Ainda que nos cerquemos de todo cuidado com o tratar as crianças, somos invariavelmente imprudentes. Cristais delicados, crianças superlativam os sentimentos e estocam alguns deles para acompanhá-las o resto da vida. Não raras vezes trincamos sua alma-vidro com a escolha errada das palavras. Outras – deliciosas surpresas – contentamo-nas com tão pouco. São os pequenos descuidos que nos exigem atenção especial. Descuidos que mais tarde lotam os consultórios de psicanálise de almas ressentidas por incompreensões para nós injustificadas. O mundo dos adultos, com seus códigos de defesa social, estende suas sombras sobre o universo da criança sem se preocupar em traduzi-los para a esfera de compreensão lúdica da realidade por onde transitam os pequenos. Maltratados pela selvageria das relações de sobrevivência, muitos são expostos ao risco de abusar do mais fraco que porventura tenha o azar de estar próximo de nós. Ainda que pelo tempo de um malfadado impulso. Algumas vezes, um cão, um gato; outras, a criança à mão.
Guardo uma experiência que grudou em mim para o resto de meus dias, ainda que há um tempo os meus dias representem prenúncio dos restos do que viverei.
Moleque, lá pelos nove, dez anos, tinha a vida permitida aos filhos de classe média de um Brasil recém-industrializado, parcimonioso em seus hábitos de consumo. Vida simples, mas longe da pobreza que já maltratava os tantos de um país desigual. Meu pai, apesar de escritor reconhecido, lutava pela vida com as dificuldades inerentes a pôr na mesa as quatro refeições por dia que três filhos exigiam. Baiano do interior, filho de família com hábitos simples, meu pai jamais foi de dar valor além da conta às coisas materiais, encaixando seu salário como paga justa – o reconhecimento cosmopolita – de uma história de ascensão social igual a tantas esculpidas pela saga dos migrantes. Sendo temporão, meus irmãos adiantados no estudo, a exigir mais e mais despesas, estudei em escola pública – ótima, por sinal – até que meu pai se sentisse seguro para apertar seu orçamento e me matricular, aos 10 anos, em um dos melhores colégios do Rio, o São Vicente. Lá, forjei minha têmpera inquieta e os bons amigos que me escoltam nesta avenida estimulante, mais de vez patética, da vida. Só eu sei o sacrifício que minha boa formação impôs a ele e à minha mãe. Esta, guerreira chapadina, fazia minhas roupas, diga-se, com um capricho que me cobria de uma importância que jamais percebera em seu universo afetivo. Incorporando bicho carpinteiro em meus primeiros anos de assuntação por este mundo, guardava de minha mãe, chefe do departamento disciplinar da casa, a referência das broncas homéricas, justas, bem que se diga. Andar por aí com as roupas que minha mãe esculpia em rito meticuloso em sua velha máquina de costura Singer podia me deixar à margem das curtições das grifes da moda, mas me repunha no caminho reconfortante de seu afeto. O que não me livraria de alguns embaraços sociais, já que morava e estudava em território de abastados, e carregava orgulhoso o nome e sobrenome de um dos grandes escritores brasileiros. Não trocaria de grife genética por metal nenhum do mundo.
Certo dia, tempo de muito passar, nos idos de Friburgo, a Bárbara, uma de minhas filhas, bateu à porta de meu quarto bem cedo, o que é raro em se tratando da rotina de horário a que ela se submetia prazerosamente. Tinha nas mãos uma pequena tigela com uns araçazinhos amarelos, acusando estarem maduros. Estupidamente, repreendi-a por estarmos acordados em colher os araçás em operação familiar, todos irmanados no gesto simples e gregário de colher araçás em nosso único araçazeiro, com sua única safra anual. Bárbara se magoou por vários dias, chocada por esperar de mim uma reação de solidariedade ao gesto simultâneo de anúncio de nossa parca safra de araçás e de desprendimento por estar trazendo-os a mim. Roí-me com a força lacerante de todos os molares do mundo. Lembrei-me do pulôver que fui obrigado a vestir, em pleno verão carioca, para fingir ter minha roupa trocada quando, usando uma roupa feita por minha mãe, fui instado por uma alma fútil a trocá-la antes de sair para jantar com sua família. Aquele pulôver, que há muito tempo agravou os efeitos do verão no menino em uma certa noite do Rio, o fez sofrer o incômodo renitente dos pequenos ressentimentos, mas nunca vergonha. Conversamos bastante, eu e Bárbara, no processo penoso de mitigar minha culpa e a mágoa dela. Surpreendi-me com sua franqueza e compreensão:
– Pai, você anda nervoso, e, por mais que você me magoe, eu vou entender. Mas a minha intenção foi simplesmente dividir com você um momento por que esperamos tanto.
Hoje, com a finitude ganhando forma definida num horizonte em que a distância antes ilusoriamente inalcançável apresentava-se como um borrão, sofro com a lembrança abrasiva de momentos em que me deixei levar pela impulsividade e fui rude na relação com meus filhos. O quanto estive perto de pisar o chão lodacento da abusividade. Com todos os sete. Não é culpa que se expia facilmente. Muitas vezes, por simbiose, confundida com uma inadequada comiseração com que vemos nossos filhos enfrentarem os dragões do mundo. Queria muito pedir perdão a cada um deles, embora saibam que o que fiz, e quando fiz, foi por um erro muito comum ao amor sufocante dos pais: desejar que nossos filhos sejam nossas extensões. Quando sofrem, queríamos sofrer por eles, substituí-los na sua dor. Não posso voltar no tempo para desfazer o que me corrói, por isso cada gesto de amor de um dos meus filhos tem o significado de uma Páscoa fugaz. Renasço, mas não o suficiente para me desonerar dos arrependimentos cáusticos.
Voltando aos araçás, a partir do episódio que me fustigou com esporos impiedosos, todos nos liberamos do compromisso grupal de colhê-los, embora não o descartasse pelo que tem de saborosamente mágico. Fomos em comitiva familiar muitas vezes ao araçazeiro. Ainda que por algumas vezes sozinhos, jamais deixamos de dividir entre nós o produto das pequenas colheitas. O ritual servia para diluir em mim a dor pelo impulso imperdoável que me levou a magoá-la.
Naquela noite em que fui tocado pela inocente sabedoria da Bábis, dormi com o suéter imaginário que minha mãe um dia tricotou e nele cravou sua insubstituível grife de afeto. Antes, adulto acuado pelas sombras de uma lembrança doída, tratei de bater à porta do quarto da pequena, e, em vez do proverbial boa-noite, pedi a ela desculpas por lhe passar uma rispidez que fustigava minha alma.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão