Desconexas 10

A vida é mesmo plena de surpresas. Consumia rotineiramente castanha-do-Pará, convencido de que estava depositando pílulas de crédito em minha planilha de saúde, afortunada em débitos. Há oceanos de textos defendendo as propriedades panaceicas da tal castanha. Pensei de forma simples: se uma faz bem, vou consumir oito. Assim, ao ritmo do carimbó castanheiro, minhas chances de atravessar a velhice a bordo de uma saúde de touro de exposição holandês aumentariam exponencialmente.

Leda ilusão. Glaucio Binder, então meu sócio, soou o alarme: “Você está maluco, Beto? Pra fazer bem tem que consumir no máximo uma castanha por dia. A castanha-do-Pará é rica em selênio, e o selênio em excesso é um baita de um veneno”. Corri à internet, o Glaucio estava certo.

Imediatamente reduzi o consumo para uma unidade por dia, mas estou hipocondriacamente convencido de que o veneno já fez efeito e de que estou morrendo. Procurei um soro anti-castanhídico, mas o tal do soro não existe. Pode ser que daqui a tempo me acalme, mas, se continuar vivo por tempo de imunidade, creditarei agradecidamente ao Glaucio.

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Teve dia em que fui ao Barrashopping com a Rafinha para fazer o que mais a motiva: comprar livros. Nos encontramos na porta de um supermercado na avenida das Américas e decidimos pegar um ônibus, em vez do táxi convencional. Busão lotado, espremidos por dois quilômetros, desfrutamos o alívio de um desembarque providencial. Andamos de uma ponta à outra do shopping por duas vezes. Achamos os livros que encheram de alegria e frescor o lindo rosto da Rafinha.

Na volta, já ia pegar um táxi, quando ela me alertou: “Pai, vamos de micro com o seu Alceu. Ele faz o trajeto Barrashopping-Barrinha em regime de ida-e-volta e nos deixa onde queremos. Eu peço e ele para no retorno bem em frente à nossa casa”. Eu, ingênuo: “Como assim, Rafinha? Esse cara é dono do ônibus?”. Ela de pronto: “Não, pai, seu Alceu é o único motorista dessa linha circular, ele é a linha”.

Voltamos pra casa sob os auspícios do Alceu, um baixinho marrento que não pensa duas vezes antes de parar em qualquer canto pra fumar um cigarrinho e filar um café de um botequim à espreita. O cara é uma ilha de humanidade num mar de tensão urbana.

Rafinha tinha razão. O seu Alceu parou no retorno em frente à nossa casa. E eu desci feliz por sobreviver delicadeza numa chaleira fervente de indiferença que são as cidades grandes.

O Rio, quando quer, é imbatível.

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Liguei dia de muito atrás o rádio na JB FM, a caminho do trabalho. De repente, o locutor chama o Memória Couvert Artístico com o Lulu Santos falando sobre as semelhanças entre a parceria dele com o Nelson Mota e a do Lennon com McCartney. Isso mesmo: Lennon e McCartney. Quase bati no carro da frente antes de por espanto desligar aquele maldito rádio.

O Brasil precisa urgentemente de um anticonvulsivo.

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Vírgulas são obstáculos à fluência do pensamento livre. Em excesso, tornam nossas ideias tão fragmentadas quanto palavras longas aos gagos.

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Um cara que, ouvindo Leonard Cohen, faz sua carne moída com shiitake de bandeja já sabendo que a arrematará por cima com um ovo caipira, enquanto bebe uma vodca cremosa colhida no freezer e derramada sobre pedras de gelo geometricamente perfeitas, só quer paz e um tempo submetido à sua indiferença.

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Em fase de negação de carboidrato, sento numa cafeteria para um expresso e na mesa ao lado uma senhorinha pede folheado de camarão. Não satisfeita, emenda com um capuccino com alpes suíços de chantilly e uma mousse de Ovomaltine com Nutella.

Fui ao banheiro, onde discretamente chorei e voltei humilhado ainda mais pela expressão de prazer impune da senhorinha.

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A opinião é o último refúgio da ignorância.

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Lembro até hoje do choque de que fui tomado ao receber faz um tempo a notícia da morte do querido amigo Paulo César Nântua.

Conheci o Nântua no Sempreflu, o site ancestral que juntou tantas almas e bons corações tricolores. Lá fiz muitos amigos, Nântua foi um deles. Depois, há mais de 20 anos, Nântua esteve comigo e mais mil tricolores na fundação da Fluturo, primeira instituição criada por uma torcida depois da promulgação do Estatuto do Torcedor. Há 20 anos a Fluturo já preconizava a falência do modelo associativo de gestão dos grandes clubes brasileiros, útero e berçário de grupos paroquiais que se eternizam no poder, padrão Flusócio. Cético, Nântua usava seu humor ácido e sua ironia mordaz para espetar o mandarinato tricolor, fossem quais fossem os mandarins.

Ao envelhecermos, temos diante da morte dois sentimentos falsamente paradoxais: medo e aceitação. Estou hoje mais aceitando que a temendo. E a aceito, a exemplo dos mexicanos, ritualisticamente, como se sussurrasse à morte: venha quando quiser, amiga, estou à sua espera. Quando vier, me abrace com ternura e compreensão.

O Nântua era um sacerdote da simplicidade. No cantinho em que ele estiver por lá, é pra lá que eu quero ir, para falarmos de Fluminense e da vida que teremos deixado. E beber cerveja e comer torresmo, predileções dele, se um e outro houver por lá.

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Até entendo – e aceito conformadamente – que depois de uma certa idade seja muito comum falar sozinho. Mas não é isso que me preocupa; o que me preocupa é que raramente concordo comigo.

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Creio no inesperado. O esperado é a simples entronização da rotina, e a rotina, o alter ego preferencial do diabo.

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De nada valerá o ressentimento se ele apenas servir para acertar contas. Quem se desressente, se liberta, experimenta a melhor sensação de que o que vem pode ser saída, e não, ameaça.

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Tem muito embusteiro ganhando dinheiro com palestra motivacional. E muita gente boa deixando de ganhar. Na agência de que fui sócio, tinha uma boa amiga que era o melhor exemplo disso. Poderia enriquecer simplesmente relatando sua experiência de vida. As luzes se acenderiam, as cortinas se abririam, e ela subiria ao palco, onde laconicamente testemunharia: “Gente, eu moro em Niterói e trabalho na Barra”. Ato contínuo, o auditório em peso se levantaria para ovacioná-la histericamente. E todos iriam pra casa percebendo que seus problemas são mesquinhos diante de tamanha dificuldade.

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Pode parecer sadismo ou incivilidade, mas quando me estresso ao ponto transbordável com os cidadãos autonomeados especiais, aqueles que trafegam pelo acostamento, fazem fila tripla em retornos e portas de colégios, furam fila, etc, eu corro para rever O Poderoso Chefão. Nem sempre lhe assisto inteiro, priorizo as cenas em que aquele produtor de cinema pernóstico acorda com a cabeça do cavalo em sua cama, aquela do policial corrupto tomando duas balas no pescoço numa tratoria, e, por fim, a da surra que o macho estúpido e traidor do genro do Don Corleone toma do Sonny.

E mitigo minha insônia.

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Primeiro foi a histeria ridícula da assunção xiita do anglicismo “foco”. Brasileiro não centra mais suas atenções, não prioriza mais suas preocupações. Brasileiro agora “foca”. De jogador de futebol a executivo de estatal, passando por tecnocratas e papagaios.

Agora vem essa excrescência de “par”. Isso nunca foi de nossa tradição oral, é mais uma adaptação colonizada do “couple” dos hômis.

A mídia não distribui mais dois convites para um filme ou uma peça, não faz mais promoções com dois cds. Agora é um tal de par de convites, par de cds. Se alguém vai agendar um encontro e deseja oferecer opções de dia e horário, esse alguém oferece um par de datas.

É de uma cretinice sem par.


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Comentários

2 respostas a “Desconexas 10”

  1. Que delícia ler estas pérolas,Beto!! Manda mais!!👏👏👏🥳🥰

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Rodrigo Capdeville
    Rodrigo Capdeville

    espero que o whisky atenue o selênio das castanhas, caso contrário, já estou com o saldo negativo há uns 10 anos… cheers!

    Curtido por 1 pessoa

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