Ficar – e viver – de pé trouxe mais soluções que aperreamentos ao serumano, único mamífero a gozar, digamos, dessa prerrogativa. De pé, elevamos o vértice de nosso ponto de observação e ampliamos o campo visual para muito além das moitas, o que nos contabilizou imensos benefícios na lida de caçar e fugir de predadores. Ganhamos velocidade e repertório motor, liberamos os braços para um sem-número de tarefas complexas, além de nos livrarmos do mico de palitar os dentes sem que a outra mão nos esconda a boca escancarada, já que de quatro daríamos com os cornos no chão. Economizamos sapatos e inventamos o aplauso, sem o qual não grassariam democracia nem arte. Sobre dois pés ocupamos menos espaço horizontal, atributo vital para os 8 bilhões de filhos de Deus poderem acomodar-se nas partes deste planeta onde o chão não é água. Com o sexo exposto pelo cheipe vertical, cuidamos ainda de desenvolver a inteligência e a arte da sedução, dívida que temos com a turma dos dez centímetros, sem chances de procriar em uma sociedade apenas hierarquizada pela dimensão dos pênis. Depois veio a roupa, mas aí é outra história. Não conta apenas vantagens, no invés, o que o andar de pé nos trouxe. Há os inconvenientes das doenças da coluna, as ciladas dos arquitetos, e a malcheirança dos sovacos dos mais altos quando frequentamos os transportes coletivos e eventos bombados.
Contrastados com o que ganhamos, são desconfortos desprezíveis. De pé ou de quatro, o que nos move desde o início de nossa aventura evolutiva é a dedicação a esforços que nos livrem de esforços, à devoção pela preguiça. Para os não evolucionistas, dá no mesmo. Adão tava lá tranquilão, quando Eva nos meteu na encrenca do pecado original, pelo tramado que se inventou o trabalho e o fim do Paraíso. De lá pra cá é só pauleira. Na consolidação dos textos míticos, literários e históricos que resultou nos documentos básicos das três grandes religiões monoteístas ocidentais não há qualquer indício de que poderíamos levar a vida na flauta. Foi Deus se revelar a Abraão e lhe ser sincero: “Tá afim de pão? Pague com sacrifício”. Assunções religiosamente corretas à parte, jamais nos conformamos com essa tralha. O trabalho dignifica o homem, o ócio o eleva. Despreconceite: pra tudo há lugar.
Vagamos pelo mundo a perseguir desoneração do imenso fardo de garantir o prato de comida. E tome de inventar alavanca, roda, tração animal, roldana, propulsão a vapor, elevador, rádio, tevê, carro, trem, internet, tudo quanto é bugiganga que nos faça afundar o traseiro na poltrona mais próxima por mais tempo. E apelidamos de tecnologia. Nessa busca, por muitas vezes imaginamo-nos Deus, razão e fim de todas as coisas do universo. E não por acaso. Concebidos à imagem e semelhança Dele, aprendemos desde o Gênesis a missão nos legada pelo Pai: “Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. É bem verdade que lemos mal esta tarefa e a tomamos numa medida arrogante, antropocêntrica. Deus, que bocó num é, não ia dar uma bola fora dessas. De toda forma, novisfora a lição de Babel, é de nosso ofício o tentar ser Deus. Até por querer desmenti-Lo. Ao subjugar a Natureza e cultivá-la contra seu calendário de intempéries, modificando a genética das lagartas e despejando a rodo agrotóxicos, tomamos nas mãos encargo divino. Agimos assim também quando retardamos a morte, já que, depois da socialização do crediário, todo mundo quer viver até não mais poder, prato lotado para que a academia careta jogue nos renitentes a culpa do déficit da Previdência, que, sabemos, antes caso de polícia. A turma quer esticar sua passagem ainda que contra os planos de Deus. Só olhar o mundão de gente fazendo cúper.
A verdade é que na luta desigual pelo ócio nosso de cada dia há apenas uma coisa que nos aproxima de Deus: o controle remoto. Ao transformarmos nossas mesinhas de cabeceira em nacos de gôndola das Casas Bahia, tomamos as rédeas do mundo nas mãos. O controle sobre o funcionamento do aparato eletrônico que nos cerca em nossa fúria consumista nos dá uma sensação de senhor das coisas, dos ares, sons, imagens. De lá, daquele bânquer vegetativo, onde nos instalamos no topo de nossa teocracia ad-hoc, submetemos o mundo ao nosso tempo e vontade, a zapear livremente por fragmentos de assuntos. E cada vez mais nos inadaptamos ao terra-a-terra cá de fora. Patéticos e impotentes por não ter controle sobre os sinais de trânsito, sobre com quem compartilharemos o elevador, sobre a intermitência do metrô, sobre um idólatra de torturador chegar à presidência da República, sobre o que somos forçados a conversar, sobre os canalhas que trafegam pelo acostamento, sobre a cultura rasteira dos googlers, sobre a obsessão opinativa dos influencers, sobre o choro dos filhos pequenos e da prepotência idiota dos filhos adolescentes, sobre a reciprocidade de quem queremos transar, sobre se o VAR vai confirmar o pênalti no Arias, sobre o impulso de cagar se intensificando à medida que nos aproximamos do banheiro mais próximo – quando há.
Como entender um mundo que não reage ao impulso de nosso polegar? Eu mesmo vez em quando me surpreendo procurando com o dedão a imaginária tecla pause de um chato.
Não é viração de ser Deus?

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