarto…

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    1. Obrigado pelo carinho, André. Muitas coisas nos unem.

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