Tenho encrenca dos diabos dos verbos defectivos. Por verdade prosperar, confesso: nutro por eles um misto de bronca e desdém. Acho-os sem caráter, tíbios, velhacos, dissimulados, desprovidos de tônus ideológico. São omissos, ridiculamente omissos. Se me incumbisse, por via de Deus, colorir um desenho banal, e dizer a alguém que o estou fazendo com engenho, fico despermitido, por covardia do defectivo colorir, de simplesmente me referir ao instrumento de minha arte: “Eu coloro com o pincel tal”. Não posso, sou opressivamente proibido de fazê-lo. Sou forçado a empregar o verbo usar, que eu não estava a fim de empregar, ou usar, sei lá.
Imagine agora um fiscal maneiroso, mas desonesto, ao relatar a um colega menos maneiroso, mas honesto, suas ciências de extorsão. Não cabe desonerar o companheiro do constrangimento de volteios verbais por lhe dizer taxativo: “Eu extorco com classe, sem riscos”. Obriga-se a dar voltas, perseguindo frases com torcicolo, e deixa o outro tenso e, pelo verbo inachado, cúmplice, embora com presunção de inocência.
Terrível a privação de expressões a que somos submetidos pelos verbos defectivos, esses canalhas da gramática. Não se pode falir na primeira pessoa, a admitir solitário uma culpa que não deve ser compartilhada com ninguém. Tem que usar “nós falimos”, na base do plural majestático, e vai pro saco o sócio, obrigado, pelo defectivo, a falir com você.
Fosse eu instado a dar conta do que faria se tivesse o poder de intervir, por obra de um poder imponderável, no esculacho do quadro atual das coisas, não me seria indefectivelmente permitido ceder ao impulso de rosnar: “Eu bano o Lira, abulo o Ciro Nogueira, ruo a Carla Zambelli, demulo o Jorginho explodo o Malafaia, carpo o Ednaldo e dilo o Trump”.
Ao procurar alternativas gramaticais para a frase indizível, poderia dar tempo a essa gente, antes que as encontrasse.
Vai ver é por isso que nada acontece com eles.

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