Optei por no avião ler Bustos Domeq. Voo pra Buenos Aires. Da Gol, comsanduba mequetrefe por conta de encher itinerário de quase três horas. Aleitura soava estranha à expectativa compreira dos brasileiros que mal podiamdissimular a euforia de consumir em moeda de dobro. Leio Borges e Casarescom frequência profilática. Bustos Domeq, de prenome Horacio, é autor urdidopela imaginação de dois sumos da espécie, Borges e Casares, escritoresportenhos que elevaram a Argentina, com a companhia luxuosa de Cortazar e mais uns dois, ao cume da nata literária da humanidade. Vou lendo e rindo. Pra dentro, como devem ser as gargalhadas do desfrute das palavras. Fui a Buenos Aires por ser hoje o mais barato pedaço brasileiro remissivo da Europa. Livro-me assim de prestações desproporcionais e dos insidiosos convites às delícias chatérrimas dos resorts praieiros que grassam feito praga do cardápio preferencial de nossos destinos turísticos.
Maior legado cultural e urbanístico europeu das Américas, Buenos Aires guarda mais paradoxos que qualquer outra cidade na Tordesilha de cá. Sofisticada e brega, contraída e derramada, palco hiperbólico de expressões tão distantes como o Borges de Domeq e a Evita, mãe dos descamisados. O francês Gardel ainda ecoa latente ou desabrido em cada esquina das calles. O tango nasceu do candombe, o equivalente do nosso candomblé. O que nos incita em perscrutar o motivo de por lá não se ver negros pelas ruas. Alçada ao posto de vice-reinado espanhol na América do Sul nos primeiros dias do século 19, Buenos Aires, com sua excepcional posição geográfica, contava por aqueles tempos um negro ou indígena para cada dois habitantes. Construiu-se por lá um meticuloso genocídio étnico sob os auspícios de duas guerras: a do Paraguai e a da febre amarela. Em ambas, os negros foram usados como frentes de batalha, e sucumbiram lenta e programadamente até que se erradicassem dos argentinos. As soberbas terras do Plata estimularam por dois séculos uma economia sólida. Ao lado do petróleo, abundante por lá, assim foram o trigo, o couro e a carne financiando um dos mais impressionantes patrimônios arquitetônicos no Novo Mundo. Ao me despedir dos bosques de Ezeiza, vou sendo reapresentado àquela cidade magnífica, com monumentos edificados por matéria-prima e engenho dos melhores exemplos ingleses e franceses. Como se Haussman estivesse por ali engendrando teses de sangrar metrópoles pela via dos grandes espaços. Uma Brasília sem rampas e geometria, acolhedora.
Hospedei-me num hotel instalado em uma jóia Art déco do centro da cidade. Chequim precedido de um delicioso roteiro de corredores ornados por azulejos de beleza impensável e elevadores pantográficos. O quarto, no melhor padrão do que se convenciona hoje tratar de hotel-butique, conciliava espaço e sofisticação. O preço, uma merreca. Buenos Aires abriga um estoque de equipamentos culturais que nenhuma cidade brasileira ousaria intentar. Centenas de teatros, livrarias, pequenos museus, cafeterias que recendem frescores de épocas invividas por nossos padrões vira-latas. Mas há muita pobreza agora por lá. Mais que pobreza, miséria. Muitos indigentes encolhendo-se ao sopro de ventos que já dobraram sensualmente os mais ricos balonês. A arrogância dos hermanos foi duramente refreada por nossa agressiva dominação econômica. Tomamos nas mãos alguns dos mais representativos símbolos pátrios deles: a YPF, o La Nación, e, golpe fatal, a Quilmes. Não bastasse, nós os ultrapassamos na exportação de carne e grãos. Estão cinicamente mais aquietados conosco, mas revoltados com seu destino coadjuvante, com se tornarem espécie de dependente incômodo na declaração de renda brasileira. Compramos mais da metade dos que os argentinos exportam, e nossa moeda viceja vigorosa nos outlets da Florida e Palermo. A brasileirada deita e rola. Compra com avidez e sem-cerimônia, embalando couros, lacostes e alfajores em imensas sacolas de vinte pratas. Nossa presença feérica e insaciável por suas churrascarias, antes sóbrias e convidativas ao consumo com charme, viraram mercados de contrafilé. O sumo do sumo da carne argentina, assim como já ocorreu com o nosso café, hoje abastece o mercado externo, leia-se brasileiro, e por lá resta, sob a égide de apelidos criativos, o velho e marromenos contrafilé dos pratos mais humildes de nossos dias de fastígio de hoje. O brasileiro médio que por lá anda turistando não percebe algumas das sutilezas que ainda fazem de Buenos Aires uma Europa na esquina de nossa rua continental, mas a esses um e outro Havana de doce-de-leite os satisfaz como um Malbec gran reserva de Mendoza. O brasileiro viaja como um Vasco da Gama tonto, e vai viajar cada vez mais, sacando seu Visa-Bradesco com a intemperança de um Mitre em desforra.
A história tem alternado bons e maus momentos para o turista brasileiro na terra de Bustos Domeq, personagem de dois gênios. Neste 2012, a maré está a favor da nossa tropa, que invade Buenos Aires com a sede dominante dos tártaros.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão