Aprender com a natureza não é complicação. Basta não ser cretino.
Ancorados em crenças que nos entronizavam no topo da hierarquia dos seres vivos, com o resto do planeta a justificar sua existência pela razão única de nos servir, podíamos ter desembarcado de nossa arrogância já a partir do conselho desprovidencial de uma cobra que nos levou à necessidade de expiação do pecado original. Mas não. Ainda, por relembrança, pela hostilidade de fenômenos naturais ou picada de bicho esquisito. Só por tarde fomos acordados de nossos delírios antropocêntricos pelos avanços da Geologia e Astronomia no Iluminismo. Descobrimo-nos reduzidos a condôminos de um planeta holístico, a girar submissamente em torno de um sol poderante, um grão de areia em uma vastidão de dunas galáticas. Logo depois, ao datar as matérias formadoras da crosta terrestre para muito além do tempo bíblico, a Geologia revelava: quando nos tornamos eretos e passamos a acumular vantagens competitivas em relação a outras vidas que indormem por este chão de terra, água e areia – embora ainda paguemos por isso com dores lombares -, vida por aqui já havia há bilhões de anos.
Nem sempre fomos cabotinos. Quando nos pusemos a ler o funcionar da natureza, colhendo humildemente a matéria-prima para o próximo passo de nosso itinerário civilizatório, pusemos a bola pra dentro. Seis mil anos antes de Cristo, aprendemos a nos planejar pelo cultivo organizado da agricultura, a auferir excedente de produção de forma a estocá-lo para tempos difíceis. Ou negociá-lo em troca de outros bens que se nos mostrassem úteis em nossa saga da sobrevivência. Tempo de ter o suficiente para o viver, em que sequer intuíamos que o macho atuava na procriação, o que só nos foi possível quando observamos relação temporal de causa e efeito entre o coito e a fazeção de filhotes no mundo dos bichos. Em harmonia, o macho cuidava da caça, exaustiva e de alto risco, ligada às necessidades imediatas. A mulher, fonte da vida e depositária da sabedoria que nos escapa, encontrou seu lugar e domínio na agricultura, planejável e mais sofisticada que a caça. Depois, por obra da leitura misógina da religião, o patriarcado se impôs e nos governa aos barrancos e trancos até hoje. Por contação de oito mil anos! Ontem, não é? Hoje, um matriarcado sequioso e justo bate às nossas portas com a pressa de um entregador de pizza. Se juízo restar aos homens, que entreguem a elas a tarefa de nos salvar das bobagens que intentamos.
Antes, bastaram dois séculos de furor industrializante para definhar a fonte de recursos essenciais à vida que o cosmos nos tarefou viver: o planeta em que deitamos cama. Agora é farejar o prejuízo. A ampulheta emborcou. Vimos voltar-se contra nós as injustiças que praticamos pelas regras idiotas de uma sociedade competitiva e fundada na posse insaciável. Injustiças não contra a natureza, mas contra nós mesmos. Enredamo-nos em um labirinto de saída improvável, a subjugar o outro pela medida de nossas ambições. A morte da humanidade, antes um borrão, já se achega com feições definíveis. Há um quinhão de aprender com o ambiente que nos anfitriona, mas a ganância cega e ensurdece.
Quando me mudei do Rio para Mury, Nova Friburgo, e sentei ali, eu e a família, praça de dez anos, tornei-me contemplativo, receptivo ao pulsar cadenciado do tempo. Não lento, mas exato. Na medida das coisas. Aprendi a espera que não se abrevia, a espera do tempo natural. E plantei minhas mudinhas, perscrutando aqui e ali uma nuvenzinha promissora, a cheirar o cheiro da terra que muda pelo variar dos ventos. Mas nem sempre foi assim. Quando por lá aportamos, vivemos a ilusão de que uma semente hoje plantada já se lançaria em forma de fruto tenro e lustroso à mesa na semana seguinte por obra de um milagre que me importava menos entendê-lo que apenas esperá-lo. E esperei muito, esperei o esperar de aprender.
Hoje, ainda que longe de Mury, se a vida me oferecer chão de se plantar ainda que uma mudinha, vou largar semente. Mas vou largar sem pressa, com a paciência que aprendi com as minhas mudinhas de Friburgo.
Se esperar é sofrimento, dói mais não aprender com a espera.

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