Falando Pelos Polegares

Meu bom pai, patriarca baiano de cepa invergável, submetido ao imprevisto de um filho temporão hiperativo a interromper sistematicamente seu monólogo familiar, reagia em desabafo: – “Esse menino fala pelos cotovelos!”. O cotovelo é uma simpática articulação que nos permite cofiar o bigode, coçar as orelhas, ajeitar os cabelos, e aos mal-educados tirar meleca em público. Entrou na expressão consagrada pelo hábito incômodo de os tagarelas cutucarem seus interlocutores por lhes cobrar atenção. O primeiro registro da metáfora está em uma das sátiras do escritor latino Horácio, ainda antes da Era Cristã. 

E o que isso tem a ver com a web? 

O Brasil de hoje é uma pátria de internautas. Perto da totalidade das populações dos grandes centros urbanos já acessa a rede regularmente em seus domicílios, empregos, nas escolas. Pelos celulares, principalmente. A grande maioria desses milhões de internautas pertence a comunidades virtuais, como já previa o Ibope Net/Ratings há 15 anos. Os brasileiros navegam duas vezes mais horas por essas comunidades que o segundo lugar entre os países ranqueados. Com a massificação dos celulares, raros são os de cá que não fuxiquem nas redes o tempo de não estar dormindo. Até mesmo durante o trabalho, sempre há uma escapadinha pra aplacar o vício. Aqui em casa, a simpática diarista não desgruda do celular um minuto sequer, pondo-o em viva-voz enquanto dá conta das coisas com a competência usual.

A internet virou do avesso o modelo imposto pela indústria para a distribuição e consumo dos bens culturais. O You Tube, no ancestral 2008, já atingia em média 42 % das residências brasileiras. Hoje, praticamente todas. Já são maioria acachapante os brasileiros que buscam informação na rede, em substituição às fontes do jornalismo tradicional. Muitas boas cabeças, inclusive, prevêem a morte do jornalismo pela revolução dos blogs. No início deste século, Walter Isaacson, ex-editor da Time, emergiu de seu exílio defendendo uma tese que apontava tendência irreversível da rede: o fim do jornalismo gratuito na web. Acertou. Ainda no tempo da previsão de Isaacson, um alerta sintomático. O recorde de televisores desligados vinha sendo batido em sequência, realidade que só agora, pelas smart tvs, mostra sinais de reversão. Antes das tvs espertas, já havia dúvidas consistentes se entre as tevês ligadas estivessem à sua frente pessoas dispostas a lhes dedicar atenção. 

Lembro de quando em 2008 circulei pela periferia de Brasília com o Max Maciel, então presidente da CUFA-DF. Conversamos sobre a tendência já irreversível de os jovens periféricos tomarem as redes. Ainda em 2008, no DF, na cidade Estrutural, onde sequer havia banda larga, dez lan houses formais – e no mínimo a mesma quantidade nos fundos de casas – fervilhavam de adolescentes que se revezavam em ritmo frenético no acesso à web. Muitos jogando ou navegando por sites impensáveis, mas a maioria interagindo em redes sociais.

Tim Berners-Lee, o pai da internet, previu que o celular seria o ambiente de convergência natural da rede. Acertou na veia. Hoje, não há vida possível sem eles. Nestes novos tempos em que a vida mora nos celulares, o cotovelo se tornou muito pouco web, mas o polegar galgou o estrelato. O polegar dos humanos foi a mais importante mutação genética da evolução dos primatas. O nosso cata-piolho, afastado e oponível aos outros dedos, e com maior capacidade de rotação, nos permitiu reter nas mãos objetos de formas e tamanhos distintos, e manejá-los com mais destreza. Propiciou-nos mais: criar ferramentas que nos desoneraram de esforços em nossa saga de buscar alimento e sobreviver às intempéries, menear agulha e linha, tocar instrumentos e realizar cirurgias. E tamborilar, com o indicador, joysticks, celulares, e outras traquitanas eletrônicas. Quando a inteligência artificial nos lança num futuro inseguro, construindo possibilidades que só supúnhamos no campo da ficção surreal, nossos celulares se prestarão à porta de entrada para o caos dissimulado de boa intenção.

Hoje, quando se vê filhos incrustados em seus quartos conversando com amigos conquistados, trocando torpedos ou jogando em geringonças portáteis, trazendo os perigos do mundo para o espaço antes seguro de nossas casas, cabe-nos muxoxar:  

– “Esses meninos falam pelos polegares!”. 

Mas pode ser pior, nada romântico ou interessante. Pode ser indicativo da constatação dramática do Eddie Miller em “Adolescência”: “E pensar que tudo isso aconteceu no quarto ao lado.

Apertem os cintos.


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Comentários

Uma resposta para “Falando Pelos Polegares”.

  1. Avatar de Rodrigo Capdeville
    Rodrigo Capdeville

    bem isso! 😅

    Curtir

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