Era 2010.
Não fossem três detalhes que colaram em minhas retinas, aquele bêbado abraçado a um cão teria sido por mim despercebido como mais um elemento da insensível cena urbana nossa de todos os dias. O bêbado empunhava uma garrafa de Balla 12, tinha boa aparência, e, por fim, contudo o mais importante, vestia a camisa do Fluminense. Aproximei-me em solidariedade espontânea, apresentando-me com a sobriedade de um soldado do Exército da Salvação Tricolor, a imaginar um rosário de honestas razões para içar daquele poço existencial uma pobre alma. Logo assumi não serem bem estas as razões, visto que um bom porre de longe pode insinuar um desvão no itinerário dos espíritos. Fui para saber de tricolor para tricolor qual era o mote daquela carraspana e o quanto eu podia dividi-la com ele, ainda mais sob a escolta segura de um bom Balla 12. Antes mesmo que pudesse indagar-lhe algo, fui por ele abordado:
– Ela me deixou, mas eu sempre soube que valeria a pena – murmurou o bêbado.
– Desculpe, mas…ela, quem?
– Minha mulher, amigo, minha mulher. Ela jamais entendeu sinceramente os meus motivos, o meu impulso irrefreável, minha doença santa. O quanto significaria a libertação.
– Não estou entendendo bem, tricolor, o que você exatamente está querendo dizer?
– Já na faculdade, quando nos conhecemos, eu fui direto: antes de você estará sempre o Fluminense. Posso amá-la mais que Tristão a Isolda, mais que Dirceu a Marília, mais que militar a ricos, mas o Fluminense vem antes, o Fluminense vem antes!
– Entendo, amigo, mas…
– Tudo começou em 95, nós tínhamos uns seis meses de namoro e os pais dela iam comemorar as bodas de prata. Adivinha o dia, amigo, o dia em que os pais dela resolveram se casar e, nesse dia se casando, nesse dia comemorar as bodas de prata, com direito a lauto almoço familiar, regado a discurso e estrogonofe? Adivinha o dia, amigo?
– Não sei…
– O dia do Fla x Flu da final do Carioca, no Fla x Flu em que mijamos no chopp centenário do Flamengo. No Fla x Flu da barrigada do Renato! Quando cheguei à casa dos meus futuros sogros, já cheguei a bordo de um porre monumental, sacaneando a flamengada toda da festa, a começar por seus avós maternos, que viviam carolando os medalhões que o Flamengo contratara para o centenário. Foi bom, amigo, foi muito bom, foi balsâmico.
– Ela não deve ter gostado, mas eu entendo. Acho que faria o mesmo.
– Depois, irmão – já avançando em nossa intimidade recente – veio o noivado. 1998. Adivinha o dia que ela marcou o noivado, adivinha?
– Deixa ver, deixa…
– No dia da estréia na Segundona, contra o ABC, se lembra, irmão? Aquele jogo do horário esquisito, domingo de manhã. Eu não podia deixar de levar minha solidariedade ao Fluzão naquele momento triste de nossa história. Era triste mas era de reconstrução. O Maraca cheio, a festa prometia ser linda. Mas você deve se lembrar – e como me lembrava: 3 x 0 em menos de trinta minutos, um anti-clima devastador. Dava pra ficar sóbrio, irmão, dava? Cheguei no almoço de noivado trocando as pernas, foi um vexame. O discurso que fiz, segundo me disseram no dia seguinte, foi patético, comparei o casamento com a segunda divisão, onde se perde um jogo hoje pra se ganhar outro amanhã. Imagine. Mas sabe como é, né? Queríamos casar, seguimos em frente.
– Ela devia gostar muito de você.
– Gostava, irmão, gostava. Em 2000 casamos, tinha tudo pra ser uma festa linda. Mas adivinha, adivinha o dia em que ela marcou o casamento? Essa é mole, adivinha ou não?
– Já sei, já sei, no dia do jogo de volta com o São Caetano, não foi?
– Antes fosse, irmão, antes fosse. Fosse nesse dia e depois do jogo batia ponto na igreja apresentando meus votos de lealdade e recebendo suas mãos das mãos do pai orgulhoso dela. Era mole, se fosse no dia do jogo, pois nos casamos às oito e meia, daria tempo, irmão, daria tempo. Do Maraca pro altar, mole, mole. Mas não, foi na véspera que ela marcou. Eu tenso no altar, na expectativa daquele jogo que poderia ser nossa resposta ao deboche de tanto cabra safado, depois de tudo o que passamos. Mas não era só isso, o avião que nos levaria para a lua-de-mel em Buenos Aires estava marcado para as vinte e uma horas de domingo. Com aquela burocracia de aeroporto, apertadinho com o fim do jogo. Eu tinha uma ideia em mente, mas não tive coragem de contar pra ela. No dia seguinte ao do casamento, já devidamente empossado no cargo de parente, fomos almoçar na casa dos pais dela. Minha sogra já me recebeu provocando: “Hoje você não vai ao jogo do Fluminense, não, não é?”. Pigarreei e, já fazendo valer meu status de genro, abri a geladeira e alcancei a primeira cerveja que me respondeu ao tato. Depois outra, depois outra, e mais outras. Meio chapadão, tomei enfim coragem pra confessar a ela o meu plano: “Minha preta, fica tranquila, o avião é às nove da noite, o jogo acaba às sete, dá certinho”. “Cumequié?”, ela estrebuchou. Ficou esquisito, tricolor, mas aleguei razão de estado, sanidade mental e o escambau. Falei da libertação, mas ela não entendeu. Meus sogros me fuzilaram com olhar de praga, mas encarei a barra e fui em frente. Depois, no aconchego do hotel da Recoleta, ao som de um tango pungente, nós nos acertamos.
– Rapaz, que história!
– Mas um dia tudo acabou, tudo acabou, irmão. E foi no ano da graça de 2005. Missa de sétimo dia do meu sogro. Mano, pode acreditar em mim, eu fui ao velório e me solidarizei contrito ao sofrimento da família, que era também a minha família. Tinha uns mal-resolvidos com meu sogro, mas ele era gente boa. Passei a madrugada inteira velando o corpo e encomendando a alma para o endereço tranquilo da eternidade. Não descolei um segundo sequer do esquife. Fiz minha parte, pode crer. Enquanto o féretro percorria lentamente as alamedas do São João Batista, fiz as contas. Adivinha o dia em caía o sétimo dia do passamento do meu sogro, irmão, adivinha o dia? Vamos lá, tente uma vezinha só.
– Não acredito! No dia do jogo de ida da final da Copa do Brasil, no dia do jogo contra o Paulista em Jundiaí! Não brinca!
– E eu já acertado com a van do Frajola! O jogo da libertação. A missa era ao meio-dia, exatamente na hora em que a van ia sair. Ainda liguei pro Frajola, mas ele alegou que qualquer atraso na saída poderia implicar em risco de não se chegar a Jundiaí a tempo. Quando tomei coragem e contei a ela que estava pretendendo ir ao jogo, argumentando que a Copa do Brasil é o caminho mais curto pra Libertadores, e que a Libertadores tem para nós, tricolores, o peso de um portal da Terra Prometida, ela foi dura e curta: “Pra mim chega, se você for ao jogo, adeus, nunca mais”. Não acreditei, irmão, não acreditei. Quebrei a cara.
– Você…você foi ao jogo?
– Fui. E ela cumpriu o prometido. Cheguei em casa e encontrei as malas na sala. Sobre elas um bilhete lacônico: “Vão você e o seu Fluminense para a puta que o pariu!”. Aquela ofensa ao Fluminense foi o ponto final, irmão. Comigo não tinha problema, mas com o meu Fluminense ninguém brinca, quanto mais ofender.
Mal acabara de engrolar a última palavra de sua última frase, o bêbado embarcou em sono profundo. Preparava-me para ajeitá-lo melhor em sua inclinação inusitada quando ouvi uma voz serena e educada. Era o cão.
– Senhor Beto Sales, o senhor é um homem de sorte. Nos dez anos em que o meu amigo bêbado me dá a honra de com ele repartir fatos marcantes de sua vida, ele nunca foi além de uma frase curta, embora carinhosa: “Amigo cão, uma pena que você não possa beber comigo”.
Entre estranhar o fato de um cão estar comigo a falar ou saber ele o meu nome, preferi simplesmente dar curso à conversa.
– É mesmo, cão? Aliás, desculpe, qual o seu nome?
– Eu não tenho nome, sou um cão de rua, aqui e ali apelidado por um bêbado, uma criança, ou uma alma caridosa. Sou simplesmente cão. Agora não estranhe eu saber seu nome. Reconheci-o logo que vi ao chegar para conversar com meu amigo bêbado.
– Reconheceu…como?
– Pois bem, um outro tricolor que por aqui volta e meia deita descanso costuma acessar os sites do Fluminense. Num deles, numa troca de mensagens, tinha uma fotografia que só podia ser sua. Devo lhe confessar que muito demorei para me inteirar razoavelmente do vocabulário humano, mas pude ver com clareza o seu nome nos créditos do perfil com quem ele trocava as mensagens.
– Sim, meu nome, sim, mas como você pode me reconhecer, se a foto é confusa?
– Cães têm dotes que os humanos jamais entenderão.
– Incrível, que memória!
– Mas dizia eu que o meu amigo bêbado jamais conversou comigo nestes dez anos, nada mais dizendo além de “Amigo cão, uma pena que você não possa beber comigo”. A bem da verdade, a cada ano que aqui apareceu, ele acrescentava à frase de sempre uma metáfora, mas nós, cães, como o senhor deve imaginar, não somos bons em metáforas. Estamos acostumados a receber orientações claras e curtas. Jamais consegui entender exatamente o que ele queria dizer com aquelas frases enigmáticas.
– Como assim?
– Veja, Beto Sales, em 95 ele aqui chegou já com sua garrafa na mão, e disse-me a frase de sempre. Em seguida, olhar lívido para o nada, exclamou: “Da ceifa do ventre sagrado brotará a redenção”. Estranho, não é?
– Deixe-me ver…ventre sagrado…95…redenção…hum…, claro! O gol do Renato Gaúcho na final com o Flamengo, só pode! De barriga, ventre sagrado!
– Muito bem, em 96 a mesma frase e o complemento ininteligível: “Muitos conspirarão para que o destino deite seu véu sombrio sobre o caminho”. Não entendi nada.
– 96…muitos conspirarão…véu sombrio…tá na cara, tá na cara! Nossa primeira queda, a sacanagem do Flamengo contra o Bahia, do Atlético Paranaense contra Criciúma. Tudo armado, tudo armado.
– Em 97 sequer esperava por ele. Fiquei assustado com o terror que emanava de cada gesto e palavra dele no ano anterior. Ele bebera como nunca. Mas o amigo voltou com o olhar ainda mais assombrado. Depois do chavão “Amigo cão, é uma pena que você não possa beber comigo”, vaticinou: “A espuma do vinho dos deuses inundará de desonra o colo das virtudes”. Necas de pitibiribas, é assim mesmo que se fala?.
– Em 97, cão, em 97 todos nós fomos desonrados. Um campeonato armado por uma camarilha, com direito a esquemão 1-0-0, com Corinthians e Atlético Paranaense manipulando resultados, segundo várias provas materiais mostradas no Jornal Nacional. O Brasileiro de 96 foi uma vergonha, e o presidente do Fluminense, em vez de marcar nossa permanência na elite do futebol brasileiro pela prevalência da ética, brindou a decisão da CBF com champanhe, dando ao que deveria ter sido um ato de justiça a conotação de deboche. Foi uma estupenda cagada.
– Vamos em frente. Em 98, depois de lamentar o fato de eu não com ele poder beber, conclamou com um tom de personagem de Ésquilo: “A morte segue a fúria!”.
– Esse cara é simplesmente incrível! Cão, em 98 nós caímos para a Terceira Divisão. Foram vales de lágrimas, foram mares de sofrimento. Todo o Brasil esteve contra nós, fomos eleitos afrontadores da ética. Tudo por causa do maldito champanhe. E os caras e os clubes do 1-0-0, ó, não pagaram um tostão.
– Em 99 ele profetizou: “Da árvore das uvas virá o sinal de fertilidade que nos arrancará do mais fétido dos poços”. Não significou nada para mim, Beto Sales.
– Claro que não, mas para mim quer dizer tudo. Na Terceira Divisão o Fluminense mobilizou seus seguidores como nunca, todos o tomamos nos braços e nos responsabilizamos por sua salvação. Sua morte seria nossa morte. E quem nos conduziu foi o técnico tetracampeão do mundo, o homem da árvore das uvas, o Parreira.
– Sempre que penso no meu amigo bêbado, penso com carinho, embora toda vez que o veja penso ser a última. Tenho medo de um dia ele não mais voltar aqui. Foi o que pensei em 2000, por tudo o que nele me impressionara no ano anterior.
– 2000? Foi quando inventaram uma Copa João Havelange porque o Gama se recusou a coonestar a armação montada para salvar uns clubes depois do escândalo Sandro Hirochi. 96 times distribuídos por três módulos, não houve divisões. No fim, todos tinham chances de levar a Copa. Foi a saída para contemplar a decisão da Justiça Comum acatando o recurso do Gama.
– Que times eram esses que seriam rebaixados?
– Todos sabem, cão, todos sabem.
– Mas como dizia, Beto, era 2000. Ele chegou e logo foi me dizendo: “Amigo cão, é uma pena que você não possa beber comigo”. Emendando: “Cuidado com a bola-serpente, cuidado com a bola serpente!”. Fingi que o compreendia e o abracei, como sempre.
– 2000…bola-serpente…porra! É isso mesmo, o chute do Ademar, só pode ser isso, esse seu amigo é foda, cão, é foda!
– Para encurtar a conversa, vou me lembrando apenas das metáforas ano a ano com que balbuciava ao vento, após me saudar. Em 2001: “O fim estará no chão de óleo do templo do Mal”.
– No Brasileirão desse ano…deixa eu pensar…óbvio…ululantemente óbvio…o escorregão do André Luiz na Arena da Baixada. Putz, o cara é fantástico!
– 2002: “O avesso do destino na virilha do Rei”.
– Não é possível! A contusão do Romário na semifinal contra o Corínthians, no Morumbi. A virilha do Rei!
– Em 2003, volta o assombro que vez em quando marcava seu olhar com medo e fúria: “Nada é tão longe que não se possa voltar”.
– Inacreditável, quase voltamos à Segundona em 2003. É isso, é isso!
– Ano passado, não houve assombro ou euforia: “Patinaremos no purgatório, a um passo do céu e a um passo do inferno”.
– Foi o que aconteceu. A Unimed fez contratações caríssimas que nos encheram de esperança, mas na hora agá ficamos no meio barro, meio tijolo. E este ano, cão, e este ano?
– Ele chegou há pouco. Saudou-me como sempre: “Amigo cão, é uma pena que você não possa beber comigo”. E, depois de uma breve metáfora – “Afinal a libertação” -, proclamou taxativamente, de forma a que eu pudesse entender de forma clara e insofismável: “O Fluminense será o campeão brasileiro de 2010”.
– Como ele pôde afirmar isso, se faltam dezessete rodadas para o fim do campeonato? Como?
– Tá vendo, Beto Sales? Por 15 anos o meu amigo profetizou por metáforas e o senhor acreditou piamente enquanto as relatava. Acreditou não por uma questão de fé, mas por tratar-se de fatos passados, fáceis de aferir. Quando pela primeira vez ele é cristalino em suas premonições, você desconfia.
Tomado de súbita estupefação pela lição de sabedoria que recebia daquele simples cão de rua, cuidei de dali sair envergonhado. Com que direito posso ter duvidado de uma verdade clara e indesmintível? Pensando bem, parecia-me claro que seríamos campeões brasileiros de 2010. O bêbado falou, não ouvi, mas acredito no cão. Que razão ele teria para me iludir, sendo um cão puro e sincero? Após alguns passos me virei sem temer a estátua de sal daquela cena delirante. O cão e o bêbado estavam novamente abraçados. O cão levantou sutilmente sua pata esquerda e a fez recolher, levantando-a novamente em seguida, e o fez por mais duas vezes. Ato contínuo me confidenciou: “Ele acaba de me dizer que a Glória Eterna virá no ano que o mundo se livrará da peste. Siga seu caminho”.
Foi o que fiz.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão